domingo, 6 de maio de 2007

O bem, o mal e o meio

Hoje quero falar um pouco sobre o “Pequeno tratado das grandes virtudes”, do filósofo francês André Comte Sponville. Esse livro tem tudo a ver com os dez ensinamentos do sábio indiano Patanjali, que se constituem no código de ética de Yoga. Também é comparável aos textos do mestre atual Swami Dayananda Saraswati, expoente do Vedanta, que é o supra-sumo da filosofia hinduísta.

No livro, Sponville destaca 18 virtudes. Começa com a polidez e termina com o amor. É interessante comparar essas virtudes com a descrição de Dayananda de como devemos tratar sentimentos insuportáveis, como a raiva, por exemplo. Lembra o mestre que raiva todo mundo tem, é para sentir mesmo; o que não vale é martirizar os outros por causa da raiva; não faz sentido eu martirizar quem amo porque estou raivoso. A raiva é um sentimento verdadeiro, legítimo, que temos por uma motivação óbvia, afinal, ninguém fica raivoso à toa. Não adianta nada negar a raiva, porque aí ela vai se concentrar, tornar-se cada vez mais poderosa e quando vier à tona, ninguém suportará, principalmente as pessoas mais próximas. Por que vitimar uma pessoa próxima simplesmente porque se está com raiva? Melhor sinalizar que se está com raiva, para manter um mínimo de distanciamento e evitar machucar os mais próximos.

A virtude, como tratada por Sponville, é uma potência, uma excelência. No caso de um objeto, uma faca, por exemplo, não há moral. Ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Em um código de ética, vamos aceitar o uso desse objeto para o bem e abominar o uso para o mal. Mas, rigorosamente, a virtude na essência não é boa nem ruim; a faca que corta bem é excelente e pronto. Já no que se refere ao ser humano, não há sentido se falar em excelência se esta não for usada para o bem. A maldade de alguém só poderia ser considerada como virtude se, por exemplo, determinado grupo pudesse ser protegido pela maldade dessa pessoa em relação a outro grupo muito perverso. Há momentos em que num grupo, reconhecemos que excelências, habilidades extraordinárias, desta ou daquela pessoa podem levar a um inferno e outras podem trazer o céu.

Aquilo que é potente em nós pode ser desastroso se estivermos no lugar errado, ou tornar-se extraordinário se estivermos no lugar adequado. Porém, isso não tem muito a ver com o conceito de virtude da coisa em si, mas das pessoas, que serão sempre avaliadas em termos relativos. Enquanto a virtude do objeto é invariante, a virtude do ser humano é relativa. Ele é virtuoso se o grupo com o qual convive reconhecer essa virtude e essa será reconhecida se for para o bem do grupo. O outro é que determina a minha virtude. E aí é que entra a potência do código de ética que cada um adota na sua vida. Cada um de nós tem a oportunidade de aperfeiçoar o seu próprio código de ética, de incorporar as virtudes que perceber que são consistentes com as anteriores e que promovem o bem. Esse é o critério. Mas que bem é esse? Não é um bem individual, é um bem que só tem sentido coletivamente.

O ser humano é virtuoso? Depende. Vamos refletir um pouco sobre “a sombra do tempo”, um conceito darwiniano. Segundo esse princípio, as circunstâncias são determinantes. Imaginemos duas situações: uma pessoa sozinha no ponto de ônibus, de madrugada, e essa mesma pessoa no ponto de ônibus, acompanhada de pessoas conhecidas, pela manhã. Nas duas situações, aparece uma segunda pessoa desconhecida. Em qual das situações haverá maior probabilidade de demonstrações de civilidade, gentileza e amorosidade? Ninguém tem expectativa de amorosidade ou gentileza na primeira situação, pois não há perspectiva de acontecer um segundo encontro, de o comportamento ser avaliado por aquela pessoa que se aproxima ou por outras que você conhece e reputa valor. Já na situação do ponto de ônibus, em que há conhecidos, a autocrítica é reforçada pela crítica do todo, pois a possibilidade de encontrar, em outras vezes, aquelas pessoas é enorme. Isso vai condicionar o comportamento de cada um de nós. Ou seja, nós temos virtudes, mas as circunstâncias podem acabar com elas. Virtude, em termos humanos, não é algo invariante, é algo que depende sempre das circunstâncias. Não há ser humano imune a elas.

O comportamento sugerido em Yoga é lidar com as circunstâncias. Por saber que somos seres humanos e que as circunstâncias vão alterar o comportamento e que, sendo humanos, devemos cultivar o bem, tratamos simultaneamente essas duas dificuldades: cultivamos a virtude e administramos o nosso comportamento nas circunstâncias. Afinal, ninguém nasce virtuoso.

Como criar então o nosso próprio código de ética? Escolha as virtudes, tenha por princípio a moralidade e como bússola da moralidade o bem do outro, com o qual você convive, e assim administre o seu cotidiano, e forme seus hábitos virtuosos. Não basta ter a compreensão do que é a virtude. Temos que, ao mesmo tempo, ter a compreensão e administrar as circunstâncias. Virtude só tem sentido se houver administração das circunstâncias, caso contrário, a virtude será solapada pelas circunstâncias.

O sábio Patanjali sugere uma base, que são os controles: não à violência que ofende a vida, não à mentira, não roubar, o controle de sexualidade e o controle da cobiça e da inveja.

Mas isso é apenas o básico. Alem desses controles, Patanjali enfatiza a importância de se estimular alguns hábitos virtuosos, que também precisam ser administrados. São cinco esses estímulos: à pureza (de pensamentos, propósitos, sentimentos e da higiene), ao contentamento (com o que já se tem, com o que já se é), à persistência (perseverar na ética, na pureza, no contentamento...), conhecimento (tanto autoconhecimento quanto conhecer onde se está) e à aceitação da vida como ela é ("Ishvara Pranidhana", render-se à vontade divina, entregar-se à vida).

O contentamento levanta uma antiga discussão filosófica. Para os gregos, a felicidade era uma tristeza porque era o desejo de algo que não se tem e que, portanto, ao se obter, já não se desejaria, e assim se passaria a desejar outra coisa que ainda não se tem. André Comte Sponville rebate: não é nada disso; é o contrário, é como os hinduístas dizem; felicidade é saborear o que você deseja e tem, é contentar-se (ficar contente) já com aquilo que você é. Ou seja, felicidade não é o cultivo da eterna falta, porque assim estaremos sempre insatisfeitos. Nós já temos a felicidade. Nós já somos, estamos vivos! Somos felizes quando desejamos aquilo que temos.

Cultivar, dia a dia, o contentamento e os hábitos que você considerar formadores das suas virtudes; administrar as circunstâncias que ameaçam as virtudes; entregar-se à vontade divina. Eis um bom caminho do meio!

Thadeu Martins