segunda-feira, 24 de junho de 2013

No meta espaço da meditação

Boa parte da prática de Yoga se dá na vida cotidiana, nas pequenas coisas do dia a dia, quando eu ajo de modo a prestar atenção ao que faço, para estar em harmonia comigo mesmo, com os outros e com o mundo. Isso exige bastante concentração, pois preciso ficar atento ao que faço e, ao mesmo tempo, a mim mesmo.

No entanto, quando tenho a oportunidade de me retirar do dia a dia e ficar apenas comigo, sem estar dedicado aos compromissos diários, nesses momentos então tenho mais disponibilidade para preparar o meu local de meditação, conforme a tradição Natha, que aprendi nos textos do Carlos Eduardo Gonzales Barbosa.

Nessa preparação, imagino que estou desenhando uma mandala enorme, com um quadrado dentro de um círculo. O círculo representa o horizonte geográfico, é um meta horizonte. De olhos fechados, imagino diante de mim, no plano do coração, esse grande círculo. Estou dentro desse círculo e também do quadrado, que se torna uma muralha de proteção. Sobre cada quina desse quadrado coloco um objeto especial.

Com a imaginação, na quina à minha frente e à direita, ponho uma fogueira; na quina por trás e à minha esquerda, faço uma fenda por onde passa o vento; ainda por trás, mas à minha direita, coloco um braseiro, que não ilumina, mas aquece; e de novo à minha frente, mas à esquerda, coloco uma bacia com água potável.

Observo que na minha frente, lá longe no horizonte, onde nasce o sol, está o Leste, que representa tudo que me é consciente. Atrás está a minha sombra, o inconsciente, o Oeste.

Então, no Sudeste, passou a haver uma fogueira flamejante, que me acrescenta iluminação, para esclarecer melhor o que me é consciente. O sol ilumina tudo, indistintamente, mas a chama dessa fogueira é a minha lanterna. Lembro também que, a seguir pela minha direita, está o Sul, nessa mandala, onde ficam simbolicamente meus antepassados e todos aqueles que me ensinaram ou ajudaram a ser quem eu sou.

Portanto, do lado direito tenho uma herança de conhecimento, para ajudar-me a compreender o que me está consciente, e a luz da fogueira para ajudar-me a esclarecer tudo o que está iluminado pelo sol da minha consciência. Somam-se assim as luzes do consciente, do esclarecimento e do conhecimento.

Já a Sudoeste, embora sem luz, há o braseiro (colocado por mim), há o calor que se mantém ativo e que acalenta a minha herança ancestral: que preserva aceso o conhecimento, mesmo inconscientemente para mim. Tanto o Sudoeste como o Oeste estão por trás de mim, nessa mandala. Aí, tudo é inconsciente, porém, verdadeiro, pois não consigo mudar com as razões da consciência. O inconsciente é absolutamente confiável. É por isso que posso acreditar em minha intuição.

À minha esquerda está o meu Norte, o meu futuro, que realizo com meu entusiasmo e com o auxílio do impulso irresistível, que é representado pelo vento que sopra daquela fenda na muralha, a Noroeste. Por fim, a Nordeste, na esquina do muro, está colocada a bacia com água doce, para alimentar a minha vida, pois a água doce representa o sabor, o alimento vital.

É, portanto, com entusiasmo e alimento que construo o futuro, baseado no que tenho esclarecido, do que compreendo do passado e dos valores que estão no inconsciente.

São esses oito sentidos ou direções da mandala, que constituem o ambiente do local de meditação. Em cada direção há um valor simbólico associado, pelas representações sugeridas pela tradição indiana. Os hinduístas, por compreenderem que temos uma natureza cultural, usam alegorias míticas, idealizadas, imaginárias. Essas representações ajudam na identificação daquilo com o que se está engajado. Eu, humano, ser cultural, embora não indiano, também preciso criar a aparência daquilo com o que me identifico e também do que constitui a orientação de meus valores.

Então, posso aplicar essa mandala, visualizar as oito direções e seus simbolismos. E como são lugares meta geográficos, nem é preciso estar de frente para o sol, ao amanhecer. Onde eu estiver, diante de mim, estará o "meu" Leste. Esse é um recurso interior de firmeza e estabilidade, porque esse referencial é totalmente meu, e independe de condição material.

