sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Yoga e a “vidagame”

Ao longo das nossas conversas, temos chamado atenção para o fato de que tudo aquilo que percebemos e vivenciamos está sempre filtrado por muitas lentes, pelo sistema nosso, físico, que tem o papel de traduzir e reunir percepções. Essas se transformam em significados e emoções que passamos a chamar de realidade.

Mas a nossa realidade é um videogame constante, em que ficamos, o tempo todo, no jogo da percepção e da realidade. No fundo, nós lidamos mesmo é com as nossas percepções, não com a realidade. O que sabemos da realidade é o que nos chega pela percepção, pelo nosso videogame. Isso faz a vida ficar muito interessante, até porque cada um tem o seu próprio videogame. Os nossos videogames têm muito em comum. Nós vamos compartilhando as nossas compreensões conforme a época em que vivemos.

Aí, vem algo essencial, para o qual o hinduísmo e outras tradições filosóficas chamam a atenção: o viver dá muitas oportunidades para o sofrimento, porque o tempo todo nós vivemos emoções associadas aos significados daquilo com o que estamos nos relacionando. Esses significados provocam emoções e essas podem ser muito desagradáveis. O ser humano tem uma forte tendência a dar mais importância ao que é desagradável.

Todos nós temos geneticamente a pré-disposição de dar mais atenção às notícias ruins. A marca do ser humano é essa propensão ao sofrimento. Por isso, Patanjali e outros sábios nos orientam a prestar atenção às nossas movimentações mentais para que, no momento em que nos enveredarmos pelo caminho da notícia ruim, possamos interromper esse processo autodestrutivo.

Este é um objetivo da prática de Yoga: termos o domínio dos nossos pensamentos; porque a mente é apenas uma das nossas manifestações. As primeiras são Purusha e Prakriti, alma e matéria; ambas formam a consciência. Depois vêm a percepção das emoções e a percepção dos significados (Budhi). Em seguida, vêm as três qualidades da matéria: a dureza, a leveza e o movimento, que transforma a matéria em leveza e vice-versa. Somente depois desses é que vem a percepção dos sentidos. Se nos deixarmos, sem consciência, levar pelos sentidos, a tendência será de ficarmos presos às percepções dos sentidos.

Como geneticamente fomos preparados para lidar com mais atenção com tudo o que é negativo e ameaçador, facilmente entramos no caminho da negatividade. É freqüente nos lembramos de fatos ou sensações ruins. Patanjali dá a dica: quando você perceber que está indo nesse caminho dos sentimentos ruins, imediatamente mude o videogame, saia da cena que está lhe fazendo sofrer e vá para outra, na qual você se sinta mais leve e melhor.

Claro, essa mudança não é fácil, pois estamos acostumados com o jogo do sofrimento. Nós nos habituamos a jogá-lo. Mas basta começar um outro jogo, para propiciar a mudança positiva. A vida nos dá uma vantagem: a nossa flexibilidade emocional. Conseguimos passar, num estalar de dedos, do choro para o riso. É até surpreendente!

A principal dica, então, é estarmos conscientes dos nossos pensamentos. Se você estiver convencido(a) de que vive um videogame, que a sua relação com a realidade está sempre marcada pelo jeito como você a encara, tudo muda. Você passa a ter a escolha de se apegar ou não à desgraçeira.

Nós somos seres afetivos. Na hora em que ocorre a tragédia, nós vamos nos envolver e sofrer, vamos vivenciar com profundidade. Depois que a emoção se resolve, o momento também passa. Tudo passa e essa é uma grande vantagem! Já que passa, não há por que ficar esticando o sofrimento, ficar trazendo do passado as sensações negativas, uma vez que os fatos que as provocaram não existem mais. As fatalidades havidas são fatos passados (pois!).

Então, nós vivenciamos o momento, deixamo-nos passar pela emoção até que essa passe. Seguimos em frente. Se a situação ficar voltando, saia dessa sintonia. Avalie a situação, anote as providências que devem ser tomadas para que não fiquem voltando, ou determine-se a perdoar e siga adiante.

Mantenha-se no domínio da situação, com distanciamento para olhar a realidade com outras emoções, mais positivas para a vida, e poder perceber a beleza de privilégio que é viver.

Thadeu Martins

domingo, 16 de dezembro de 2007

Com olhos de ver

A prática de Yoga é bastante intensa, pois despertamos a nossa atenção para focalizar no fenômeno da consciência. Isso cria uma mobilização diferente da habitual, na medida em que desde pequenos somos levados à produção. É claro que, antes do estímulo social, temos muitas experiências emotivas, pois recebemos grande atenção dos adultos. Há duas alimentações muito fortes de início: afetiva e de comida mesmo. Há também um grande estímulo primeiro para que nós correspondamos ao afeto e ao alimento. E após um certo tempo, somos cobrados para nos comportar conforme os adultos gostariam. Até chegar o momento em que somos cobrados a produzir. Vai havendo uma pressão enorme nesse sentido.

Assim, somos levados por essa corrente, esse fluxo. Isso, para cada um de nós, passa a ser a vida. Quando começamos a conversar sobre prestar atenção nos nossos limites, em nós mesmos, em perceber nossos sentimentos e evitar a ação, há um choque inicial. Como assim não agir, se fomos educados desde crianças a agir? Mas vamos aos poucos percebendo que isso faz sentido. A partir daí, as coisas começam a ser percebidas de um modo diferente. À medida que vamos nos habituando com essas diferenças, começamos a perceber muitas coisas que antes não percebíamos. Começamos a nos sintonizar para muitas coisas que antes passavam despercebidas. Aí, começamos a perceber desdobramentos que vão além do físico.

Ao ampliarmos a nossa capacidade intuitiva, começamos a sentir e a perceber coisas que são diferentes. Em Yoga, além de trabalharmos a mente, em perceber o que está além do corpo de comida, também mexemos nesse corpo, em memórias musculares ancestrais. O nosso comportamento também é memorizado. Rigorosamente, tudo é o mesmo corpo físico. Esse é um ponto muito importante. A Física Quântica, que estuda o fenômeno da não-localidade, demonstra que não é necessária a causalidade; a conexão não se dá apenas entre matéria e matéria. Já na época de Einstein, era aceito que partículas extraordinariamente distanciadas estavam conectadas a ponto de interferirem mutuamente em suas polarizações, mesmo não havendo aparente conexão física nenhuma entre essas partículas.

Na compreensão hinduísta, todos nós somos Prakriti. Então, há uma conexão física permanente. Além de sermos Prakriti, também somos Purusha (uma alma). Quando dizemos Namastê para outra pessoa, é a mesma divindade, uma saudando a outra. Para nós é muitas vezes difícil essa compreensão, pois temos uma educação prática da vida, que é muito útil para os nossos referenciais e limites, mas que não percebe essa sutileza.

Patanjali, no terceiro capítulo do Yoga Sutra, fala dos poderes (siddhis). Ele afirma que se nós desenvolvermos a nossa mente, a ponto de focalizar a nossa atenção totalmente em algo, acabamos percebendo a essência desse algo. Essa essência não é dada pela aparência visual. Vamos penetrar e ter acesso a algo muito diferente daquilo que está demonstrado.

Quando aguçamos a nossa percepção, começamos a perceber muito mais do que percebíamos antes. Imagine expandir a sua capacidade olfativa, tátil, visual, perceptiva de modo geral. Imagine ainda a conexão dos seus sentidos se expandindo. Nós estamos falando de pelo menos cinco possibilidades, cinco campos de existência, de manifestação da vida, que são: matéria, sentimento/emoção, conhecimento, pré-conhecimento e a divindade.

O que Patanjali orienta é o seguinte: aprofunde-se, mas se mantenha íntegro, caso contrário pode ficar encantado com essa novidade de ter os sentidos apurados. O cuidado é para evitar a dispersão.

A dica é praticar Yoga com atenção. Medite antes de dormir e na hora em que acorda. Esses são momentos especiais. Mantenha a atenção nos seus sentimentos, projete pensamentos positivos, tente fazer o seu dia ficar maravilhoso antes mesmo de surgir, crie positividade. A idéia maior é abrir-se para a vida e ser feliz.

Thadeu Martins

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Distanciamento para “cair em si”

Nos últimos encontros, temos conversado sobre algo essencial na prática de Yoga: a compreensão de que cada um de nós é real, o mundo é real, mas as relações que estabelecemos com os outros e com o mundo é ilusória. Não é ilusória no sentido de que não exista, mas porque essa relação é intermediada pelos sentimentos e pelos significados que nós percebemos ou atribuímos a nós, aos outros e à realidade.

É como se cada um de nós, no lidar consigo próprio, com os outros e com o mundo, fosse criando um videogame. Vivemos uma realidade aproximada. Cada um de nós percebe a realidade de forma diferente e essas percepções são aproximadamente parecidas, não são rigorosamente iguais. É esse perceber de modo diferente que torna esta vida diversificada. A questão-chave é a importância que nós damos às coisas. A partir da importância que damos a um determinado fato, haverá níveis diferentes de envolvimento emocional. Ou seja, cada um de nós é afetado pela sua própria percepção da realidade.

O que importa é o que percebemos, o que sentimos quando vivenciamos os nossos papéis sociais. E o que vivenciamos é intermediado, o tempo todo, pelos sentimentos e pelos significados. Então, é preciso manter o foco nos significados e sentimentos. Podemos nos perguntar: será que essa situação exige um sentimento tão profundo? Muitas vezes nós supervalorizamos uma situação que nem merece tanto. Daí a expressão: “fulano está fora de si”. Que “si” é esse? Deve ser alguém muito anterior dentro de nós, que não se abalaria diante dessas situações factuais que não são tão importantes assim.

Como podemos então continuar em nós mesmos e, ao mesmo tempo, vivenciarmos a realidade? É uma grande mudança. Como toda grande mudança, temos dificuldade em realizá-la se não tivermos método, propósito, ajuda ou fé. Na prática de Yoga, há um estímulo para que tenhamos essa compreensão, de que tudo é real, mas a relação entre nós e tudo é ilusória e de que existe um “si” interior que pode não se abalar diante dessa interação com a realidade. Assim, é sugerido que seja praticado com freqüência, de modo a se tornar um hábito, o distanciamento para observar a realidade.

Nós vivenciamos o cotidiano, atribuímos significados aos fatos e às coisas com os quais convivemos. Mas, assim que a situação se dá, vamos refletir um pouco sobre essa situação; vamos nos habituando a cair em nós mesmos, vamos nos distanciando dos significados, dos sentimentos que atribuímos às coisas ou aos fatos.

A idéia, que está no pano de fundo, é que podemos promover mudanças paulatinamente, pois é complicado mudarmos bruscamente. É preciso a formação de um hábito diário. Assim vamos criando um novo condicionamento, que vai nos ajudar a descondicionar o achar que todas as interações que temos com a realidade são a coisa mais importante no mundo. Elas são relativas. Podemos perceber a relatividade delas se pararmos um pouco para nos afastarmos da situação e olhá-la com outros olhos, que são do “si”, do eu interior, daquele que vê sem a intermediação dos sentimentos, das emoções e dos significados.

Esse eu interior é muito citado no Yoga Sutra do sábio Patanjali. É o Ser, a alma, Purusha, Atman. É o eu primordial, inabalável, que antecede o eu sujeito das ações no cotidiano. Então, quando cultivamos a prática de meditação, a tranqüilidade, o relaxamento, quando olhamos as coisas e fatos esvaziando-os de significados e emoções, nós nos aproximamos do eu interior. Claro que vamos deixar o eu das ações prosseguir agindo, pois afinal vivemos nesta realidade para realizar.

Além do eu primordial e do eu das ações, temos o eu dos significados e o eu das emoções. Esses dois últimos fazem a intermediação entre os dois primeiros “eus”. O eu das emoções é aquele que leva susto, que sente as coisas; o eu dos significados é o que racionaliza, que entende as coisas.

