terça-feira, 19 de junho de 2007

Manual da mente para iniciantes

Toda a prática de Yoga no mundo baseia-se no Yoga Sutra (texto do Yoga em forma de cordel). São cerca de 195 verbetes, escritos numa linguagem poética. O sistematizador do Yoga Sutra foi o sábio indiano Patanjali, há mais de 2000 anos.

Quando ele surgiu, o Yoga já existia, pois é uma prática milenar na Índia. Era uma tradição oral, transmitida para os discípulos. O sábio Patanjali tem um surgimento lendário, varia do século cinco antes a depois de Cristo. Isso porque havia o hábito de muitos sábios de atribuírem seus textos a alguém muito admirado, em vez de assumirem a autoria das obras. Era comum, tanto na Índia como na China. Então, há vários Patanjalis na história da Índia! Não se sabe bem quem ele é. Mas podemos dizer que ele foi um precursor de Freud, na medida em que trata da mente humana com muita profundidade.

O Yoga Sutra de Patanjali é voltado para a compreensão do nosso processo mental. Começa afirmando que nós somos envolvidos pela nossa percepção, dada pelos sentidos, da realidade social; mas que existe uma compreensão essencial, permanente, que é o verdadeiro ser interior, da consciência, que está presente em tudo, independentemente das influências sociais que estejam acontecendo. Cabe a nós, quando compreendemos o nosso processo mental, desenvolvermos também a clareza, o discernimento de separarmos a compreensão do que é manifestado daquilo que não se manifesta, de modo que não sejamos um barco à deriva no oceano das emoções.

Está na origem do pensamento hinduísta a dualidade da manifestação e do referencial que permite a compreensão de tudo o que se manifesta. Esse referencial é “Purusha”, o imanifestado, tudo o que é permanente; é a essência geral e que está presente em cada um de nós. Não surge vida sem essa dualidade básica. Então, o propósito em Yoga é cultivarmos a presença, a atenção, de modo a vivenciarmos a realidade social com um sentido de prioridade, sabendo que tudo é passageiro, menos esse referencial essencial.

Na compreensão do Yoga, o sutil e o físico fazem parte da manifestação. Tudo o que se manifesta é, simultaneamente, sutil, denso e movimento. Ou seja, em tudo o que é manifestado (“Prakriti”) existe a trindade densidade, sutileza e transformação de um no outro. O sutil também é mutável, é dinâmico.

No Yoga Sutra, Patanjali dá uma atenção especial à compreensão da nossa mente. Nós compreendemos tudo com a intermediação mental; sem ela, nós não conseguiríamos nos relacionar. Mas ele chama a atenção que se nós ficarmos apenas no limite da mente operacional, se nos transformarmos apenas em seres sociais, certamente seremos muito úteis socialmente, mas estaremos desprezando o que vai além do social e vamos ter dificuldade, inclusive, para lidar com as surpresas que o mundo social nos traz. O social é algo que construímos.

Reproduzimos estruturas que as gerações anteriores criaram para podermos sobreviver como espécie, mas isso é apenas um artifício. Afinal, somos seres frágeis e sobrevivemos graças à nossa capacidade mental de nos organizarmos socialmente. Essa capacidade foi sendo supervalorizada, não por acaso, a ponto de nós, cada vez mais, glorificarmos o ser racional, que atua socialmente.

O Yoga Sutra é uma espécie de manual da mente, sobre como compreendê-la e colocá-la a nosso favor, de modo que possamos desenvolver hábitos que nos permitam ter desprendimento em relação à realidade, ao mesmo tempo em que vivemos com intensidade a nossa realidade. A essência da mensagem do Yoga Sutra é: viva a sua vida integralmente, exerça os seus papéis com integridade, seja íntegro! Essa integridade pressupõe ir além dos seus papéis. Cultive também o ator que existe dentro de cada um dos seus personagens, de modo que você viva a sua vida plenamente, com a consciência de que ela é passageira. Cultive a sua consciência em tudo o que você faz, de modo que quando este intervalo, este lapso de tempo, em que você tem esta experiência material se concluir, a sua consciência tenha se realizado plenamente e possa prosseguir em dimensões fora do espaço-tempo, que constitui nossa realidade social e material.

Patanjali fala basicamente dos métodos de meditação e de respiração, porque o controle da respiração é propiciador do controle da mente e este é fundamental na meditação, que nos dá a capacidade de estarmos presentes.

Nos exercícios de Yoga, praticamos a atenção em nós mesmos, porque cada um de nós está voltado o tempo todo para o mundo exterior, para o social. Os exercícios de Hatha Yoga nos possibilitam olhar para nós mesmos, perceber o nosso corpo, compreender os limites do nosso corpo e respeitá-los, desenvolver a capacidade de concentração, para ficarmos bem, relaxados e tranqüilos. O propósito é ficarmos saudáveis e aproveitarmos plenamente esta experiência imperdível que é viver.

Thadeu Martins