A visualização desse meta espaço pode ser feita tanto de olhos fechados como abertos e a qualquer hora do dia ou da noite, num lugar onde eu me sinta seguro. Com ela irradio a minha mandala, a partir do meu centro afetivo, o coração, com o propósito de acalmar as paixões, tanto as negativas (de aversão), como as positivas (de prazer). Com essa mandala interior, posso esclarecer e compreender o que me está consciente, agradecer aos que me antecederam, entregar-me confiante ao inconsciente, projetar o futuro e me sentir mais tranquilo, em paz.

Thadeu Martins

quinta-feira, 21 de março de 2013

O lugar da meditação

A tradição de Yoga e meditação parte do princípio que a realidade é filtrada pelas muitas heranças culturais que eu, você e todo o mundo tem, como ser educacional. Eu não sou simplesmente, eu aprendo a ser. Quem me ensina é a realidade, intermediada pelas pessoas que lidam comigo.

Por isso, a minha condição de felicidade tem tudo a ver com o modo como percebo a realidade e me percebo. Então, seria ótimo eu aprender a ver, sentir, perceber a realidade de um modo que eu não complique demais, e aceitar a realidade como ela é. Lembro, no entanto, que tudo que eu não consigo perceber também faz parte da realidade.

O ensinamento de Yoga ajuda a compreender que a realidade pode ser bastante favorável ou prejudicial, dependendo da maneira como eu a encarar, considerar e levar a minha vida. O que se propõe é o hábito de serenar a mente, de tal modo que os meus muitos filtros da realidade se dissipem, para eu perceber a realidade o mais próximo possível do que ela é de fato e, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade de aceitá-la e prosseguir vivendo em paz.

Desenvolver essa habilidade é mais exigente no âmbito social, pois nele me deparo com valorizações sociais praticamente em todos os momentos da vida. Mas o quanto estou condicionando, desse modo, a minha paz interior à aprovação social, que é algo meio indeterminado, mutável e despersonalizado? Arrisco-me assim a nunca ter a referência autêntica da paz e da felicidade.

Viver socialmente requer a habilidade de fazer de conta que sou "normal". Assim, fico mais ou menos parecido como todo o mundo está, para ser mais econômico e não precisar gastar tanta energia, para explicar como sou feliz de um outro modo, enquanto, cultivo a minha autenticidade, quem de fato sou.

Yoga e meditação viabilizam o propósito de praticar esse equilíbrio, de cultivar a autenticidade, de serenar a mente para que ela não fique muito afetada pelo turbilhão social. Assim, são reduzidas as condições de sofrimento, que em geral são impostas por medos, anseios, ignorância, egoísmo, por querer estar sempre incluído. Pode-se olhar a realidade, com mais independência dessas condições negativas, de modo que elas sejam neutralizadas. Cultivo, portanto, a paz e lido com a realidade do jeito que desejo, ajudado pela minha autenticidade.

Mas, claro, não tenho tanta onipotência assim, não estou totalmente no controle. Quando abro os olhos, por exemplo, só consigo enxergar 180º graus à minha frente. Os outros 180º não vejo, mas eles fazem parte da realidade. Estou me referindo ao inconsciente. Para ter acesso ao inconsciente, fecho os olhos, respiro, sereno e me deixo envolver por ele. Dessa forma, eu posso também sentir os meus valores, pois eles foram cultivados inconscientemente. E o melhor é que esse inconsciente nunca vai me enganar, porque não tenho como colocar filtros nele. Ele manifesta-se, até quando não quero: no sonho, no impulso de fazer algo ou numa inquietude interior. Ele é enorme, é tudo aquilo que está fora da minha consciência física e social.

Vale, portanto, cultivar condições de firmeza, tranquilidade e conforto interior, de modo que eu possa apurar a minha intuição, que é o recurso que se tem para sintonia com o inconsciente, tanto o que me seria individual como o que é coletivo.

Os acréscimos, que venho fazendo à minha prática de meditação, tem esse propósito e referem-se a uma tradição que une a ação física com a idealização mental. Não basta filosofar, preciso sentir o meu corpo e bem tratá-lo, pois ele é o meu território e é com ele que eu vivo.

Segundo a tradição hinduísta do grupo Natha (séc. VI), da qual, quanto mais aprendo, mais admiro e respeito, é muito importante preparar o lugar da meditação. E aí há dois lugares: o geográfico, o lugar onde estou sentado – que deve ser confortável e agradável –, e o lugar metageográfico, o lugar no meu espaço interior. Enquanto o lugar físico precisa de condições materiais favoráveis, o metageográfico tem que ser preparado mentalmente, de uma forma mítica, para direcionar a minha emoção, tanto de modo alegórico, como de modo simbólico.