Mas o que isso tem a ver com os exercícios de Hatha Yoga que nós praticamos? Originalmente, os exercícios indicados por Patanjali buscavam, além da compreensão do comportamento, uma postura firme e confortável que possibilitasse atenção com a energia vital, com a consciência. Para isso, era preciso concentrar-se na respiração, pois esta segue o ritmo de nossa energia. Ele também propunha os exercícios de meditação. As posturas, associadas à atenção com a respiração, acabaram originando dezenas de exercícios.

Durante um determinado período de tempo, a vida das pessoas era de tal modo exigente de atividades que ninguém tinha vida sedentária. O corpo não era objeto de atenção. Foi então ocorrendo uma mudança cultural, em que o corpo passou a ser visto como ou um aliado ou um sabotador desse propósito de estar atento. Quando ficou evidente que o corpo poderia ser uma fonte de enorme dificuldade de ficarmos atentos à vida, passou-se a dar ênfase à saúde do corpo. A saúde corporal passa então a ser vista como um meio para se poder estar atento à vida. Afinal, é com o nosso corpo que temos a possibilidade da experiência física.

Assim, os exercícios basicamente trabalham com quatro atitudes: (1) o sentido de ordem, de dever em relação à vida no mundo com os outros, propiciado pelas posições meditativas; (2) a tomada da consciência na realidade, que o nosso corpo propicia quando fazemos os alongamentos verticais ou laterais, quando percebemos nossos limites, quando aguçamos a consciência interior, a partir de exercícios respiratórios (Pranayamas) e meditativos; (3) a entrega, o desapego, que nos permitem o distanciamento da realidade, associados ao movimento respiratório de expirar e de se entregar (por exemplo na posição do Yoga Mudrá), em que abrimos mão do controle e “deixamos a vida rolar”; e (4) a autoconfiança, que se dá com o atendimento das outras três. Realizado o ordenamento, a compreensão e o desapego, vamos nos sentir autoconfiantes. A confiança é cultivada pelos exercícios em que se arqueiam as costas (para trás).

À medida que exercitamos o corpo, permitindo que todos os nossos sentidos participem dessas quatro atitudes, vamos para a nossa memória profunda, descondicionando e recondicionando, no sentido de reforçar a autoconfiança, o desapego, a compreensão e o ordenamento na realidade.

Os exercícios passam a ganhar maior importância nesse contexto. Eles não são um fim em si mesmos. O propósito é viver com a compreensão de estar em si, de lidar com a realidade, sabendo que é real, mas que a nossa compreensão é ilusória, pois está misturada com os sentimentos e os significados que atribuímos a tudo. Assim, vamos cultivando essas pré-condições, de modo que nos sintamos confiantes diante da vida, desapegados, com capacidade de compreender o que nos cerca, para podermos nos distanciar ou nos aproximar, conforme as circunstâncias e, ao mesmo tempo, com capacidade de viver esta ordem (da natureza da vida).

Thadeu Martins

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Eu profundis

Todos nós temos basicamente quatro “eus”. Há uma inteligência profunda ao qual raramente temos acesso, se é que temos acesso, mas que está presente. Exemplos disso são o DNA e o sistema nervoso autônomo, que funcionam sem que nós atrapalhemos. É uma inteligência absolutamente evidente, embora não possamos pegá-la ou dialogar com ela.

No outro extremo, há a inteligência do eu que realiza as ações, que vive o cotidiano, que é sujeito das ações. Ao contrário do eu primordial, sutil, este é material, porque só existe na relação com os objetos; é o eu que faz as coisas. Um é inacessível e o outro é totalmente acessível. Outro eu, que está próximo do primeiro, é o eu que leva susto, que antes mesmo da possibilidade de raciocinar, percebe a realidade e é capaz de emocionar-se com ela, independentemente de qualquer racionalização. O último eu, mais próximo do eu das ações, é o eu que racionaliza. É o eu que pensa, que usa o intelecto, que cria compreensão e significados.

Quanto mais nos afastamos do eu inacessível, do eu mais profundo, mais nos aproximamos do eu mundano, que é o que lida com a realidade, com os outros, com o mundo. Essa distância é intermediada, o tempo todo, pela emoção e pelo significado que a realidade nos proporciona.

Na abordagem budista, o eu é o “não-eu”, ou seja, não há um eu. Já para o Vedanta, ramo da filosofia hinduísta, o eu existe, mas o mundo não, portanto o mundo é uma ilusão. Na escola do Yoga, o eu existe, o mundo existe, mas a relação entre o eu e o mundo é ilusória. A justificativa dessa ilusão é justamente o fato de haver essa intermediação dos “eus”, o emocional e o racional, entre o eu primordial e o eu realizador das ações. A ação desse eu realizador é vista com significados, provoca emoções e é a percepção dos resultados das ações que vai gerar memória. Quando lidamos com a realidade, essa resulta, percebemos a realidade resultante e a percepção transforma-se em memória. E assim a vida prossegue, com esse processo acontecendo.

A emoção que sentimos e os significados, que atribuímos aos resultados e à própria realidade, vão conformando dentro de nós um panorama, que não é propriamente a realidade, mas apenas a nossa interpretação dela. É como se cada um de nós vivesse um videogame particular, conforme o conjunto das memórias que estabeleceu e a forma como recupera essa memória e lida com ela; basicamente lidamos com estes dois aspectos: emocional e de significados.

Podemos acrescentar um complicador ou fator de beleza, que é o seguinte: o conjunto de significados e memória, quando compartilhado por muitos indivíduos, forma cultura e a partir do momento em que esses indivíduos vão convivendo entre si, e assim formando civilizações, vai sendo criado um supra-significado, que alguns chamam de arquétipos. São os significados culturais. Esse campo de significados e de emoções não só está referenciado a cada um de nós como indivíduos, mas também são referenciados à geração na qual nascemos, àquela que nos antecedeu, à que vai nos suceder e a um determinado momento na história. Quanto maior esse momento, maior vai ser o campo de significados que estarão se referindo a nós.

Quando embarcamos nesse desafio, de querer compreender a vida, nós nos deparamos com alguns significados que reconhecemos com muita facilidade, porque nós mesmos os incorporamos à nossa vida. Mas, de vez em quando, esbarramos com alguns significados que nos surpreendem totalmente, que não temos idéia de onde surgiram. São justamente os supra-significados, os significados culturais.

Na psicologia, encontramos o conceito de inconsciente coletivo e de inconsciente, que basicamente se referem a esse conjunto de significados que estão além do indivíduo (ou antes dele). A palavra inconsciente aí está bem no limiar, é inconsciente e consciente, ou seja, manifesta-se e não se manifesta.

Há um processo de estabelecimento de memória a partir da nossa experiência de vida. Essa memória pode manifestar-se, seja por impulsos, por reminiscências, ou por outra denominação para essas manifestações; elas vão brotar disso que é fruto da nossa vida, das vidas que nos antecederam e daquelas com as quais nós convivemos (e quem sabe, das que projetamos).

O objetivo do Yoga e da meditação é incluir, em nossa vida, a sintonia com a inteligência primordial. Para isso, precisamos tirar os envolvimentos que foram criados pela emoção, pelos significados e pelas ações. Esse desenvolver-se propiciado pelo estado da meditação é o propósito da prática de Yoga. Uma vez que nós somos condicionados pela cultura e pelo ambiente no qual vivemos, pelo corpo, pela forma de respirar. Portanto, incluímos, na prática de Yoga, cuidados com o relacionamento social, com a saúde, com o nosso próprio comportamento, de tal modo que: tanto a vida social, como o nosso corpo e a nossa mente, nada disso atrapalhe esse des-envolvimento.

Dessa forma, podemos manter a nossa mente serena, como a superfície de um lago, capaz de refletir a inteligência primordial, à qual não temos acesso (...conscientemente...).

Thadeu Martins

O eu que lembra

Todos nós temos uma pré-disposição ao aprendizado e à medida que vamos convivendo com os outros, com o mundo, essa pré-disposição vai se concretizando e nos tornamos aquilo que somos.

Esse processo de aprendizado humano vai se dando com o registro de memória. Não sabemos ao certo como o registro ocorre, nem como se recupera esse registro. O fato é que a memória vai se estabelecendo. A manifestação dessa memória é justamente o grande desafio de controle. Em várias tradições, como em Yoga, trabalha-se o isolamento dessas reminiscências que conseguimos perceber para olharmos com distanciamento as lembranças, compreendê-las e tentarmos incorporá-las ou neutralizá-las.

O propósito em Yoga é a criação de um novo condicionamento em relação a essas reminiscências, quando elas aparecem. Basicamente é um exercício de apaziguamento, de distanciamento, em que observamos o pensamento e a emoção. Nesse exercício, nós nos perguntamos: por que isso está surgindo? Alguma compreensão acabará surgindo. Vamos então convivendo com a compreensão da resposta à pergunta para abrir mão e, assim, prosseguir.

O que se observa, tanto na compreensão milenar do Yoga, quanto em tradições mais recentes, como a psicologia, é que esse exercício faz com que consigamos superar, sublimar e até anular essas reminiscências, que são muito fortes. Além do exercício de meditação, que leva a essa capacidade de nos observarmos, há recursos do tipo lápis e papel na mão.

A sugestão é a seguinte: durante a meditação, ao observar o fluxo dos pensamentos e quando surgir um pensamento com o qual você tenha interesse em lidar, tente compreendê-lo, perceba qual é a emoção, veja quando surge novamente. Então, anote no papel, descreva o pensamento e as emoções envolvidas. A idéia é aumentar o distanciamento em relação a esses sentimentos e a compreensão intelectual deles. Depois de escrever, rasgue e jogue fora o papel. O fato de saber de antemão que a anotação será destruída já o libera de uma crítica, que estaria presente pela ameaça disso ser revelado, pois é algo que só diz respeito a você. Esse é um método bastante eficiente.

Ao refletir sobre o pensamento e as emoções em questão, você pode também se perguntar sobre a seguinte dicotomia: a situação exige ação ou perdão? Se há alguma ação que se justifica a ser realizada, você registra: há algo a ser feito em relação a essa situação. Caso não haja nada mais a ser feito, você também registra: nada mais há a fazer, só o perdão.

Esse exercício nos permite o distanciamento, porque na situação de conflito, por exemplo, ficamos envolvidos pelas circunstâncias. Passado o momento, é que temos a facilidade de racionalizar. Olhando com distanciamento podemos até rir daquela situação.

Assim, vamos nos habituando a ficarmos tranqüilos diante dos pensamentos, da realidade e das emoções para podermos lidar com os fatos, da forma menos deturpada possível pela herança de memórias, de experiências, pela fantasia que criamos na nossa relação com a realidade.

Thadeu Martins

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Consciente com o coração presente

Nos fundamentos da compreensão de como é o nosso eu, há sempre a menção a uma inteligência essencial, primitiva, que antecede a esta inteligência lógica, racional com a qual estamos acostumados a lidar na realidade social. Podemos dizer que existe um eu primeiro, uma consciência tão primordial que nem temos acesso a ela.

Para fazer uma analogia, basta lembrar do genoma humano, o qual até conseguimos mapear, vemos o efeito, mas não temos acesso à inteligência que o concebe. Essa codificação é de uma inteligência extraordinária a ponto de determinar pré-condições físicas em todos os seres. Nossos cientistas até conseguem mapear o DNA, mas não podem saber, por exemplo, por que a mosca tem 10 mil genes e o homem 30 mil ou por que os genes se agrupam de uma determinada forma. Embora seja bem evidente a existência dessa consciência absolutamente primordial, não a percebermos diretamente.

Em outro extremo, há esta inteligência realizadora da vida social, relacionada aos objetos da nossa ação, com os quais interagimos. De um lado, temos uma consciência, um eu ao qual não temos acesso; de outro lado, temos um eu totalmente referenciado aos objetos da ação. Mas temos também alguns “eus” intermediários.

Ora, quando levamos um susto, não temos tempo nem de pensar, mas tomamos consciência do susto. Damos um pulo, um grito. Não precisamos de uma consciência lógica para tomar susto. Temos também uma outra consciência que irá racionalizar o susto: por que me assustei?

