terça-feira, 3 de julho de 2007

Serena-mente-consciente

Na compreensão hinduísta, tudo o que existe tem dupla natureza: manifestação (“Prakriti”) e não-manifestação (“Purusha”). A intermediação entre uma e outra é feita pela mente.

O processo mental de codificação e intermediação da realidade, para uma compreensão, está sempre ocorrendo. Assim vamos lidando com a realidade. A manifestação gera percepções e estas vão-se tornando complexas, vão criando uma trama, um envolvimento. Essa realidade interativa é muito solicitante. O processo mental se deixa tomar por completo, porque é interativo com tudo o que aparece.

Cada vez que agimos ou reagimos, percebemos algo e, a partir daí, criamos memória. A memória cria impressões, “Sanskaras”, as quais provocam o surgimento de pensamentos recorrentes, que vêm sem que tenhamos controle.

Em Yoga, buscamos controlar as manifestações mentais, que em síntese são cinco: o conhecimento, o engano, a fantasia, a memória e o sono/sonho. Buscamos educar, controlar a mente, de modo que possamos nos concentrar naquilo que requer a nossa atenção – deveres sociais, intenção espiritual ou até sobrevivência imediata. Vamos além dessa identificação com a realidade com a qual convivemos, para trazer a atenção a uma realidade interior, de modo que possamos desenvolver (tirar o envolvimento) desse intelecto, dessa capacidade mental, e assim perceber a realidade o mais próximo do imanifestado, da consciência espiritual.

Segundo o físico quântico Amit Goswami, há um estado de consciência especial que provoca o “colapso das possibilidades”, ou seja, que faz a realidade acontecer. Esse estado de consciência, que trazemos em nós e que é precipitador de realidade, é literalmente o padrão de consciência divina, a “consciência absoluta”.

Quando alcançamos estágios de proximidade dessa consciência especial, podemos ter até o privilégio de sair da dimensão espaço-tempo, na qual as interações ocorrem tanto, e perceber, por exemplo, o que os gregos chamavam “o lago da memória”, que na psicologia moderna veio a se chamar inconsciente coletivo. Além do espaço-tempo, temos acesso a insights, a tudo o que já foi compreendido e percebido, a tudo o que a memória coletiva já criou.

A mente é que possibilita o acesso à divindade, é a nossa preceptora, é ela que possibilita o acesso a tudo. Podemos dizer que a mente é a regente do portal da consciência.

Na prática de Yoga e de meditação, buscamos colocar a mente a nosso favor. Assim como no cultivo da ética coloca-se o comportamento do ser humano a favor do convívio social, na prática de Yoga usamos a mente em nosso benefício.

Quanto mais serenada a nossa mente, mais próxima ela estará do nível de consciência essencial, não-manifestada, “Purusha”, que não precisa fazer qualquer tipo de intermediação de realidade. Diante de nós então, tudo se torna menos ilusório, mais cristalino, mais próximo do essencial.

Thadeu Martins