Para tanto, de olhos fechados, imagino um espaço que se forma pela projeção do meu coração, pelos oito sentidos de uma rosa dos ventos, e vou atribuindo energias e sentimentos a esses sentidos metageográficos. Assim, projeto à minha frente o Leste, onde nasce o sol, onde está o que é consciente, com o propósito de aceitar a realidade; de modo análogo, a minha sombra, projetada para o Oeste, eu associo ao que é inconsciente, e que representa tudo que não vejo, mas respeito; projeto à minha direita o Sul, que associo ao que apreendi para viver e, portanto, agradeço aos que me ensinaram e me antecederam; assim como, projeto à minha esquerda o Norte, que representa o futuro, para onde vou, com entusiasmo. Ao mentalizar essas imagens e estas palavras – aceitação, respeito, gratidão e entusiasmo – e trazer isso para dentro do coração, crio condições de firmeza e tranquilidade.

Os outros quatro sentidos, diagonais, são as de conforto, aquelas que vão acrescentar condições agradáveis à meditação. No desenho mental, seria como se eu tivesse levantado quatro paredes nos limites distantes, à frente, por trás, à direita e à esquerda (uma muralha quadrangular inserida no círculo do horizonte). Em cada canto dessa muralha (dessa minha mandala mental) colocarei também energias e sentimentos que darão conforto à meditação.

No Sudeste estará uma fogueira controlada, cujo fogo me ajudará a esclarecer o que vejo (no Leste consciente), com a ajuda do que apreendi (pelo Sul dos meus ancestrais); no Noroeste haverá uma fenda na muralha, por onde surge o vento, irresistível e impulsionador do meu entusiasmo para eu realizar o futuro; no Sudoeste, sobre a muralha, tenho algo equivalente ao fogo, um forno aberto de tijolos com brasas incandescentes, que não iluminam, mas que acalentam e mantêm a minha energia (herança cultural do Sul e os meus valores inconscientes do Oeste); por fim, na direção Nordeste, sobre a muralha, tenho uma grande bacia d'água doce, que me nutre para a construção do futuro.

Tudo isso eu crio dentro de mim mesmo, um lugar de meditação, de autocondicionamento positivo, independente de qualquer realidade material, estrutural ou social. Nesse lugar, que reúne os elementos emocionais e míticos necessários para a realização do meu futuro, eu me preparo para lidar diariamente com a realidade.

Thadeu Martins

terça-feira, 5 de março de 2013

Novidades na Meditação

Tenho aprendido muito com os livros do Carlos Eduardo Gonzales Barbosa, estudioso brasileiro de sânscrito, hinduísmo e Yoga. Os textos dele têm me ajudado a compreender, com outros pontos de vista, muitos conceitos e ensinamentos que tenho incorporado nos últimos 40 anos. E um dos novos aspectos, que me têm chamado atenção, é relativo aos rituais de meditação.

Depois dos exercícios de Yoga que pratico, concluo com a prática de meditação. Quando medito, o propósito principal é serenar a mente, ficar tranquilo. Mas, de verdade, esse serenar a mente não é propriamente um fim, é um meio. Crio condições para um objetivo maior: viver feliz. E esse objetivo está muito vinculado às condições de eu conseguir perceber a realidade de modo menos deformado, pois, assim serei capaz de enxergar sem as "lentes mentais" que uso diariamente. Afinal, eu, você e todo o mundo é educacional, aprende a ver a realidade de uma determinada maneira (aquela que apreendeu).

Então, o propósito de serenar a mente é de eu me transformar em alguém capaz de perceber a realidade com o mínimo de influência das minhas próprias sensações. Não é nada fácil, pois vejo tudo com a herança cultural que tenho. Alguém poderia até concluir que o propósito de Yoga é impossível, pois sempre haverá uma grande quantidade de filtros entre mim e a realidade. Mas como isso tudo é relativo, se eu conseguir retirar muitos filtros, já vai melhorar bastante. A vida ficará muito melhor.

Quando a mente serena, ela diminui os condicionamentos, que o organismo traz, de ansiedades e outros sentimentos acumulados, e que criam todo o tipo de mal-estar. No entanto, ao sair do modo de viver com tranquilidade, volta-se ao modo habitual, que privilegia a doença, estimula a criação de planos de saúde e de outras armadilhas sociais de preocupações e medos.