Estamos falando então de quatro consciências: a inacessível, a referida aos objetos, a afetiva (pré-raciona) e a intelectual. Na compreensão hinduísta, esses quatro “eus” têm nomes. O primeiro é “Purusha”, “Atma”, o princípio divino da vida. É “a” consciência. O segundo é “Ahankara”, o ego, referenciado aos objetos, à densidade (“Thamas”). O terceiro é “Mahat”, o pré-racional, relacionado às emoções, e o último é “Budhi”, o intelecto.

Temos, portanto, um modelo, uma alegoria, que nos ajuda a compreender o que somos afinal. E analisando esse modelo, percebemos que as emoções (“Mahat”) estão próximas do princípio divino (“Purusha”). Quem atrapalha (e às vezes ajuda) ou intermedeia é a racionalização (“Budhi”). O ego (“Ahankara”) atua na realidade filtrada pelas emoções e racionalizações.

Vamos nos deter nessa relação conflituosa entre o agir (Ahankara), o sentir (Mahat) e o pensar (Budhi). Os três são geradores de percepções, de impressões dos resultados de suas respectivas atuações. Vamos memorizando esses resultados, sob formas que irão manifestar-se ou como reminiscências ou como tendências ou impulsos para ação - as quais surgem, em geral, fora do nosso controle. Quanto mais nos deixamos levar pelas manifestações mentais que brotam dessas reminiscências, tendências ou impulsos de nossa memória, mais embarcamos num mundo fantasioso, num fluxo social que aparenta ser a realidade. Saímos, assim, de nós mesmos para um mundo virtual, a ponto de viver uma vida totalmente dedicada ao que não é, sem perceber isto: que nos deixamos levar; perdemos o controle da situação; ficamos entregues a chuvas e tempestades; assim, os sustos serão sucessivos.

Em Yoga, somos estimulados a cultivar o nosso próprio ritmo por meio do cultivo da consciência, da compreensão das origens das reminiscências e dos impulsos da memória, com ênfase nessa relação entre o sentimento e o intelecto, para lidar com a realidade. O sábio Patanjali focaliza a nossa atenção para lidarmos simultaneamente com o mundo, com as pessoas e com os “eus” de nós mesmos. Segundo ele, devemos exercer plenamente os nossos papéis sociais, mas o mais importante é harmonizarmos a emoção e a razão, de modo a perceber que todos os fatos, com que lidamos, são circunstanciais. Eles também podem ser vistos, ou sentidos, com distanciamento. De que forma? Esvaziando as emoções de conteúdos que nos são prejudiciais, compreendendo o significado da aparente realidade ou das emoções. Assim, podemos nos apaziguar a ponto de ficarmos bem próximos da nossa consciência essencial (“Purusha”), que não é passageira como os fatos, e podemos lidar com a realidade de modo menos distorcido pelas nossas interpretações.

Portanto, desenvolver a consciência nada mais é do que tirar o envolvimento que o susto, o intelecto e a ação acrescentam à consciência original.

De início, precisamos manter o hábito de estarmos atentos, harmonizados. Um exercício prático é começarmos a analisar nossas próprias emoções. Feche os olhos e perceba o pulsar do seu coração. Você já está se abstraindo do mundo social, deixando o ego sossegado, a partir do momento em que a sua mente intelectual está voltada para a mente afetiva. Você está colocando em sintonia o coração e a mente, o cérebro da cabeça e o cérebro do coração. Você pode aumentar a sua atenção. Sabendo que o coração tem um ritmo, uma atividade, uma energia, a energia da respiração, leve agora a atenção simultaneamente para o coração e para o pulsar da sua respiração. Perceba que quando você respira, há uma certa quantidade de pulsos, de batimentos cardíacos. À medida que você vai respirando, o seu batimento cardíaco altera-se levemente. Prossiga nessa atenção consciente por alguns minutos, percebendo agora o ritmo da sua mente. Imagens, pensamentos e lembranças vão surgir, mas agora você estará no controle. Quando sentir que algum pensamento ou imagem está levando você, volte a observar a pulsação do coração e o ritmo da sua respiração.

Assim você vai se distanciando das reminiscências mentais. O objetivo é cultivar esse hábito de estar no controle, de se observar diariamente. Por que não começar agora mesmo?

Thadeu Martins

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Flores em você

Em Yoga, o Mulabanda (banda, fecho; mula, de Muladhara, centro de distribuição de energia da base da coluna; contração da musculatura da região anal e uretral) e todos os outros “bandas”, selos, têm por propósito o controle de energia. Eles têm dupla função: orgânica e energética.

Na concepção hinduísta, há milhares de canais de distribuição de energia no nosso corpo. São os nadis. Desses canais, os mais importantes são três (ida, píngala e sushuma) que ficam ao longo da coluna vertebral. São canais sutis de energia.

Os nós desses nadis são os chakras, que em sânscrito significam círculo. Há pelo menos sete desses centros de irradiação de energia. Cada um deles está associado a uma determinada região do nosso tronco.

Como na percepção hinduísta a nossa manifestação tem três qualidades, que são a densidade (tamas), a sutileza (sattva) e o movimento transformador (raja), podemos dizer que o sistema nervoso é a parte densa, tamásica da distribuição de energia dentro de nós. A energia em si é sutil (sattva) e seu movimento é ígneo (fogoso), raja.

Os chakras são representados pelos hinduístas como flores. Para cada chakra é associada uma flor com um determinado número de pétalas. O chakra que fica acima da cabeça, por exemplo, é chamado de Chakra das Mil Pétalas. Está associado à Budhi, que é Mercúrio, Hermes Trimegistro, é a inteligência. Curiosamente, o desenho desse chakra é muito semelhante ao da órbita de Mercúrio em torno do Sol, se visto da Terra!

Budhi também é chamado de Mahat, mas esse está no limiar da consciência inconsciente. Os hinduístas afirmam que no início da nossa existência, quando não havia nada, surgem Purusha e Prakriti, ambos sendo uma coisa só. Didaticamente, um é o aspecto que não se manifesta e o outro se manifesta. Purusha é o princípio da consciência não-manifestada. Prakriti, o aspecto que ao começar a se manifestar, apresenta Mahat, o pré-consciente, que é uma consciência não-discriminadora, anterior ao raciocínio. É pré-intelectual, mas é consciência. O início da consciência com inteligência discriminativa já é Budhi, que poderia ser representado por um cocheiro que orienta três cavalos unidos entre si, ou seja, as três qualidades da matéria.

Então, na imagem hinduísta de como a energia manifesta-se em nós, há sete círculos ou chakras, aos quais podem ser feitas várias associações. O primeiro chakra é o da base da coluna, associado à energia terrena. O segundo está na região das supra-renais (ou na base do baço), relacionado à água, às emoções, à criação da vida. O terceiro está na região do umbigo, do “fogo” da digestão. Os três são chakras de matéria. Já o quarto chakra está associado ao ar, que simboliza a transição para do material para o sutil e fica na região do coração. É a mistura de ar e fogo. O coração faz a transição dos chakras-matéria para os chakras-sutis, que são o da voz (da expressão), da região intelectual (que articula o significado das emoções) e o Chakra das Mil Pétalas, que é supra-racional, no limiar do espiritual (alma, Atman, individualização de Purusha).

Ao meditarmos, podemos levar a atenção, por exemplo, a cada um desses chakras; ir percebendo a transição de nossa atenção indo de um chakra para outro. Podemos sincronizar isso com o ritmo da nossa respiração, fazendo por exemplo a emissão do mantra OM, enquanto expiramos, sentindo “vibrar” cada um dos chakras ao som prolongado do OOOOMMMMM...

Mas havíamos começado a nossa conversa com a expressão mulabanda, apenas para chamar a atenção para outro hábito, muito mais simples, de fazer uma breve contração da região muscular do períneo, ao concluirmos uma respiração, tanto depois de expirar, quanto depois de inspirar. O propósito básico seria levar a atenção para a base muscular de onde se mobiliza toda a musculatura que dá sustentação à coluna vertebral. Assim, estaremos cultivando outro importante hábito: o de associar a respiração à tonificação muscular que nos permite ficar em pé ou bem sentados.

Por meio da atenção aplicada durante a respiração, tanto à sutileza dos chakras, como à materialidade muscular, vamos, no mínimo, nos apaziguando, nos desligando um pouco do mundo das mil e uma solicitações, prestando atenção ao nosso jardim interior.

Thadeu Martins

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A divina consciência de cada dia

Na origem de toda a articulação filosófica hinduísta estão os Vedas e a partir deles, o Sâmkya, o Yoga, o Vedanta (final dos Vedas) e mais outras escolas de pensamento. O Vedanta e o Sâmkya vieram sendo transmitidos por escrito, bem do princípio, enquanto o Yoga, na sua maior parte, foi transmitido oralmente e associado à prática. Há um aparente ateísmo no Sâmkya e de certo modo no Vedanta e um aparente teísmo no Yoga. Mas, no fundo, tudo está meio misturado: há uma compreensão da consciência como princípio divino como algo que não é personificado e há também, culturalmente, uma tentativa, em todas as escolas de pensamento, de personificar a consciência, a divindade primordial.

As escolas do pensamento hinduísta propõem um caminho filosófico. Algumas delas afirmam que o espírito individualizado, permanece dessa forma; a consciência originária de tudo se desdobraria nas várias espiritualidades individuais e esse desdobramento sempre permaneceria. Para outras escolas, essa individualização é pura imaginação nossa, a partir da experiência terrena de sermos indivíduos, num todo que é coletivo; tudo seria uma grande ilusão.

É interessante observar como as tradições do pensamento vão-se alternando nesses pontos de vista. Mas, independentemente do indivíduo se integrar ou não ao todo, há em todas as escolas a compreensão dos princípios da consciência e da ilusão. Na medida em que a experiência da percepção é muito marcante, experimentamos e tomamos o experimentado como verdade. Porém, o perceber estará sempre referenciado ao percebedor.

No Yoga e no Sâmkya, a compreensão de tudo é a partir de uma derivação original de uma unidade que é simultaneamente duas: Purusha e Prakriti, consciência e natureza que se manifesta para a consciência. Purusha é a pura consciência, percebe-se Prakriti pelo reflexo de Purusha. Nós, que somos ambas, temos a compreensão do todo pela manifestação; compreendemos aquilo que se manifesta e não temos a experiência daquilo que não se manifesta, porque não podemos experimentá-lo. Isso está na base de todo o pensamento hinduísta.

Purusha é a consciência que de nada precisa, que não se ilude. A primeira manifestação de Prakriti é Mahat ou Budhi (ou Mercúrio dos romanos, Hermes dos gregos, Trimegistro dos alquimistas), aquele que no indivíduo permite o acesso à compreensão. É o gestor da mente, que de uns trezentos anos para cá acabou virando sinônimo de consciência. Mas no hinduísmo, mente é Chitta, complexo mental; a consciência vem antes, é a consciência que viabiliza tudo o que se manifesta.

Hoje, felizmente, se observa uma convergência do pensamento científico (física quântica) e do pensamento místico, em que se coloca de novo a interferência da consciência, do princípio divino, na manifestação da natureza observada.


Cultivando a consciência

Em Yoga, estimula-se o cultivo dessa consciência primordial. E como podemos fazer isso? Prestando atenção, percebendo o que estamos fazendo e, principalmente, tentando perceber como é que nós estamos, quando fazemos algo. Isso é o mais difícil. Na maioria das vezes, nós nos envolvemos de tal modo com alguma coisa que nos desligamos. Isso é uma grande perda de oportunidade. E ao fazermos algo de forma atenta, vamos buscar uma condição de conforto. Se o que fazemos não está confortável, o melhor é parar, pois aquilo não será bom para nós.

