terça-feira, 29 de maio de 2007

O essencial e o carrossel

Um aspecto fundamental em Yoga é compreender as dualidades: manifestado e imanifestado, mutável e imutável, passageiro e permanente. Esses contrastes são preciosos na filosofia hinduísta e, principalmente, na linha filosófica de Yoga.

O principal em Yoga é cada um de nós desenvolver o hábito de ficar atento para estar presente e assim viver plenamente. Mas, afinal, o que é estar presente? Que prestar atenção é esse? Há um pano de fundo que dá sentido: compreender o justo valor de cada coisa, o significado de cada situação; ter compreensão do que os fatos significam. Na origem de tudo está uma relação de tensão, dual: um princípio permanente, eterno, que existe simultaneamente com outro, que se manifesta o tempo todo, que é mutável e que cria as circunstâncias.

Ao longo da nossa vida, mudamos inúmeras vezes e cada etapa é muito importante, mas só tem valor em relação a cada um de nós, que está presente agora e o tempo todo. O ser que está presente o tempo todo representa, individualmente, a permanência, esse algo que sempre é, que não se altera. Como diz José Saramago, no livro “Todos os nomes”, “tu conheces o nome que te deram, mas não conheces o nome que tens”. Os nomes que nos dão são os menos importantes, porque variam de acordo com as circunstâncias. O nome que temos, que ninguém nos deu, esse é o que está presente em todas as circunstâncias; é o ator que está lá no íntimo de todas as nossas personagens. Essa é a referência fundamental em Yoga, somos esse ser que sempre é e o ser que vai se manifestando, se alterando, se relacionando.

Em Yoga, “Purusha” é aquilo que não se manifesta e “Prakriti” o que se manifesta. Em cada um de nós, “Purusha” é chamado de “Atma”, palavra muito próxima de alma. A primeira manifestação de “Prakriti” é a mente, que lida com as três qualidades da matéria: a densidade, a sutileza e a dinâmica da transformação. Elas estão sempre numa dinâmica de mudança, em que o denso se transforma e se torna sutil, que se torna denso e isso não tem fim...

Na compreensão em Yoga, você e o interior do seu eu (cujo nome você sabe que tem, mas não sabe qual é), observam e vivenciam, a seu modo, todas as transformações que são propiciadas pelas características dinâmicas da matéria manifestada. Observar essas transformações exige um distanciamento. É esse distanciamento o principal desafio da prática de Yoga: estar atento à vida e manter, ao mesmo tempo que você se envolve com a vida, o distanciamento que possibilita perceber a transformação, perceber que tudo muda, que os nomes que nós temos mudam, mas somente aquele que observa sem mudar é que pode perceber essa mudança. Se você se envolve demais na mudança, acaba não percebendo o que mudou.

Essa consciência dá uma segurança extraordinária, porque aí nem a morte é ameaça, porque passa a ser mais um evento de mudança. Nada é permanente, a não ser você, esse ser que há em cada um de nós que, independentemente das mudanças, continua a existir.

Isso não diminui em nada o valor de sentimentos como o amor, a piedade, a compaixão ou mesmo de desprezo adequados a cada circunstância. São todos muito importantes, mas circunstanciais. Esse talvez seja o nosso maior desafio, ter clareza que tudo ao qual nos dedicamos tem por natureza ser passageiro. Isso muda tudo!

Mas em Yoga, não basta ter a compreensão, é preciso exercitar. Não há compreensão que, sem exercício, permaneça no ser humano. Nós somos seres educacionais. “Prakriti”, a realidade que está em permanente mudança, nos oferece um desafio de natureza educacional, porque a experiência traz resultado, este é percebido, a percepção do resultado traz uma memória, que condiciona a compreensão dos resultados seguintes. Esse também é um ciclo sem fim. Cada vez que agimos ou reagimos, surge um resultado; compreendendo ou não, esse resultado é percebido, vira então memória, que sempre se manifesta. Ou seja, é um ciclo permanente, que cresce em complexidade, e no qual estamos sempre envolvidos.

A vida é uma verdadeira feira de exposições, que está o tempo todo chamando a nossa atenção, principalmente para aquilo que é menos importante do que a compreensão essencial do que somos. Nós temos essa natureza dual: temos a permanência, a eternidade em nós e, ao mesmo tempo, vivemos processos passageiros de mudança, que acrescentam ou subtraem - sempre associados a prazer ou sofrimento, uma vez que a nossa compreensão se dá sempre de forma emocional. Corremos assim o risco de dar atenção apenas às emoções. A questão é esse “apenas”. Claro que é necessário dar atenção aos outros, às emoções, às circunstâncias, mas se dermos atenção apenas ao transitório, viveremos na transitoriedade, sem realizar nunca a permanência que nós também somos.

A filosofia hinduísta chama esta atenção: a existência é um processo de compreensão, de realização permanente, em que a transformação do sutil e do denso dá a dinâmica da vida, e constitui um processo de vida material, que por si só é importante. Mas o fundamental é a realização disso com distanciamento, em que, simultaneamente, somos aquele que observa e o que participa da realidade em observação.

A vida social é uma das manifestações passageiras desta experiência de vida que cada um de nós está tendo. Embora seja muito importante, porque não conseguiríamos viver isoladamente, até a vida social é relativa, porque se ela for exageradamente solicitante para nós, não conseguiremos desenvolver completamente a nossa essência.

Com os exercícios de Yoga e a prática de meditação, vamos criando condições de atenção para dar o justo valor aos fatos, aos relacionamentos, aos muitos “eus”, que cada um de nós é, e que assim tudo tenha a sua devida atenção, mas que no meio desse carrossel de atenções, que vivemos diariamente, consigamos desenvolver, ou seja, retirar o envolvimento, para que se revele o que estiver mais próximo do imanifestado, do permanente, do imutável.

No “Yoga Sutra”, Patanjali, de certo modo, fala o tempo todo dessa dualidade, impermanência e permanência, que tudo é mutável, que estamos sempre lidando com coisas passageiras, que tudo é muito importante, mas nada é tão importante quanto a compreensão disso: que tudo passa. Os exercícios que fazemos têm o propósito de desenvolver em nós essa habilidade.

Em resumo, a proposta em Yoga é: fique atento ao que é transitório e cultive a sua atenção para aquilo que é permanente. Com isso, desenvolve-se todo o restante da compreensão do que é a vida.

Thadeu Martins