Os exercícios de Yoga têm o propósito de ajudar a manter a saúde em bom estado, principalmente a condição de respirar bem e de manter a estrutura óssea bem posicionada pela musculatura, para que os desvios não aconteçam ou sejam apenas eventuais. O fundamental mesmo é a pessoa viver em paz, alimentar-se bem, dormir tranquilamente, ser socialmente aceitável, lidar bem com os compromissos, ou seja, evitar problemas e permanecer em paz. Dessa forma, presta-se mais atenção à realidade de modo a vê-la do jeito que ela é propriamente e, com isso, pode-se viver uma vida mais plena, mais feliz. Em geral, esses cuidados dão certo.

Com o foco na meditação, é importante começar bem o dia. Já iniciar o dia meditando. Antes de sair do quarto e encarar as mil obrigações do dia a dia, nem acender a luz, ficar no escuro, sentar no chão ou na cama e fazer uns quinze minutos de meditação.

Nessa hora, vai-se criando um ritual, do qual eu quero falar agora, com o que depreendi dos textos do Carlos Eduardo Barbosa. Trata-se de um ritual muito antigo, que a partir do século VI foi sendo aperfeiçoado pelos Natha; importante grupo religioso hinduísta que preservou o Yoga, num período em que este quase foi esquecido na Índia. Os Natha desenvolveram um jeito especial de preparar o local da meditação. Para eles, esse local deve estar orientado para o Leste. Mas não é preciso estar, necessariamente, de frente para o Leste geográfico, onde nasce o sol. O importante é imaginar, com os olhos fechados, que, diante do meu peito, está o Leste. O principal local de meditação é o próprio corpo. Assim, o importante é o local do meu corpo em relação a esse espaço virtual de meditação, que não está referido geograficamente, mas mentalmente ou espiritualmente, como se quiser, para dar um sentido meta geográfico. E a direção primordial é a que está diante do meu coração e dos meus olhos; ela então será o Leste.

O importante é o simbolismo que o Leste representa: a consciência. Diante de mim aquilo que está iluminado, que eu posso ver e representar. Mas atrás de mim (no Oeste), há também outra direção (sentido) muito importante: o inconsciente, pois a realidade também inclui aquilo que eu não vejo. Então, ao meditar, devo considerar que vou lidar não apenas com as coisas de que terei consciência, mas também com muitas outras que estarão inconscientes – externamente e interiormente a mim.

Vivo em um mundo que estimula a consciência e descarta a intuição, no entanto, há um campo enorme que não está consciente para mim, para você e para cada um. Experimente, por exemplo, abrir os seus braços até onde você conseguir ver, ao mesmo tempo e com os olhos para a frente, as suas duas mãos. Isso abrirá pouco mais ou menos que 180 graus; dentro dos quais conseguirá ver as coisas ao seu redor. No entanto, dos outros 180 graus você não conseguirá ver nada, embora possa intuir, inferir alguma realidade, a qual estará de fato fora da sua consciência. Perceber a realidade, portanto, significa considerar o que há de Leste a Oeste, mesmo que eu não esteja vendo tudo.

E o que representaria o Sul no meu local de referência? Representaria tudo o que me foi trazido culturalmente: o passado, as contribuições dos meus antepassados, o que apreendi pela generosidade dos outros ou pelas suas influências. Enquanto o Norte indicaria o que vou contribuir, aonde vou, o futuro.

Fecho os olhos e imagino um grande espaço, extensão de mim, esse espaço projeta-se a partir do meu coração, que se projeta lá para frente, num céu imenso ao redor de mim, totalmente escuro. Aí o sol começa a nascer no plano do meu coração, trazendo a consciência da luz no Leste. Eu concentro também minha percepção na direção Oeste, do inconsciente – que é muito mais fidedigno, pois não tem os filtros da consciência. Percebo também, pelo Sul (à minha direita), tudo aquilo que me formou (e agradeço), e pelo Norte, para onde vou, o que eu quero vir a ser (e me entusiasmo). Desse modo, eu e o meu dia começamos sintonizados nas direções que me dão estabilidade e firmeza!

Ainda há os quatro sentidos (ou direções) que complementam esses quatro cardeais, mas que ficarão para outra conversa.

Thadeu Martins