É surpreendente como coisas simples, desse tipo, mudam uma vida e de forma extraordinária! A vida passa a ser muito mais fácil, mais interessante. Passamos a realizar a consciência o tempo todo. Cada vez que percebemos algo, realizamos uma virtude, compreendemos um novo significado, criamos ou captamos algo, temos acesso ao “lago da memória”, à consciência universal.

Portanto, a sugestão em Yoga é de, no cotidiano, praticarmos a atenção para cada vez mais termos clareza de que tudo o que vivenciamos é aparente, passageiro, é uma manifestação circunstancial, que só tem importância no contexto em que estivermos. Vamos assim nos habituando a perceber esse contexto, dando importância a ele, porém, também cultivamos o afastamento. Vivenciamos o momento e, ao mesmo tempo, cultivamos esse estado de consciência que se afasta da manifestação. Não deixamos de nos manifestar, porque isso é impossível de acontecer, afinal somos matéria. Daí a dualidade Prakriti e Purusha. Não há uma delas separada da outra.

A percepção daquilo que não se manifesta só se dá pela não-ação, que acontece por acaso ou cultivada. A prática de Yoga tem justamente o propósito de cultivar a não-ação. Essa prática foi ganhando acréscimos de toda ordem. Na proposta original do sábio Patanjali, não havia exercícios, mas sim o cultivo da não-ação, da atenção. Ele recomenda o cultivo da atenção à vida social e ao estudo, para reduzir a ignorância. O único exercício físico que Patanjali propõe é o controle da respiração e a meditação. Ao nos habituarmos a controlar a nossa respiração, estamos fazendo o principal exercício propiciador do estado de transe, de insights. Quando serenamos a mente (estado de não-ação) e a tornamos cristalina como a superfície de um lago, refletimos a consciência, a divindade, aquilo que não se manifesta. O caminho para que esse reflexo aconteça é a entrega à vida, algo que podemos cultivar a cada novo dia.

Thadeu Martins

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Consciência além da vivência

Na base da compreensão do que é Yoga e do pensamento hinduísta há uma dualidade essencial: a consciência e a natureza, em que a consciência é um referencial não-manifestado (“Purusha”) e a natureza, aquilo que se manifesta (“Prakriti”). Estão sempre juntas, não há separação. Então, tudo aquilo que é manifestado – incluindo os pensamentos, as visões, os sonhos e a matéria, seja ela de que natureza for – é “Prakriti”. Toda essa manifestação se dá em relação a um referencial imanifestado, “Purusha”.

O físico quântico Amit Goswami (que esteve em Brasília recentemente) chama a atenção, em seus livros e palestras, que a compreensão da Física atualmente só é possível tendo-se em consideração a interferência da consciência. Ora, essa questão da independência do observador em relação àquilo que ele está pesquisando sempre foi uma celeuma, um ponto de antagonismo na visão dos cientistas.

Um dos cânones da ciência é poder reproduzir as experiências; e que elas se dêem em qualquer situação, independentemente daquele que conduz a experiência. A ciência, portanto, estaria baseada nessa independência do observador, que não influenciaria os resultados da observação. Mas, ao se chegar no limiar da subpartícula da partícula atômica, a constatação é que a simples presença do observador altera o fenômeno. Os físicos quânticos chegaram a pontos de total inconsistência, como se a física se mostrasse contraditória. Mas é claro que a natureza não é contraditória, o que pode ser contraditório é o modelo que se está utilizando para observar a natureza.

Essa divulgação conceitual começa com o PhD em física Fritjof Capra na década de 70. Ele demonstrou que há um paralelismo extraordinário entre a expressão do misticismo oriental e a linguagem com a qual a física consegue descrever a natureza. E chega próximo à questão da consciência. O Amit Goswami se aprofunda nesse tema. No livro “Universo autoconsciente”, ele explora justamente a consciência que antecede a nossa consciência verbal e que condiciona tudo o que há.

Isso que nós habitualmente chamamos de consciência é, no máximo, uma consciência social, verbal, lingüística que nos ajuda a interagir e compreender isto que está no mundo social aparente e para o qual fomos preparados. Não é essa consciência superficial a que se refere Amit Goswami na física. Ele se refere a um nível de consciência tão essencial que, na tradição habitual, nós chamamos de divindade. Mas na linha filosófica indiana “Samkhya”, focalizada no conhecimento e que dá todo o suporte para o Yoga, não existe referência a Deus em nenhuma acepção que se possa pensar. Não há nenhuma personificação. Quando se fala de vida, da inteligência essencial de vida, está se falando desse nível de consciência que não é personificado, mas que é absolutamente presente e condicionador de tudo o que se manifesta. Os humanos atribuímos a esse princípio essencial características humanas para facilitar a nossa comunicação. O símbolo é que é poderoso, enquanto a alegoria é apenas a representação do símbolo.

Amit Goswami fala desse nível de consciência, que em Yoga se cultiva o acesso pela prática de meditação. Só temos acesso à consciência pela não-ação. Quando agimos “conscientemente”, agimos na inteligência social, nos limites do nosso espaço-tempo.

O que os hinduístas sugerem e os físicos quânticos estão chegando lá, é que temos manifestações aparentes, que ao observador parecem ser desta ou daquela maneira, mas que rigorosamente é apenas aparência. Em outros referenciais aquilo poderia parecer outra coisa. Quando praticamos meditação, nós serenamos essa nossa capacidade extraordinária de interpretar as aparências, cessamos de dar atenção às aparências, deixamos de ficar percebendo aquilo que se oferece neste contexto de espaço-tempo. Os pensamentos ficarão serenos a tal ponto que poderemos ter “insights” além do espaço-tempo.

Nós estamos muito mais habituados a exercer a inteligência social. A forma de reduzirmos um pouco isso é usar as mesmas ferramentas culturais que temos, é criar um novo hábito; e só criamos um novo hábito fazendo, praticando um outro rumo. Podemos praticar Yoga, meditação, relaxamento e repouso com habitualidade, para abrir essa possibilidade de viver também o não-espaço-tempo, o que não é social, aquilo que é essencial. Cada um vai descobrir na medida em que se permitir fazer isso, porque é uma vivência intransferível. Vivencie, pois!

Thadeu Martins

terça-feira, 28 de agosto de 2007

PhD em você

Um dos tópicos que o sábio Patanjali mais acentua em seus textos é o autoconhecimento. Quando trata do código de comportamento, logo no início do Yoga Sutra, primeiro ele afirma que Yoga é a cessação dos turbilhões mentais, depois comenta sobre as modificações da mente, que são basicamente o conhecimento (certo ou errado), a fantasia, o sonho e a memória.

Essas modificações estão sempre acontecendo e o apaziguamento delas nos ajuda a ficarmos mais serenos. Não se trata exatamente de apaziguamento, mas sim da “desidentificação” com as manifestações mentais. Nós nos vemos como indivíduos e assim agimos. Isso é próprio da natureza humana, a oposição entre o indivíduo e o coletivo. Há contextos sociais em que somos muito mais estimulados ao coletivo, mas mesmo assim a individualidade está bastante presente. Mesmo nas sociedades muito coletivistas acaba havendo um culto à personalidade deste ou daquele que, por alguma razão, se sobressai. É como se todo ser humano tivesse uma certa compulsão pela individualidade.

O conceito de individualização se aproxima da idéia de identificação. É esse identificar-se com isto ou com aquilo que nos subtrai das outras oportunidades de vivência que temos e acentua a opção escolhida. Há vezes em que isso se acentua demais...

Patanjali comenta que essas manifestações mentais trazem de algum modo sofrimento: quando nos identificamos com elas, ou seja, quando permanecemos nelas. A origem desse sofrimento é ignorar o todo que está acontecendo e que tornaria relativa e circunstancial aquela identificação. É a ignorância, num sentido bem amplo, de tomar a realidade por uma identificação circunstancial que temos dela. Na medida em que conseguimos nos distanciar da circunstância, tudo se torna relativo, pois deixamos de nos fixar nisto ou naquilo.

Claro que nós temos uma vivência circunstancial, sempre. Nós nos emocionamos bastante, somos tomados pelas situações, vivemos nos identificando com situações, com pensamentos ou ideologias. Então é como se o nosso viver fosse um vai-e-volta, nós nos identificamos e deixamos de nos identificar. A humanidade registra os vários ciclos tradicionais de grandes perdas de identificação, como as crises dos 28 anos e dos 40 anos ou da meia-idade. São momentos em que a maioria das pessoas vivencia fortes crises de identidade, de identificação com valores, crenças, comportamentos, relacionamentos.

De que forma podemos manter o distanciamento desse exagero da identificação? Alguns comportamentos são sugeridos pelo sábio Patanjali, entre eles o conhecer-se. Na medida em que cada um de nós tenta se conhecer, também está se distanciando, porque se torna uma terceira pessoa. Rigorosamente estamos falando de estudo e auto-estudo. Em sânscrito chama-se “svádhyáya”.

Estudamos a cultura e nós mesmos, o ambiente e as circunstâncias onde estamos - a história da nossa vida, da nossa família e do nosso país. O objetivo é compreendermos o contexto, tomarmos conhecimento do que foi produzido pelas gerações que nos antecederam e nos situarmos de modo prático. Isso é algo bastante amplo, ao qual somos estimulados desde cedo. Já o autoconhecimento não é tão estimulado. Mas nós temos várias oportunidades de fazer isso; como, por exemplo, buscar a opinião dos outros sobre nós mesmos. Essa opinião pode ser tanto de um especialista em comportamento humano, quanto de nós mesmos. Afinal, nós somos os maiores especialistas de nós mesmos!

O caminho sugerido no Yoga Sutra é de prestarmos atenção, ao fazermos os exercícios físicos e mentais de Yoga, os intermediários entre ambos (respiração sincronizada), bem como em nossa conduta na vida social. Ou seja, a sugestão é de nos mantermos atentos em cada um desses momentos, tanto ao que fazemos quanto a nós mesmos.

Na tentativa de captar o que Patanjali quer dizer, creio que a chave de tudo é o sentimento. Se eu começo a prestar atenção nos meus sentimentos, a percebê-los e a registrá-los, passo a aumentar as possibilidades de me conhecer. Prestar atenção nas emoções, me parece o melhor artifício do autoconhecimento.

Claro que precisamos sistematizar isso. Cada um usa o seu próprio método. Algumas pessoas, por exemplo, registram as emoções em um bloco de anotações, outros em voz alta. Alguns sentimentos são recorrentes e, sempre que eles surgem, devemos nos perguntar: por que aparecem com tanta freqüência e mexem tanto conosco? É bom fazer esse estudo dos nossos sentimentos em um determinado horário. Isso nos ajudar a desenvolver essa disciplina. Um exercício importante é tentar lembrar o que fizemos ou fazemos ao longo do dia e registrar as situações e os sentimentos que tivemos nessas situações. O propósito é criar o hábito de nos observarmos, tendo como foco a lembrança e, principalmente, o registro afetivo. A primeira habilidade a desenvolver é perceber os nossos sentimentos e depois, como qualquer observador, estudá-los e explorá-los, para que assim possam surgir os “insights”, o que eles nos querem dizer.

O sentir é talvez a nossa principal conexão com a realidade. Nós decidimos quase tudo de forma emocional. O sentimento é a base. Portanto, é fundamental cuidarmos bem dos nossos sentimentos. O caminho indicado por Patanjali é observarmos os sentimentos, percebê-los e nos distanciarmos deles como se fôssemos uma terceira pessoa que estamos observando. A partir daí podemos criar um método pessoal de auto-investigação. Crie o seu e depois me conte!

Thadeu Martins

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Yoga para todos

São vários os caminhos do Yoga. Segundo o sábio Patanjali, há uma prática de Yoga adequada a cada tipo humano.

No Bhagavad Gita (talvez o mais famoso texto hinduísta), em seus dezoito capítulos, são feitas referências aos vários tipos de Yoga. Então, por exemplo, para as pessoas ativas, bastante trabalhadoras, o mais adequado é o Karma Yoga. É o Yoga da ação, mas desinteressado dos resultados dessa ação. Faz-se algo porque é preciso que seja feito. Já a pessoa de natureza devocional vai ter mais afinidade com o Bhakti Yoga. Essas pessoas dedicam-se a trabalhos religiosos, à divindade. Os devotos Hare Krishna são exemplos desse grupo de pessoas.

