quarta-feira, 27 de junho de 2007

Mergulho no lago da consciência

Yoga, em essência, significa prestar atenção. Há algumas sugestões que se dão nesse “prestar atenção”. Algumas são de negação, de alerta; outras são afirmativas, indicativas. A principal mensagem é: cultive o contentamento e seja persistente, principalmente em cultivar a felicidade (a sua e a dos outros).

Em Yoga, também se tem a compreensão de que somos, simultaneamente, criaturas divinas e terrenas. Somos, ao mesmo tempo, constituídos de uma matéria que se manifesta e de uma outra matéria, que não se manifesta. Essa última, constitui uma essência, que nem precisa se manifestar.

O propósito, em Yoga, é nos mantermos verdadeiramente atentos para que essa nossa natureza imanifestada torne-se presente de forma plena, para que a nossa natureza divina não encontre nenhum obstáculo.

O desenvolvimento mental e espiritual que se propõe em Yoga é tirar o envolvimento, é tirar os excessos sociais que atrapalham a manifestação da nossa divindade. Quando serenamos a nossa mente, o observador que há em nós de fato vê, aquele que cada um é torna-se presente. Em todas as demais situações, quando a nossa mente não está tranqüila, esse observador essencial está enevoado; ficamos então entregues ao fluxo das emoções, ao fluxo social. Ao serenarmos a nossa mente, o nosso verdadeiro ser se torna “mais” presente.

Essa compreensão foi desenvolvida pelos hinduístas há milênios, numa época em que se formaram os Vedas, “o conhecimento revelado pelos deuses”. A tradição dos Vedas remonta a cerca de seis mil anos AC. Inicialmente era transmitida de forma oral, depois surge o Vedanta (o “último conhecimento”) em linguagem escrita, o qual prossegue estimulando a sabedoria e a reflexão. As linhas filosóficas hinduístas são convergentes. Basicamente são seis, sempre aos pares. Yoga é uma vertente, ao lado da filosofia Samkhya, que seria uma ancestral estruturalista da epistemologia. Assim como o Yoga é um precursor da psicologia, o Samkhya é o antecedente da gestão de conhecimento. O Samkhya preocupa-se com as questões filosóficas, tais como a origem da vida, a estrutura da matéria e a natureza humana, entre outras. O Yoga lida com o nosso funcionamento mental.

No Brasil, Yoga está relacionado à educação física, tanto que há uma lei que obriga os instrutores a se registrarem ao Conselho Federal de Educação Física. Mas, talvez mais propriamente, Yoga deveria ser ensinado por professor de Psicologia ou Filosofia. Em Yoga, o tempo todo se fala da mente. Prestamos atenção ao nosso corpo, mas o foco é a nossa atenção com a mente. O corpo é o nosso território, patrimônio, o que temos de mais pessoal, junto com a mente e a alma.

A alma (no Ocidente) foi “descoberta” no séc. V AC, época em que viveram os filósofos gregos, o sábio Patanjali, Buda e Zaratustra. Como diz o célebre historiador inglês Arnold Toynbee, esse foi o período axial da nossa História. Nessa época, os gregos concluíram que existia uma essência individual do habitante da cidade. Quando esse morria, a alma saía da cidade (na visão helenística, a cidade nos constitui). A alma então se libertava da cidade. Esse é o mesmo conceito em Yoga: “Moksha”, a libertação de nossa essência, que vai além do ser social, o ser da cidade. É sabido que os gregos tiveram intenso contato com a Índia, muito antes de Alexandre. Até o modo de incinerar os mortos é semelhante. Na Grécia, quando se preparava o corpo do morto para passar ao reino de Hades, colocava-se uma folhinha, de ouro, prata ou chumbo. Nessa folhinha ficavam gravadas as dicas para a alma, para esse ser essencial. Ao chegar-se no mundo livre do social, Hades perguntaria “quem é você?”. “Eu sou filho da terra e do céu estrelado”, responderia a alma. Hades estão voltaria a perguntar: “o que você quer?”. “Eu quero beber da água fresca do lago da memória”, diria a alma.

De fato, tudo o que aprendemos e compreendemos, toda a nossa consciência, vai para a memória, se agrega lá. Viver é a realização (na experiência material) da consciência, e essa se situa na memória. Então, o que fazemos ao morrer é retornar ao “lago da memória”, que a psicologia mais tarde veio a chamar de “inconsciente coletivo”. Para o filósofo francês André Comte Sponville, o que antecede o espírito é a memória, a qual se constitui a morada do espírito. Para o físico quântico Amit Goswami (autor do livro “A física da alma”), quando temos insights criativos, estamos tendo acesso ao “corpo de significados” que está além do espaço-tempo: um conceito muito semelhante ao “lago da memória”, do inconsciente coletivo.

Há uma convergência de várias culturas e pensadores quanto à coexistência “natureza espiritual e ser social” e dessa libertação – da cidade, para os gregos; do mudo do Samsara, das “eternas reencarnações”, para os hinduístas. Há também uma variedade de compreensões religiosas e leigas de como lidar com essa dualidade da nossa natureza. De qualquer modo, temos a nossa mente fazendo a intermediação desses dois aspectos que nos constituem como seres vivos: ela sempre nos leva para passear pelas margens ou em mergulhos fortuitos nas águas do lago da memória. Nossas compreensões das experiências vividas são como pequenos córregos que seguem alimentando de lembranças esse lago extraordinário.

Thadeu Martins