sexta-feira, 20 de julho de 2007

Nos passos de Patanjali

Na tradição hinduísta, há seis linhas filosóficas ortodoxas. As duas com as quais temos mais proximidade são o Sânkya e o Yoga. Sânkya é a estruturação do conhecimento essencial e Yoga é a compreensão da mente, da alma. Nesse contexto, o meditar é parte fundamental, porque a integração das percepções se dá num estado meditativo, de plena atenção. Desenvolver essa plena atenção é característica de toda a tradição hinduísta. Podemos desenvolver a prática de meditação por vários caminhos.

O sábio Patanjali foi quem codificou o Yoga e o caminho da meditação, o “Samadhi Pada” – “Samadhi” é o último estágio da meditação e “Pada” significa caminho. Ele descreveu de forma precisa os fundamentos da meditação. A partir daí, cada linha do pensamento hinduísta acrescentou métodos e artifícios úteis para a prática de meditação. No Budismo, por exemplo, existe um estilo de meditação muito específico. Mas na essência a origem é muito semelhante, porque o Budismo surge no contexto da grande Índia, do “Mahabharata”, da mesma região.

A meditação budista mais tradicional inclui o estilo “Vipassana”, em que se fica sentado, em absoluto silêncio, desde um mínimo de meia-hora e até dias (com intervalos para o sono e as refeições). Depois de ficar muito tempo assim, o praticante começa a transitar a sua atenção pelo seu corpo. Já os que seguem uma linha do Yoga de devoção, meditam repetindo o nome da divindade. Por isso eles repetem o mantra “Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare” Outro caminho devocional é o “Karma Yoga”, que é a vertente da ação, do agir sem o interesse pelo resultado da ação. Ou seja, é o caminho da ação desapegada, desinteressada. No Yoga do Conhecimento, que alguns chamam de “Raja Yoga” e outros de “Jñaña Yoga”, o caminho da meditação é a prática do discernimento, da compreensão intelectual da realidade para se alcançar o estágio de plenitude.

Essa variedade se deve à multiplicidade de personalidades humanas. Há pessoas que são bastante ativas, para as quais ficar concentrada estudando pode ser insuportável, pois elas preferem agir. Há outras que têm tamanha natureza devocional que buscam se entregar a uma causa maior. E por aí seguem os vários tipos.

O interessante a observar é que o legado deixado pelo sábio Patanjali é a base para todos esses estilos de Yoga, todos eles se referem a Patanjali. Isso porque a codificação do Yoga e da meditação é dele. Até o “Bagavadgita” se referencia ao Yoga.

Patanjali comenta sobre os vários tipos de yoguis, as várias personalidades, e como cada um pode identificar-se com este ou aquele método. Ele vai lá na origem do “Sankya”, que diz que a natureza tem basicamente três qualidades: “Thamas”, “Radja” e “Satva” - densidade, movimento transformador e sutileza. A dosagem dessas qualidades nunca é a mesma, porque a matéria é dinâmica, está sempre se alterando. Então podemos estar ora mais tranqüilos, ora mais rápidos, ora mais lentos e assim vamos nos identificando com este ou aquele caminho. O importante é nos mantermos atentos para aproveitar as oportunidades de acordo com o nosso estado de espírito.

Ainda segundo Patanjali, há basicamente duas formas de meditação e a primeira delas tem pelo menos quatro subdivisões, conforme o tipo de objeto escolhido para concentrar-se a atenção. O primeiro desafio é habituar-se a concentrar a atenção, tanto com o olhar quanto com os pensamentos em relação a esse objeto. Pode-se ter como propósito, por exemplo, conhecer o objeto. Abrimos mão de tudo mais para atingirmos esse propósito por meio da observação, do estudo e da pesquisa.

O segundo tipo de meditação diz respeito ao objeto conceitual. Digamos que o observador se concentre em uma virtude para entender o conceito. Primeiro ele usa o mesmo processo anterior de estudo e pesquisa sobre o objeto até atingir um estado de saturação. Então pode fechar os olhos para meditar sobre esse objeto abstrato.

Patanjali comenta também sobre os cinco estímulos que devem ser cultivados: pureza, contentamento, perseverança, conhecimento e render-se à vontade divina (“Ishvara Pranidhana”). Quando fala de estudar, ele se refere tanto ao auto-conhecimento socrático como estudar o nosso tempo: a religião, a política, a história do homem, ter pleno conhecimento do que a cultura nos possibilitou. Depois de nos impregnarmos de todo o conhecimento, podemos fazer o que o físico quântico Amit Goswami lembra sobre os quatro estágios da criatividade: estudar, saturar-se, ter o “insight” e colocar em prática.

O estado da meditação é basicamente aquele em que permitimos o “insight”. Se temos como propósito de conhecimento captar algo, estamos nos referindo a esse estágio de captação de “insight” do caminho da criatividade. O estímulo é pela realização das duas primeiras etapas. Ou seja, estudar bastante o tema escolhido, saturar-se do conhecimento possível, que a cultura permita e então abstrair-se disso tudo para entrar no estado meditativo; criar uma alegoria qualquer que simbolize o significado todo, um ícone qualquer e, enfim, entrar no estado da não-ação. Depois de ter agido com tudo aquilo que a nossa cultura nos permite, vamos além da ação, para permitir que o “insight” aconteça.

Na compreensão hinduísta, só saímos da dimensão espaço-tempo com o não-agir. Enquanto estivermos agindo, estaremos no espaço-tempo. Indo além, podemos captar algo que está no “lago da memória”, que veio a ser chamado, na psicologia ocidental, de inconsciente coletivo.

A questão que o pensamento hinduísta nos propõe e que os físicos quânticos reforçam é: qual é a interferência mínima que eu posso fazer para permitir que a vida se manifeste sem que eu atrapalhe, uma vez que o observador sempre interfere na experiência? Ir além da ação aparente é o nosso desafio, no caminho da meditação, para uma vida mais sutil e plena.

Thadeu Martins