Há também aqueles que buscam o caminho do conhecimento, do discernimento. Trata-se do Jñaña Yoga, o Yoga do Discernimento. Há quem chame de Yoga Real, ou Radja Yoga. A diferença é que no Yoga do Discernimento, o praticante usa a capacidade mental – a lógica, a dedução e a inferência; no Radja Yoga, por outro lado, vai-se além do conhecimento que se obtém pela saturação da informação para chegar ao estágio de “insight”. Por meio da meditação e do “insight”, o praticante pode ir além do conhecimento escrito.

Na Índia, os praticantes do Yoga do Discernimento dedicam-se ao estudo do Vedanta, última parte dos Vedas. São os principais textos sagrados, que tratam dos grandes temas filosóficos, transmitidos ao longo dos anos, desde a tradição oral pelos brâmanes.

O Hatha Yoga é uma expressão bem mais recente. Surgiu por volta do século XIV da era cristã. Coincide com uma época de redescoberta do corpo como território sagrado a ser cultivado, a ser tratado e não como no período anterior, em que o corpo era visto como um fardo. No Hatha Yoga há um grande respeito pelo corpo. “Hatha”, literalmente Sol e Lua, é uma alusão à junção dos poderes solar e lunar, uma alegoria das energias de natureza masculina e feminina presentes em todos nós.

O texto tradicional do Hatha Yoga, o Hatha Yoga Pradípika – que inclusive foi traduzido recentemente pelo yogui Pedro Kupfer – faz referência direta ao conhecimento transmitido pelo sábio Patanjali de que o propósito em Yoga é serenar a mente, compreender a realidade e ter uma atitude de plena atenção na vida. Então, o objetivo é cultivarmos o nosso corpo para que este não nos exija atenção além do habitual, porque senão ficaremos apenas cuidando dele e não realizaremos a plenitude da nossa vida.

No Hatha Yoga Pradípika também são ensinadas algumas posturas. As posturas básicas têm o propósito de permitir que o praticante possa ficar sentado em posição ereta durante horas, para se dedicar ao Jnaña Yoga ou ao Radja Yoga. Algo muito desafiador para qualquer pessoa, mesmo para um indiano tradicional.

Patanjali também afirma, conforme a escola filosófica Samkhya, que nós somos variações de três qualidades básicas: a densidade (“Tamas”), a sutileza (“Sattva”) e a transformação de um para o outro (“Rajas”). Como todos nós somos um movimento constante dessas três qualidades, ora pode haver a predominância de uma, ora de outra. Então, a cada circunstância do dia podemos estar mais propensos a uma prática devocional, de ação, de estudo ou de meditação.

O importante é cada um de nós ficar atento e fazer aquilo que é mais adequado a si mesmo, conforme as circunstâncias.

Thadeu Martins

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Nos passos de Patanjali

Na tradição hinduísta, há seis linhas filosóficas ortodoxas. As duas com as quais temos mais proximidade são o Sânkya e o Yoga. Sânkya é a estruturação do conhecimento essencial e Yoga é a compreensão da mente, da alma. Nesse contexto, o meditar é parte fundamental, porque a integração das percepções se dá num estado meditativo, de plena atenção. Desenvolver essa plena atenção é característica de toda a tradição hinduísta. Podemos desenvolver a prática de meditação por vários caminhos.

O sábio Patanjali foi quem codificou o Yoga e o caminho da meditação, o “Samadhi Pada” – “Samadhi” é o último estágio da meditação e “Pada” significa caminho. Ele descreveu de forma precisa os fundamentos da meditação. A partir daí, cada linha do pensamento hinduísta acrescentou métodos e artifícios úteis para a prática de meditação. No Budismo, por exemplo, existe um estilo de meditação muito específico. Mas na essência a origem é muito semelhante, porque o Budismo surge no contexto da grande Índia, do “Mahabharata”, da mesma região.

A meditação budista mais tradicional inclui o estilo “Vipassana”, em que se fica sentado, em absoluto silêncio, desde um mínimo de meia-hora e até dias (com intervalos para o sono e as refeições). Depois de ficar muito tempo assim, o praticante começa a transitar a sua atenção pelo seu corpo. Já os que seguem uma linha do Yoga de devoção, meditam repetindo o nome da divindade. Por isso eles repetem o mantra “Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare” Outro caminho devocional é o “Karma Yoga”, que é a vertente da ação, do agir sem o interesse pelo resultado da ação. Ou seja, é o caminho da ação desapegada, desinteressada. No Yoga do Conhecimento, que alguns chamam de “Raja Yoga” e outros de “Jñaña Yoga”, o caminho da meditação é a prática do discernimento, da compreensão intelectual da realidade para se alcançar o estágio de plenitude.

Essa variedade se deve à multiplicidade de personalidades humanas. Há pessoas que são bastante ativas, para as quais ficar concentrada estudando pode ser insuportável, pois elas preferem agir. Há outras que têm tamanha natureza devocional que buscam se entregar a uma causa maior. E por aí seguem os vários tipos.

O interessante a observar é que o legado deixado pelo sábio Patanjali é a base para todos esses estilos de Yoga, todos eles se referem a Patanjali. Isso porque a codificação do Yoga e da meditação é dele. Até o “Bagavadgita” se referencia ao Yoga.

Patanjali comenta sobre os vários tipos de yoguis, as várias personalidades, e como cada um pode identificar-se com este ou aquele método. Ele vai lá na origem do “Sankya”, que diz que a natureza tem basicamente três qualidades: “Thamas”, “Radja” e “Satva” - densidade, movimento transformador e sutileza. A dosagem dessas qualidades nunca é a mesma, porque a matéria é dinâmica, está sempre se alterando. Então podemos estar ora mais tranqüilos, ora mais rápidos, ora mais lentos e assim vamos nos identificando com este ou aquele caminho. O importante é nos mantermos atentos para aproveitar as oportunidades de acordo com o nosso estado de espírito.

Ainda segundo Patanjali, há basicamente duas formas de meditação e a primeira delas tem pelo menos quatro subdivisões, conforme o tipo de objeto escolhido para concentrar-se a atenção. O primeiro desafio é habituar-se a concentrar a atenção, tanto com o olhar quanto com os pensamentos em relação a esse objeto. Pode-se ter como propósito, por exemplo, conhecer o objeto. Abrimos mão de tudo mais para atingirmos esse propósito por meio da observação, do estudo e da pesquisa.

O segundo tipo de meditação diz respeito ao objeto conceitual. Digamos que o observador se concentre em uma virtude para entender o conceito. Primeiro ele usa o mesmo processo anterior de estudo e pesquisa sobre o objeto até atingir um estado de saturação. Então pode fechar os olhos para meditar sobre esse objeto abstrato.

Patanjali comenta também sobre os cinco estímulos que devem ser cultivados: pureza, contentamento, perseverança, conhecimento e render-se à vontade divina (“Ishvara Pranidhana”). Quando fala de estudar, ele se refere tanto ao auto-conhecimento socrático como estudar o nosso tempo: a religião, a política, a história do homem, ter pleno conhecimento do que a cultura nos possibilitou. Depois de nos impregnarmos de todo o conhecimento, podemos fazer o que o físico quântico Amit Goswami lembra sobre os quatro estágios da criatividade: estudar, saturar-se, ter o “insight” e colocar em prática.

O estado da meditação é basicamente aquele em que permitimos o “insight”. Se temos como propósito de conhecimento captar algo, estamos nos referindo a esse estágio de captação de “insight” do caminho da criatividade. O estímulo é pela realização das duas primeiras etapas. Ou seja, estudar bastante o tema escolhido, saturar-se do conhecimento possível, que a cultura permita e então abstrair-se disso tudo para entrar no estado meditativo; criar uma alegoria qualquer que simbolize o significado todo, um ícone qualquer e, enfim, entrar no estado da não-ação. Depois de ter agido com tudo aquilo que a nossa cultura nos permite, vamos além da ação, para permitir que o “insight” aconteça.

Na compreensão hinduísta, só saímos da dimensão espaço-tempo com o não-agir. Enquanto estivermos agindo, estaremos no espaço-tempo. Indo além, podemos captar algo que está no “lago da memória”, que veio a ser chamado, na psicologia ocidental, de inconsciente coletivo.

A questão que o pensamento hinduísta nos propõe e que os físicos quânticos reforçam é: qual é a interferência mínima que eu posso fazer para permitir que a vida se manifeste sem que eu atrapalhe, uma vez que o observador sempre interfere na experiência? Ir além da ação aparente é o nosso desafio, no caminho da meditação, para uma vida mais sutil e plena.

Thadeu Martins

terça-feira, 3 de julho de 2007

Serena-mente-consciente

Na compreensão hinduísta, tudo o que existe tem dupla natureza: manifestação (“Prakriti”) e não-manifestação (“Purusha”). A intermediação entre uma e outra é feita pela mente.

O processo mental de codificação e intermediação da realidade, para uma compreensão, está sempre ocorrendo. Assim vamos lidando com a realidade. A manifestação gera percepções e estas vão-se tornando complexas, vão criando uma trama, um envolvimento. Essa realidade interativa é muito solicitante. O processo mental se deixa tomar por completo, porque é interativo com tudo o que aparece.

Cada vez que agimos ou reagimos, percebemos algo e, a partir daí, criamos memória. A memória cria impressões, “Sanskaras”, as quais provocam o surgimento de pensamentos recorrentes, que vêm sem que tenhamos controle.

Em Yoga, buscamos controlar as manifestações mentais, que em síntese são cinco: o conhecimento, o engano, a fantasia, a memória e o sono/sonho. Buscamos educar, controlar a mente, de modo que possamos nos concentrar naquilo que requer a nossa atenção – deveres sociais, intenção espiritual ou até sobrevivência imediata. Vamos além dessa identificação com a realidade com a qual convivemos, para trazer a atenção a uma realidade interior, de modo que possamos desenvolver (tirar o envolvimento) desse intelecto, dessa capacidade mental, e assim perceber a realidade o mais próximo do imanifestado, da consciência espiritual.

Segundo o físico quântico Amit Goswami, há um estado de consciência especial que provoca o “colapso das possibilidades”, ou seja, que faz a realidade acontecer. Esse estado de consciência, que trazemos em nós e que é precipitador de realidade, é literalmente o padrão de consciência divina, a “consciência absoluta”.

Quando alcançamos estágios de proximidade dessa consciência especial, podemos ter até o privilégio de sair da dimensão espaço-tempo, na qual as interações ocorrem tanto, e perceber, por exemplo, o que os gregos chamavam “o lago da memória”, que na psicologia moderna veio a se chamar inconsciente coletivo. Além do espaço-tempo, temos acesso a insights, a tudo o que já foi compreendido e percebido, a tudo o que a memória coletiva já criou.

A mente é que possibilita o acesso à divindade, é a nossa preceptora, é ela que possibilita o acesso a tudo. Podemos dizer que a mente é a regente do portal da consciência.

Na prática de Yoga e de meditação, buscamos colocar a mente a nosso favor. Assim como no cultivo da ética coloca-se o comportamento do ser humano a favor do convívio social, na prática de Yoga usamos a mente em nosso benefício.

Quanto mais serenada a nossa mente, mais próxima ela estará do nível de consciência essencial, não-manifestada, “Purusha”, que não precisa fazer qualquer tipo de intermediação de realidade. Diante de nós então, tudo se torna menos ilusório, mais cristalino, mais próximo do essencial.

Thadeu Martins

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Mergulho no lago da consciência

Yoga, em essência, significa prestar atenção. Há algumas sugestões que se dão nesse “prestar atenção”. Algumas são de negação, de alerta; outras são afirmativas, indicativas. A principal mensagem é: cultive o contentamento e seja persistente, principalmente em cultivar a felicidade (a sua e a dos outros).

