quarta-feira, 6 de junho de 2007

Ser, escolher e escolher ser

A dualidade manifestado - imanifestado é muito preciosa em Yoga, porque pode sugerir uma fonte de prioridades. No cotidiano, priorizamos aquilo que achamos mais importante, que nos solicita mais. De algum modo, somos orientados a tomar decisões e estas são tomadas em função de preceitos sociais de convivência. A ênfase é pela sobrevivência. Como a cultura se sofisticou muito, a nossa orientação vai além da sobrevivência, além do ético e em geral chega a um caráter mais amplo: ideológico, religioso ou espiritual.

Mas há algo muito sofisticado na história das civilizações. Provavelmente, as primeiras compreensões dos seres humanos para princípios muito grandes e fortes, e deuses, estão relacionadas com a sobrevivência mesmo. É razoável admitir que a origem das crenças de respeito, de temor e até mesmo de adoração, tiveram como pano de fundo a pressão de sobreviver: o susto diante da vida e da natureza.

Hoje temos, além da orientação operacional para lidar com o cotidiano, uma orientação que vai além do comportamento social e que nos estimula a nos percebermos mais, nos conhecermos melhor. Podemos dizer que a maioria dos preceitos é de convivência, muitos são de sobrevivência e alguns são voltados para um ideal supra-social, mais espiritualizado, em geral com uma alegoria de deuses, de religiões, de santos, enfim, de modelos. As relações que são sugeridas entre nós e esse modelo em geral são de respeito, de pedido de ajuda. Vão-se projetando, nesse arcabouço supra-social, as relações pessoais que estabelecemos na vida. Daí o relacionar-se com Deus como um pai ou mãe generosos, ou poderosos ou autoritários.

Isso é comum na maioria, senão em todas as civilizações antigas e atuais. Viajando pelo mundo, é possível encontrar muita similaridade desses comportamentos. Em Yoga e seu complemento filosófico, o Samkhya, percebe-se uma ênfase bastante clara no comportamento social e uma ênfase muita maior no comportamento focalizado em algo superior à realidade social. Trata-se de um foco na consciência e de apenas uma indicação de divindade – embora o Yoga tenha surgido num ambiente de grande variedade de deuses.

Na filosofia Samkhya, não há nenhuma referência a essas alegorias. Encontramos, no máximo, em Yoga, uma referência a essa consciência supra-sumo na expressão “Ishivara”. Essa palavra foi traduzida no Ocidente como Deus, mas na compreensão original, no contexto indiano, é “o princípio divino da vida”. Então, quando falamos “Ishvara pranidhana”, “render-se à vontade divina”, significa render-se ao princípio da vida. Esse se render à vida tem como premissa que nós somos realidade que se manifesta, que atua no mundo e na sociedade, e ao mesmo tempo uma realidade que não precisa se manifestar, ou que não se manifesta, que é um referencial fundamental. Assim como a luz, que tem duas naturezas, material e ondulatória, nós somos simultaneamente a materialização do código de proteínas do DNA e uma realidade essencial, que faz a vida surgir, que é a vida.

No modelo hinduísta, a matéria manifestada tem três qualidades simultâneas: “Tamas”, “Satva” e “Rajas”. Mas, há sempre algo ali no meio, uma intermediação que é vital: a mente. É a mente que faz a intermediação e que permite a compreensão da matéria manifestada. É também a mente que faz todo esse caminho civilizatório, de realização. Não é à toa que em meio a todas as alegorias culturais, dá-se o nome “Budhi” (o mesmo Hermes grego, ou Mercúrio romano) para a intermediação mental entre o manifestado e o imanifestado, “Prakriti” e “Purusha”.

O manifestado, a matéria, é movimento, agito, portanto é sempre mutável, impermanente. O imanifestado, “Purusha”, ao contrário, é permanente. E ao compreendermos que tudo é mutável, que tudo é passageiro, a nossa percepção de prioridade pode ser reconsiderada. Se nós estamos diante de coisas que são sempre passageiras, se damos atenção extraordinária ao que é passageiro, que tal darmos um pouco mais de atenção àquilo que não é tão passageiro assim? Que tal fazermos uma aproximação entre o manifestado e o imanifestado? Que tal, além de desenvolvermos tanta habilidade, conhecimento e competência para lidar com o mundo passageiro, as usarmos também para lidar com o que não é passageiro? Para as pessoas que têm muita dificuldade de elaborar isso tudo, mas que percebem sua associação com o que é permanente, fica mais fácil utilizar uma alegoria de Deus. Nós podemos nos dedicar a um princípio divino com qualquer nome, com quaisquer práticas que consideremos razoáveis para, a partir daí, podemos ter uma compreensão de que existe algo a mais, que não se corrompe, não se destrói, não passa e que pode ser associado a um princípio permanente.

Nas nossas prioridades, como colocamos essa compreensão de que existe algo além do passageiro em nossas tomadas de decisão? Essa é uma questão, no mínimo, desafiadora. Tomamos tantas decisões na nossa vida e essas decisões são pautadas apenas pelo aproveitamento daquilo que é passageiro? E aquilo que não é passageiro? O que fazer? Afinal, dá para fazer? A questão não é nem fazer ou não, é muito mais de atitude, de compreensão. Agir depois que se tomou a decisão é fácil; difícil é tomar a decisão acertadamente! Quais são os critérios que consideramos para tomar uma decisão? O que leva a ponderar uma opção e outra na hora de decidir?

Historicamente, o que temos de critérios são emoção e razão. As nossas tomadas de decisões primordiais são emocionais. Nosso cérebro ancestral é o emocional. O racional veio depois, e desenvolveu-se mesmo depois que nascemos. Isso exige, portanto, muita dedicação para incluir o critério racional de destacar a importância do que é permanente em relação ao que é circunstancial em nossas decisões de vida. Uma das questões que está sempre como pano de fundo dos sofrimentos é justamente a ignorância ou o desprezo desse princípio da impermanência de tudo que se manifesta. Nós nos apegamos ao que é passageiro e ficamos a cultivar o medo ou a esperança em função daquilo que não é permanente, mas que esconde a essência da vida: o eterno que está em nós e em cada um.

Thadeu Martins