quinta-feira, 17 de maio de 2007

Guarani Sutra

Na semana passada ganhei de um amigo um livro fascinante e surpreendente: “Tupã Tenondé – a criação do Universo da Terra e do homem segundo a tradição oral guarani”, de Kaka Werá Jecupé. Descobri nesse livro que os guaranis têm uma concepção de mundo, de origem da vida, de alma e de divindade muito semelhante à concepção hinduísta.

Incrível como o conceito do povo guarani é praticamente igual à filosofia hinduísta em relação à dualidade original – o imanifestado e aquilo que se manifesta, “purusha” e “prakiti”, ambos de caráter divino. O processo de desenvolvimento espiritual para esse povo também é visto como uma ascensão interior, em que um beija-flor, representando a nossa alma, vai subindo até pegar o néctar de uma flor que se abre em cima da cabeça humana. Essa imagem é muito semelhante à representação hinduísta. Fiquei encantado com a poesia com que eles descrevem isso tudo.

O conhecimento hinduísta, como vem de uma época em que não havia escrita, era transmitido de forma oral, poética, cantada. O maior poema escrito da história da humanidade, o Mahabharata ( “a história épica da grande Índia”) tem mais de cem mil versos. E, no entanto, manteve-se, sendo transmitido de geração a geração sem a escrita. Esse livro sobre os guaranis também é todo em forma poética, com muitas imagens, e escrito no século XX.

Outro ponto que me chamou atenção é que os guaranis relacionam a linguagem à alma. Esse é um conceito que se aproxima da psicologia moderna, em que somos chamados de falantes mais que indivíduos. Segundo essa abordagem, é o falar que vai me caracterizar como ser. O filósofo francês André Sponville propõe que a memória é a origem do espírito, porque é aquilo que nos antecede. A memória seria o espírito em si ou o terreno espiritual. Podemos então dizer que o presente é o “pré” que antecede o ente. A vivência do presente está sempre sendo registrada na memória. Se falarmos em vidas passadas, vamos recuperar experiências na memória – desde a memória cerebral até outras que temos dificuldade de explicar.

Então, há uma convergência da compreensão dos guaranis (linguagem e alma) com a filosofia (memória e espírito). Ao mesmo tempo, estamos falando do Oriente (Índia), de uma América do Sul muito anterior à chegada dos europeus e da Europa em tempos modernos. Ora, se há uma convergência vinda de lugares e culturas tão diferentes é porque deve haver um significado bastante merecedor de atenção. Essas similaridades podem ser consideradas como algo, no mínimo, razoável.

E se o exercício da linguagem é o exercício da alma, vamos então nos expressar bastante para ter a alma vibrante! A expressão é uma necessidade para nós. Há pessoas que só compreendem as coisas depois que elas mesmas repetem ou dizem com as suas palavras ou emprestadas de outros. Ao falarmos, ao nos comunicarmos, temos que colocar tanta atenção, energia, que isso fica em nós.

E aqui, vale lembrar a importância de se falar com bom humor, de se criarem situações positivas, com as suas próprias palavras e atitudes. Atualmente filósofos acentuam a compreensão da Filosofia como amor à felicidade, como a grande sabedoria, a busca da felicidade. Como diz Vicente Luís (8 anos), autor do livro “Cem palavras”, do qual vocês ainda vão ouvir falar, “todo dia você deve ficar um pouco feliz”.

Thadeu Martins

O bem, o mal e o meio das virtudes

Ninguém nasce virtuoso. Nós somos polidos desde pequenos, quando aprendemos o que é aceito socialmente. Esse polir é que forma o terreno das virtudes. A polidez em si não é uma virtude, mas a insistência cria uma disciplina, que se amplia para todo o contexto social. Aos poucos, os controles, feitos por quem nos educa, vão constituindo uma ética em cada um de nós, como indivíduos. Se não houver esse processo de criação com educação, com polidez, a virtude não vai se manifestar nunca.

Na Índia, por exemplo, há um verdadeiro fenômeno de paz social, considerando-se que lá habitam cerca de 750 milhões de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza. Isso só é possível porque há uma educação muito forte, que acontece desde muito cedo, com cada pessoa.

O sábio Patanjali lembra dez ensinamentos (yamas e niyamas), que orientam o que devemos controlar, dizendo não, e também aquilo que devemos estimular, dizendo sim. Evitar qualquer violência à vida, evitar a mentira, evitar o roubo, controlar a sexualidade e evitar a inveja e a cobiça. São controles simples, mas dentro de uma hierarquia. Em primeiro lugar vem o respeito à vida, não ofender ninguém. Isso vem antes da verdade, que não é tão importante na filosofia hinduísta quanto à vida. Depois é que vem o respeito à propriedade e daí por diante.

Mas como da polidez surge a virtude? Será que é preciso haver um pouco de virtude dentro de cada um de nós para que esta possa se manifestar? Ninguém sabe ao certo. Isso é algo que constatamos. O fato é que o hábito cria essa segunda natureza das virtudes ou dos vícios, vai depender dos hábitos que cada um de nós permitiu surgir. As virtudes de caráter positivo, como as recomendadas em Yoga (niyamas) - o cultivo da pureza, do contentamento, da perseverança, do conhecimento e do aceitar a vida (render-se à vontade divina) – são extraordinárias, porque ninguém nos cobra. Afinal, se todo mundo ficar contente, não vão mais vender tantos antidepressivos. Se eu desejo e amo aquilo que tenho, não vou querer consumir de forma desenfreada. Então, é muito mais recomendável cultivar essas virtudes ditas positivas, porque a essas faltam estímulos, já que o estímulo mais normal é pela condenação.

Na nossa sociedade também se cultiva ainda um conceito grego ultrapassado: de que felicidade é um desejo pelo que nos falta; que a felicidade vem quando conseguimos aquilo que está nos faltando. Mas sabemos que quando conseguimos aquilo esperado, logo ele já não tem mais tanto valor.

Para resumir, podemos então dizer que todas as virtudes começam com algo que nem virtude é: a polidez. E a polidez se dá, desde a nossa infância, pela observação ou condenação daquilo que não é aceito socialmente. Claro que vamos encontrar pessoas muito educadas, muito polidas, mas apenas como uma capa, em que a polidez externa esconde um comportamento insuportável. Nesse caso, a pessoa não conseguiu fazer a passagem da polidez para a virtude, ou usa a polidez para ludibriar os outros, mas logo a essência acaba aparecendo.

O caminho da virtude, em Yoga, é a formação do hábito. E os hábitos se dão com a prática, com a repetição. Outra forma de se estimular a virtude é dar visibilidade, pois nós cuidamos mais daquilo que é visível. É muito mais fácil as pessoas serem educadas, polidas, terem mais consideração com os outros num ambiente em que haja transparência, do que em ambientes em que as pessoas estão isoladas e não estão sendo observadas. O fato de estar sendo observado aumenta a vontade do indivíduo de ser aceito.

Ninguém nasce virtuoso, é um caminho que em Yoga cultivamos com a pureza, a perseverança, o contentamento e com a consciência de que somos limitados, por isso nos rendemos à vontade divina. Fazer disso um hábito é um bom desafio.

Thadeu Martins