Em Yoga, também se tem a compreensão de que somos, simultaneamente, criaturas divinas e terrenas. Somos, ao mesmo tempo, constituídos de uma matéria que se manifesta e de uma outra matéria, que não se manifesta. Essa última, constitui uma essência, que nem precisa se manifestar.

O propósito, em Yoga, é nos mantermos verdadeiramente atentos para que essa nossa natureza imanifestada torne-se presente de forma plena, para que a nossa natureza divina não encontre nenhum obstáculo.

O desenvolvimento mental e espiritual que se propõe em Yoga é tirar o envolvimento, é tirar os excessos sociais que atrapalham a manifestação da nossa divindade. Quando serenamos a nossa mente, o observador que há em nós de fato vê, aquele que cada um é torna-se presente. Em todas as demais situações, quando a nossa mente não está tranqüila, esse observador essencial está enevoado; ficamos então entregues ao fluxo das emoções, ao fluxo social. Ao serenarmos a nossa mente, o nosso verdadeiro ser se torna “mais” presente.

Essa compreensão foi desenvolvida pelos hinduístas há milênios, numa época em que se formaram os Vedas, “o conhecimento revelado pelos deuses”. A tradição dos Vedas remonta a cerca de seis mil anos AC. Inicialmente era transmitida de forma oral, depois surge o Vedanta (o “último conhecimento”) em linguagem escrita, o qual prossegue estimulando a sabedoria e a reflexão. As linhas filosóficas hinduístas são convergentes. Basicamente são seis, sempre aos pares. Yoga é uma vertente, ao lado da filosofia Samkhya, que seria uma ancestral estruturalista da epistemologia. Assim como o Yoga é um precursor da psicologia, o Samkhya é o antecedente da gestão de conhecimento. O Samkhya preocupa-se com as questões filosóficas, tais como a origem da vida, a estrutura da matéria e a natureza humana, entre outras. O Yoga lida com o nosso funcionamento mental.

No Brasil, Yoga está relacionado à educação física, tanto que há uma lei que obriga os instrutores a se registrarem ao Conselho Federal de Educação Física. Mas, talvez mais propriamente, Yoga deveria ser ensinado por professor de Psicologia ou Filosofia. Em Yoga, o tempo todo se fala da mente. Prestamos atenção ao nosso corpo, mas o foco é a nossa atenção com a mente. O corpo é o nosso território, patrimônio, o que temos de mais pessoal, junto com a mente e a alma.

A alma (no Ocidente) foi “descoberta” no séc. V AC, época em que viveram os filósofos gregos, o sábio Patanjali, Buda e Zaratustra. Como diz o célebre historiador inglês Arnold Toynbee, esse foi o período axial da nossa História. Nessa época, os gregos concluíram que existia uma essência individual do habitante da cidade. Quando esse morria, a alma saía da cidade (na visão helenística, a cidade nos constitui). A alma então se libertava da cidade. Esse é o mesmo conceito em Yoga: “Moksha”, a libertação de nossa essência, que vai além do ser social, o ser da cidade. É sabido que os gregos tiveram intenso contato com a Índia, muito antes de Alexandre. Até o modo de incinerar os mortos é semelhante. Na Grécia, quando se preparava o corpo do morto para passar ao reino de Hades, colocava-se uma folhinha, de ouro, prata ou chumbo. Nessa folhinha ficavam gravadas as dicas para a alma, para esse ser essencial. Ao chegar-se no mundo livre do social, Hades perguntaria “quem é você?”. “Eu sou filho da terra e do céu estrelado”, responderia a alma. Hades estão voltaria a perguntar: “o que você quer?”. “Eu quero beber da água fresca do lago da memória”, diria a alma.

De fato, tudo o que aprendemos e compreendemos, toda a nossa consciência, vai para a memória, se agrega lá. Viver é a realização (na experiência material) da consciência, e essa se situa na memória. Então, o que fazemos ao morrer é retornar ao “lago da memória”, que a psicologia mais tarde veio a chamar de “inconsciente coletivo”. Para o filósofo francês André Comte Sponville, o que antecede o espírito é a memória, a qual se constitui a morada do espírito. Para o físico quântico Amit Goswami (autor do livro “A física da alma”), quando temos insights criativos, estamos tendo acesso ao “corpo de significados” que está além do espaço-tempo: um conceito muito semelhante ao “lago da memória”, do inconsciente coletivo.

Há uma convergência de várias culturas e pensadores quanto à coexistência “natureza espiritual e ser social” e dessa libertação – da cidade, para os gregos; do mudo do Samsara, das “eternas reencarnações”, para os hinduístas. Há também uma variedade de compreensões religiosas e leigas de como lidar com essa dualidade da nossa natureza. De qualquer modo, temos a nossa mente fazendo a intermediação desses dois aspectos que nos constituem como seres vivos: ela sempre nos leva para passear pelas margens ou em mergulhos fortuitos nas águas do lago da memória. Nossas compreensões das experiências vividas são como pequenos córregos que seguem alimentando de lembranças esse lago extraordinário.

Thadeu Martins

terça-feira, 19 de junho de 2007

Manual da mente para iniciantes

Toda a prática de Yoga no mundo baseia-se no Yoga Sutra (texto do Yoga em forma de cordel). São cerca de 195 verbetes, escritos numa linguagem poética. O sistematizador do Yoga Sutra foi o sábio indiano Patanjali, há mais de 2000 anos.

Quando ele surgiu, o Yoga já existia, pois é uma prática milenar na Índia. Era uma tradição oral, transmitida para os discípulos. O sábio Patanjali tem um surgimento lendário, varia do século cinco antes a depois de Cristo. Isso porque havia o hábito de muitos sábios de atribuírem seus textos a alguém muito admirado, em vez de assumirem a autoria das obras. Era comum, tanto na Índia como na China. Então, há vários Patanjalis na história da Índia! Não se sabe bem quem ele é. Mas podemos dizer que ele foi um precursor de Freud, na medida em que trata da mente humana com muita profundidade.

O Yoga Sutra de Patanjali é voltado para a compreensão do nosso processo mental. Começa afirmando que nós somos envolvidos pela nossa percepção, dada pelos sentidos, da realidade social; mas que existe uma compreensão essencial, permanente, que é o verdadeiro ser interior, da consciência, que está presente em tudo, independentemente das influências sociais que estejam acontecendo. Cabe a nós, quando compreendemos o nosso processo mental, desenvolvermos também a clareza, o discernimento de separarmos a compreensão do que é manifestado daquilo que não se manifesta, de modo que não sejamos um barco à deriva no oceano das emoções.

Está na origem do pensamento hinduísta a dualidade da manifestação e do referencial que permite a compreensão de tudo o que se manifesta. Esse referencial é “Purusha”, o imanifestado, tudo o que é permanente; é a essência geral e que está presente em cada um de nós. Não surge vida sem essa dualidade básica. Então, o propósito em Yoga é cultivarmos a presença, a atenção, de modo a vivenciarmos a realidade social com um sentido de prioridade, sabendo que tudo é passageiro, menos esse referencial essencial.

Na compreensão do Yoga, o sutil e o físico fazem parte da manifestação. Tudo o que se manifesta é, simultaneamente, sutil, denso e movimento. Ou seja, em tudo o que é manifestado (“Prakriti”) existe a trindade densidade, sutileza e transformação de um no outro. O sutil também é mutável, é dinâmico.

No Yoga Sutra, Patanjali dá uma atenção especial à compreensão da nossa mente. Nós compreendemos tudo com a intermediação mental; sem ela, nós não conseguiríamos nos relacionar. Mas ele chama a atenção que se nós ficarmos apenas no limite da mente operacional, se nos transformarmos apenas em seres sociais, certamente seremos muito úteis socialmente, mas estaremos desprezando o que vai além do social e vamos ter dificuldade, inclusive, para lidar com as surpresas que o mundo social nos traz. O social é algo que construímos.

Reproduzimos estruturas que as gerações anteriores criaram para podermos sobreviver como espécie, mas isso é apenas um artifício. Afinal, somos seres frágeis e sobrevivemos graças à nossa capacidade mental de nos organizarmos socialmente. Essa capacidade foi sendo supervalorizada, não por acaso, a ponto de nós, cada vez mais, glorificarmos o ser racional, que atua socialmente.

O Yoga Sutra é uma espécie de manual da mente, sobre como compreendê-la e colocá-la a nosso favor, de modo que possamos desenvolver hábitos que nos permitam ter desprendimento em relação à realidade, ao mesmo tempo em que vivemos com intensidade a nossa realidade. A essência da mensagem do Yoga Sutra é: viva a sua vida integralmente, exerça os seus papéis com integridade, seja íntegro! Essa integridade pressupõe ir além dos seus papéis. Cultive também o ator que existe dentro de cada um dos seus personagens, de modo que você viva a sua vida plenamente, com a consciência de que ela é passageira. Cultive a sua consciência em tudo o que você faz, de modo que quando este intervalo, este lapso de tempo, em que você tem esta experiência material se concluir, a sua consciência tenha se realizado plenamente e possa prosseguir em dimensões fora do espaço-tempo, que constitui nossa realidade social e material.

Patanjali fala basicamente dos métodos de meditação e de respiração, porque o controle da respiração é propiciador do controle da mente e este é fundamental na meditação, que nos dá a capacidade de estarmos presentes.

Nos exercícios de Yoga, praticamos a atenção em nós mesmos, porque cada um de nós está voltado o tempo todo para o mundo exterior, para o social. Os exercícios de Hatha Yoga nos possibilitam olhar para nós mesmos, perceber o nosso corpo, compreender os limites do nosso corpo e respeitá-los, desenvolver a capacidade de concentração, para ficarmos bem, relaxados e tranqüilos. O propósito é ficarmos saudáveis e aproveitarmos plenamente esta experiência imperdível que é viver.

Thadeu Martins

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Ser, escolher e escolher ser

A dualidade manifestado - imanifestado é muito preciosa em Yoga, porque pode sugerir uma fonte de prioridades. No cotidiano, priorizamos aquilo que achamos mais importante, que nos solicita mais. De algum modo, somos orientados a tomar decisões e estas são tomadas em função de preceitos sociais de convivência. A ênfase é pela sobrevivência. Como a cultura se sofisticou muito, a nossa orientação vai além da sobrevivência, além do ético e em geral chega a um caráter mais amplo: ideológico, religioso ou espiritual.

Mas há algo muito sofisticado na história das civilizações. Provavelmente, as primeiras compreensões dos seres humanos para princípios muito grandes e fortes, e deuses, estão relacionadas com a sobrevivência mesmo. É razoável admitir que a origem das crenças de respeito, de temor e até mesmo de adoração, tiveram como pano de fundo a pressão de sobreviver: o susto diante da vida e da natureza.

Hoje temos, além da orientação operacional para lidar com o cotidiano, uma orientação que vai além do comportamento social e que nos estimula a nos percebermos mais, nos conhecermos melhor. Podemos dizer que a maioria dos preceitos é de convivência, muitos são de sobrevivência e alguns são voltados para um ideal supra-social, mais espiritualizado, em geral com uma alegoria de deuses, de religiões, de santos, enfim, de modelos. As relações que são sugeridas entre nós e esse modelo em geral são de respeito, de pedido de ajuda. Vão-se projetando, nesse arcabouço supra-social, as relações pessoais que estabelecemos na vida. Daí o relacionar-se com Deus como um pai ou mãe generosos, ou poderosos ou autoritários.

Isso é comum na maioria, senão em todas as civilizações antigas e atuais. Viajando pelo mundo, é possível encontrar muita similaridade desses comportamentos. Em Yoga e seu complemento filosófico, o Samkhya, percebe-se uma ênfase bastante clara no comportamento social e uma ênfase muita maior no comportamento focalizado em algo superior à realidade social. Trata-se de um foco na consciência e de apenas uma indicação de divindade – embora o Yoga tenha surgido num ambiente de grande variedade de deuses.

Na filosofia Samkhya, não há nenhuma referência a essas alegorias. Encontramos, no máximo, em Yoga, uma referência a essa consciência supra-sumo na expressão “Ishivara”. Essa palavra foi traduzida no Ocidente como Deus, mas na compreensão original, no contexto indiano, é “o princípio divino da vida”. Então, quando falamos “Ishvara pranidhana”, “render-se à vontade divina”, significa render-se ao princípio da vida. Esse se render à vida tem como premissa que nós somos realidade que se manifesta, que atua no mundo e na sociedade, e ao mesmo tempo uma realidade que não precisa se manifestar, ou que não se manifesta, que é um referencial fundamental. Assim como a luz, que tem duas naturezas, material e ondulatória, nós somos simultaneamente a materialização do código de proteínas do DNA e uma realidade essencial, que faz a vida surgir, que é a vida.

No modelo hinduísta, a matéria manifestada tem três qualidades simultâneas: “Tamas”, “Satva” e “Rajas”. Mas, há sempre algo ali no meio, uma intermediação que é vital: a mente. É a mente que faz a intermediação e que permite a compreensão da matéria manifestada. É também a mente que faz todo esse caminho civilizatório, de realização. Não é à toa que em meio a todas as alegorias culturais, dá-se o nome “Budhi” (o mesmo Hermes grego, ou Mercúrio romano) para a intermediação mental entre o manifestado e o imanifestado, “Prakriti” e “Purusha”.

O manifestado, a matéria, é movimento, agito, portanto é sempre mutável, impermanente. O imanifestado, “Purusha”, ao contrário, é permanente. E ao compreendermos que tudo é mutável, que tudo é passageiro, a nossa percepção de prioridade pode ser reconsiderada. Se nós estamos diante de coisas que são sempre passageiras, se damos atenção extraordinária ao que é passageiro, que tal darmos um pouco mais de atenção àquilo que não é tão passageiro assim? Que tal fazermos uma aproximação entre o manifestado e o imanifestado? Que tal, além de desenvolvermos tanta habilidade, conhecimento e competência para lidar com o mundo passageiro, as usarmos também para lidar com o que não é passageiro? Para as pessoas que têm muita dificuldade de elaborar isso tudo, mas que percebem sua associação com o que é permanente, fica mais fácil utilizar uma alegoria de Deus. Nós podemos nos dedicar a um princípio divino com qualquer nome, com quaisquer práticas que consideremos razoáveis para, a partir daí, podemos ter uma compreensão de que existe algo a mais, que não se corrompe, não se destrói, não passa e que pode ser associado a um princípio permanente.

Nas nossas prioridades, como colocamos essa compreensão de que existe algo além do passageiro em nossas tomadas de decisão? Essa é uma questão, no mínimo, desafiadora. Tomamos tantas decisões na nossa vida e essas decisões são pautadas apenas pelo aproveitamento daquilo que é passageiro? E aquilo que não é passageiro? O que fazer? Afinal, dá para fazer? A questão não é nem fazer ou não, é muito mais de atitude, de compreensão. Agir depois que se tomou a decisão é fácil; difícil é tomar a decisão acertadamente! Quais são os critérios que consideramos para tomar uma decisão? O que leva a ponderar uma opção e outra na hora de decidir?

Historicamente, o que temos de critérios são emoção e razão. As nossas tomadas de decisões primordiais são emocionais. Nosso cérebro ancestral é o emocional. O racional veio depois, e desenvolveu-se mesmo depois que nascemos. Isso exige, portanto, muita dedicação para incluir o critério racional de destacar a importância do que é permanente em relação ao que é circunstancial em nossas decisões de vida. Uma das questões que está sempre como pano de fundo dos sofrimentos é justamente a ignorância ou o desprezo desse princípio da impermanência de tudo que se manifesta. Nós nos apegamos ao que é passageiro e ficamos a cultivar o medo ou a esperança em função daquilo que não é permanente, mas que esconde a essência da vida: o eterno que está em nós e em cada um.

Thadeu Martins

terça-feira, 29 de maio de 2007

O essencial e o carrossel

Um aspecto fundamental em Yoga é compreender as dualidades: manifestado e imanifestado, mutável e imutável, passageiro e permanente. Esses contrastes são preciosos na filosofia hinduísta e, principalmente, na linha filosófica de Yoga.

O principal em Yoga é cada um de nós desenvolver o hábito de ficar atento para estar presente e assim viver plenamente. Mas, afinal, o que é estar presente? Que prestar atenção é esse? Há um pano de fundo que dá sentido: compreender o justo valor de cada coisa, o significado de cada situação; ter compreensão do que os fatos significam. Na origem de tudo está uma relação de tensão, dual: um princípio permanente, eterno, que existe simultaneamente com outro, que se manifesta o tempo todo, que é mutável e que cria as circunstâncias.

Ao longo da nossa vida, mudamos inúmeras vezes e cada etapa é muito importante, mas só tem valor em relação a cada um de nós, que está presente agora e o tempo todo. O ser que está presente o tempo todo representa, individualmente, a permanência, esse algo que sempre é, que não se altera. Como diz José Saramago, no livro “Todos os nomes”, “tu conheces o nome que te deram, mas não conheces o nome que tens”. Os nomes que nos dão são os menos importantes, porque variam de acordo com as circunstâncias. O nome que temos, que ninguém nos deu, esse é o que está presente em todas as circunstâncias; é o ator que está lá no íntimo de todas as nossas personagens. Essa é a referência fundamental em Yoga, somos esse ser que sempre é e o ser que vai se manifestando, se alterando, se relacionando.

Em Yoga, “Purusha” é aquilo que não se manifesta e “Prakriti” o que se manifesta. Em cada um de nós, “Purusha” é chamado de “Atma”, palavra muito próxima de alma. A primeira manifestação de “Prakriti” é a mente, que lida com as três qualidades da matéria: a densidade, a sutileza e a dinâmica da transformação. Elas estão sempre numa dinâmica de mudança, em que o denso se transforma e se torna sutil, que se torna denso e isso não tem fim...

Na compreensão em Yoga, você e o interior do seu eu (cujo nome você sabe que tem, mas não sabe qual é), observam e vivenciam, a seu modo, todas as transformações que são propiciadas pelas características dinâmicas da matéria manifestada. Observar essas transformações exige um distanciamento. É esse distanciamento o principal desafio da prática de Yoga: estar atento à vida e manter, ao mesmo tempo que você se envolve com a vida, o distanciamento que possibilita perceber a transformação, perceber que tudo muda, que os nomes que nós temos mudam, mas somente aquele que observa sem mudar é que pode perceber essa mudança. Se você se envolve demais na mudança, acaba não percebendo o que mudou.

Essa consciência dá uma segurança extraordinária, porque aí nem a morte é ameaça, porque passa a ser mais um evento de mudança. Nada é permanente, a não ser você, esse ser que há em cada um de nós que, independentemente das mudanças, continua a existir.

Isso não diminui em nada o valor de sentimentos como o amor, a piedade, a compaixão ou mesmo de desprezo adequados a cada circunstância. São todos muito importantes, mas circunstanciais. Esse talvez seja o nosso maior desafio, ter clareza que tudo ao qual nos dedicamos tem por natureza ser passageiro. Isso muda tudo!

Mas em Yoga, não basta ter a compreensão, é preciso exercitar. Não há compreensão que, sem exercício, permaneça no ser humano. Nós somos seres educacionais. “Prakriti”, a realidade que está em permanente mudança, nos oferece um desafio de natureza educacional, porque a experiência traz resultado, este é percebido, a percepção do resultado traz uma memória, que condiciona a compreensão dos resultados seguintes. Esse também é um ciclo sem fim. Cada vez que agimos ou reagimos, surge um resultado; compreendendo ou não, esse resultado é percebido, vira então memória, que sempre se manifesta. Ou seja, é um ciclo permanente, que cresce em complexidade, e no qual estamos sempre envolvidos.

A vida é uma verdadeira feira de exposições, que está o tempo todo chamando a nossa atenção, principalmente para aquilo que é menos importante do que a compreensão essencial do que somos. Nós temos essa natureza dual: temos a permanência, a eternidade em nós e, ao mesmo tempo, vivemos processos passageiros de mudança, que acrescentam ou subtraem - sempre associados a prazer ou sofrimento, uma vez que a nossa compreensão se dá sempre de forma emocional. Corremos assim o risco de dar atenção apenas às emoções. A questão é esse “apenas”. Claro que é necessário dar atenção aos outros, às emoções, às circunstâncias, mas se dermos atenção apenas ao transitório, viveremos na transitoriedade, sem realizar nunca a permanência que nós também somos.

A filosofia hinduísta chama esta atenção: a existência é um processo de compreensão, de realização permanente, em que a transformação do sutil e do denso dá a dinâmica da vida, e constitui um processo de vida material, que por si só é importante. Mas o fundamental é a realização disso com distanciamento, em que, simultaneamente, somos aquele que observa e o que participa da realidade em observação.

A vida social é uma das manifestações passageiras desta experiência de vida que cada um de nós está tendo. Embora seja muito importante, porque não conseguiríamos viver isoladamente, até a vida social é relativa, porque se ela for exageradamente solicitante para nós, não conseguiremos desenvolver completamente a nossa essência.

Com os exercícios de Yoga e a prática de meditação, vamos criando condições de atenção para dar o justo valor aos fatos, aos relacionamentos, aos muitos “eus”, que cada um de nós é, e que assim tudo tenha a sua devida atenção, mas que no meio desse carrossel de atenções, que vivemos diariamente, consigamos desenvolver, ou seja, retirar o envolvimento, para que se revele o que estiver mais próximo do imanifestado, do permanente, do imutável.

No “Yoga Sutra”, Patanjali, de certo modo, fala o tempo todo dessa dualidade, impermanência e permanência, que tudo é mutável, que estamos sempre lidando com coisas passageiras, que tudo é muito importante, mas nada é tão importante quanto a compreensão disso: que tudo passa. Os exercícios que fazemos têm o propósito de desenvolver em nós essa habilidade.

Em resumo, a proposta em Yoga é: fique atento ao que é transitório e cultive a sua atenção para aquilo que é permanente. Com isso, desenvolve-se todo o restante da compreensão do que é a vida.

Thadeu Martins

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Guarani Sutra

Na semana passada ganhei de um amigo um livro fascinante e surpreendente: “Tupã Tenondé – a criação do Universo da Terra e do homem segundo a tradição oral guarani”, de Kaka Werá Jecupé. Descobri nesse livro que os guaranis têm uma concepção de mundo, de origem da vida, de alma e de divindade muito semelhante à concepção hinduísta.

Incrível como o conceito do povo guarani é praticamente igual à filosofia hinduísta em relação à dualidade original – o imanifestado e aquilo que se manifesta, “purusha” e “prakiti”, ambos de caráter divino. O processo de desenvolvimento espiritual para esse povo também é visto como uma ascensão interior, em que um beija-flor, representando a nossa alma, vai subindo até pegar o néctar de uma flor que se abre em cima da cabeça humana. Essa imagem é muito semelhante à representação hinduísta. Fiquei encantado com a poesia com que eles descrevem isso tudo.

O conhecimento hinduísta, como vem de uma época em que não havia escrita, era transmitido de forma oral, poética, cantada. O maior poema escrito da história da humanidade, o Mahabharata ( “a história épica da grande Índia”) tem mais de cem mil versos. E, no entanto, manteve-se, sendo transmitido de geração a geração sem a escrita. Esse livro sobre os guaranis também é todo em forma poética, com muitas imagens, e escrito no século XX.

Outro ponto que me chamou atenção é que os guaranis relacionam a linguagem à alma. Esse é um conceito que se aproxima da psicologia moderna, em que somos chamados de falantes mais que indivíduos. Segundo essa abordagem, é o falar que vai me caracterizar como ser. O filósofo francês André Sponville propõe que a memória é a origem do espírito, porque é aquilo que nos antecede. A memória seria o espírito em si ou o terreno espiritual. Podemos então dizer que o presente é o “pré” que antecede o ente. A vivência do presente está sempre sendo registrada na memória. Se falarmos em vidas passadas, vamos recuperar experiências na memória – desde a memória cerebral até outras que temos dificuldade de explicar.

Então, há uma convergência da compreensão dos guaranis (linguagem e alma) com a filosofia (memória e espírito). Ao mesmo tempo, estamos falando do Oriente (Índia), de uma América do Sul muito anterior à chegada dos europeus e da Europa em tempos modernos. Ora, se há uma convergência vinda de lugares e culturas tão diferentes é porque deve haver um significado bastante merecedor de atenção. Essas similaridades podem ser consideradas como algo, no mínimo, razoável.

E se o exercício da linguagem é o exercício da alma, vamos então nos expressar bastante para ter a alma vibrante! A expressão é uma necessidade para nós. Há pessoas que só compreendem as coisas depois que elas mesmas repetem ou dizem com as suas palavras ou emprestadas de outros. Ao falarmos, ao nos comunicarmos, temos que colocar tanta atenção, energia, que isso fica em nós.

E aqui, vale lembrar a importância de se falar com bom humor, de se criarem situações positivas, com as suas próprias palavras e atitudes. Atualmente filósofos acentuam a compreensão da Filosofia como amor à felicidade, como a grande sabedoria, a busca da felicidade. Como diz Vicente Luís (8 anos), autor do livro “Cem palavras”, do qual vocês ainda vão ouvir falar, “todo dia você deve ficar um pouco feliz”.

Thadeu Martins

O bem, o mal e o meio das virtudes

Ninguém nasce virtuoso. Nós somos polidos desde pequenos, quando aprendemos o que é aceito socialmente. Esse polir é que forma o terreno das virtudes. A polidez em si não é uma virtude, mas a insistência cria uma disciplina, que se amplia para todo o contexto social. Aos poucos, os controles, feitos por quem nos educa, vão constituindo uma ética em cada um de nós, como indivíduos. Se não houver esse processo de criação com educação, com polidez, a virtude não vai se manifestar nunca.

Na Índia, por exemplo, há um verdadeiro fenômeno de paz social, considerando-se que lá habitam cerca de 750 milhões de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza. Isso só é possível porque há uma educação muito forte, que acontece desde muito cedo, com cada pessoa.

O sábio Patanjali lembra dez ensinamentos (yamas e niyamas), que orientam o que devemos controlar, dizendo não, e também aquilo que devemos estimular, dizendo sim. Evitar qualquer violência à vida, evitar a mentira, evitar o roubo, controlar a sexualidade e evitar a inveja e a cobiça. São controles simples, mas dentro de uma hierarquia. Em primeiro lugar vem o respeito à vida, não ofender ninguém. Isso vem antes da verdade, que não é tão importante na filosofia hinduísta quanto à vida. Depois é que vem o respeito à propriedade e daí por diante.

Mas como da polidez surge a virtude? Será que é preciso haver um pouco de virtude dentro de cada um de nós para que esta possa se manifestar? Ninguém sabe ao certo. Isso é algo que constatamos. O fato é que o hábito cria essa segunda natureza das virtudes ou dos vícios, vai depender dos hábitos que cada um de nós permitiu surgir. As virtudes de caráter positivo, como as recomendadas em Yoga (niyamas) - o cultivo da pureza, do contentamento, da perseverança, do conhecimento e do aceitar a vida (render-se à vontade divina) – são extraordinárias, porque ninguém nos cobra. Afinal, se todo mundo ficar contente, não vão mais vender tantos antidepressivos. Se eu desejo e amo aquilo que tenho, não vou querer consumir de forma desenfreada. Então, é muito mais recomendável cultivar essas virtudes ditas positivas, porque a essas faltam estímulos, já que o estímulo mais normal é pela condenação.

Na nossa sociedade também se cultiva ainda um conceito grego ultrapassado: de que felicidade é um desejo pelo que nos falta; que a felicidade vem quando conseguimos aquilo que está nos faltando. Mas sabemos que quando conseguimos aquilo esperado, logo ele já não tem mais tanto valor.

Para resumir, podemos então dizer que todas as virtudes começam com algo que nem virtude é: a polidez. E a polidez se dá, desde a nossa infância, pela observação ou condenação daquilo que não é aceito socialmente. Claro que vamos encontrar pessoas muito educadas, muito polidas, mas apenas como uma capa, em que a polidez externa esconde um comportamento insuportável. Nesse caso, a pessoa não conseguiu fazer a passagem da polidez para a virtude, ou usa a polidez para ludibriar os outros, mas logo a essência acaba aparecendo.

O caminho da virtude, em Yoga, é a formação do hábito. E os hábitos se dão com a prática, com a repetição. Outra forma de se estimular a virtude é dar visibilidade, pois nós cuidamos mais daquilo que é visível. É muito mais fácil as pessoas serem educadas, polidas, terem mais consideração com os outros num ambiente em que haja transparência, do que em ambientes em que as pessoas estão isoladas e não estão sendo observadas. O fato de estar sendo observado aumenta a vontade do indivíduo de ser aceito.

Ninguém nasce virtuoso, é um caminho que em Yoga cultivamos com a pureza, a perseverança, o contentamento e com a consciência de que somos limitados, por isso nos rendemos à vontade divina. Fazer disso um hábito é um bom desafio.

Thadeu Martins

domingo, 6 de maio de 2007

O bem, o mal e o meio

Hoje quero falar um pouco sobre o “Pequeno tratado das grandes virtudes”, do filósofo francês André Comte Sponville. Esse livro tem tudo a ver com os dez ensinamentos do sábio indiano Patanjali, que se constituem no código de ética de Yoga. Também é comparável aos textos do mestre atual Swami Dayananda Saraswati, expoente do Vedanta, que é o supra-sumo da filosofia hinduísta.

No livro, Sponville destaca 18 virtudes. Começa com a polidez e termina com o amor. É interessante comparar essas virtudes com a descrição de Dayananda de como devemos tratar sentimentos insuportáveis, como a raiva, por exemplo. Lembra o mestre que raiva todo mundo tem, é para sentir mesmo; o que não vale é martirizar os outros por causa da raiva; não faz sentido eu martirizar quem amo porque estou raivoso. A raiva é um sentimento verdadeiro, legítimo, que temos por uma motivação óbvia, afinal, ninguém fica raivoso à toa. Não adianta nada negar a raiva, porque aí ela vai se concentrar, tornar-se cada vez mais poderosa e quando vier à tona, ninguém suportará, principalmente as pessoas mais próximas. Por que vitimar uma pessoa próxima simplesmente porque se está com raiva? Melhor sinalizar que se está com raiva, para manter um mínimo de distanciamento e evitar machucar os mais próximos.

A virtude, como tratada por Sponville, é uma potência, uma excelência. No caso de um objeto, uma faca, por exemplo, não há moral. Ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Em um código de ética, vamos aceitar o uso desse objeto para o bem e abominar o uso para o mal. Mas, rigorosamente, a virtude na essência não é boa nem ruim; a faca que corta bem é excelente e pronto. Já no que se refere ao ser humano, não há sentido se falar em excelência se esta não for usada para o bem. A maldade de alguém só poderia ser considerada como virtude se, por exemplo, determinado grupo pudesse ser protegido pela maldade dessa pessoa em relação a outro grupo muito perverso. Há momentos em que num grupo, reconhecemos que excelências, habilidades extraordinárias, desta ou daquela pessoa podem levar a um inferno e outras podem trazer o céu.

Aquilo que é potente em nós pode ser desastroso se estivermos no lugar errado, ou tornar-se extraordinário se estivermos no lugar adequado. Porém, isso não tem muito a ver com o conceito de virtude da coisa em si, mas das pessoas, que serão sempre avaliadas em termos relativos. Enquanto a virtude do objeto é invariante, a virtude do ser humano é relativa. Ele é virtuoso se o grupo com o qual convive reconhecer essa virtude e essa será reconhecida se for para o bem do grupo. O outro é que determina a minha virtude. E aí é que entra a potência do código de ética que cada um adota na sua vida. Cada um de nós tem a oportunidade de aperfeiçoar o seu próprio código de ética, de incorporar as virtudes que perceber que são consistentes com as anteriores e que promovem o bem. Esse é o critério. Mas que bem é esse? Não é um bem individual, é um bem que só tem sentido coletivamente.

O ser humano é virtuoso? Depende. Vamos refletir um pouco sobre “a sombra do tempo”, um conceito darwiniano. Segundo esse princípio, as circunstâncias são determinantes. Imaginemos duas situações: uma pessoa sozinha no ponto de ônibus, de madrugada, e essa mesma pessoa no ponto de ônibus, acompanhada de pessoas conhecidas, pela manhã. Nas duas situações, aparece uma segunda pessoa desconhecida. Em qual das situações haverá maior probabilidade de demonstrações de civilidade, gentileza e amorosidade? Ninguém tem expectativa de amorosidade ou gentileza na primeira situação, pois não há perspectiva de acontecer um segundo encontro, de o comportamento ser avaliado por aquela pessoa que se aproxima ou por outras que você conhece e reputa valor. Já na situação do ponto de ônibus, em que há conhecidos, a autocrítica é reforçada pela crítica do todo, pois a possibilidade de encontrar, em outras vezes, aquelas pessoas é enorme. Isso vai condicionar o comportamento de cada um de nós. Ou seja, nós temos virtudes, mas as circunstâncias podem acabar com elas. Virtude, em termos humanos, não é algo invariante, é algo que depende sempre das circunstâncias. Não há ser humano imune a elas.

O comportamento sugerido em Yoga é lidar com as circunstâncias. Por saber que somos seres humanos e que as circunstâncias vão alterar o comportamento e que, sendo humanos, devemos cultivar o bem, tratamos simultaneamente essas duas dificuldades: cultivamos a virtude e administramos o nosso comportamento nas circunstâncias. Afinal, ninguém nasce virtuoso.

Como criar então o nosso próprio código de ética? Escolha as virtudes, tenha por princípio a moralidade e como bússola da moralidade o bem do outro, com o qual você convive, e assim administre o seu cotidiano, e forme seus hábitos virtuosos. Não basta ter a compreensão do que é a virtude. Temos que, ao mesmo tempo, ter a compreensão e administrar as circunstâncias. Virtude só tem sentido se houver administração das circunstâncias, caso contrário, a virtude será solapada pelas circunstâncias.

O sábio Patanjali sugere uma base, que são os controles: não à violência que ofende a vida, não à mentira, não roubar, o controle de sexualidade e o controle da cobiça e da inveja.

Mas isso é apenas o básico. Alem desses controles, Patanjali enfatiza a importância de se estimular alguns hábitos virtuosos, que também precisam ser administrados. São cinco esses estímulos: à pureza (de pensamentos, propósitos, sentimentos e da higiene), ao contentamento (com o que já se tem, com o que já se é), à persistência (perseverar na ética, na pureza, no contentamento...), conhecimento (tanto autoconhecimento quanto conhecer onde se está) e à aceitação da vida como ela é ("Ishvara Pranidhana", render-se à vontade divina, entregar-se à vida).

O contentamento levanta uma antiga discussão filosófica. Para os gregos, a felicidade era uma tristeza porque era o desejo de algo que não se tem e que, portanto, ao se obter, já não se desejaria, e assim se passaria a desejar outra coisa que ainda não se tem. André Comte Sponville rebate: não é nada disso; é o contrário, é como os hinduístas dizem; felicidade é saborear o que você deseja e tem, é contentar-se (ficar contente) já com aquilo que você é. Ou seja, felicidade não é o cultivo da eterna falta, porque assim estaremos sempre insatisfeitos. Nós já temos a felicidade. Nós já somos, estamos vivos! Somos felizes quando desejamos aquilo que temos.

Cultivar, dia a dia, o contentamento e os hábitos que você considerar formadores das suas virtudes; administrar as circunstâncias que ameaçam as virtudes; entregar-se à vontade divina. Eis um bom caminho do meio!

Thadeu Martins