terça-feira, 28 de agosto de 2007

PhD em você

Um dos tópicos que o sábio Patanjali mais acentua em seus textos é o autoconhecimento. Quando trata do código de comportamento, logo no início do Yoga Sutra, primeiro ele afirma que Yoga é a cessação dos turbilhões mentais, depois comenta sobre as modificações da mente, que são basicamente o conhecimento (certo ou errado), a fantasia, o sonho e a memória.

Essas modificações estão sempre acontecendo e o apaziguamento delas nos ajuda a ficarmos mais serenos. Não se trata exatamente de apaziguamento, mas sim da “desidentificação” com as manifestações mentais. Nós nos vemos como indivíduos e assim agimos. Isso é próprio da natureza humana, a oposição entre o indivíduo e o coletivo. Há contextos sociais em que somos muito mais estimulados ao coletivo, mas mesmo assim a individualidade está bastante presente. Mesmo nas sociedades muito coletivistas acaba havendo um culto à personalidade deste ou daquele que, por alguma razão, se sobressai. É como se todo ser humano tivesse uma certa compulsão pela individualidade.

O conceito de individualização se aproxima da idéia de identificação. É esse identificar-se com isto ou com aquilo que nos subtrai das outras oportunidades de vivência que temos e acentua a opção escolhida. Há vezes em que isso se acentua demais...

Patanjali comenta que essas manifestações mentais trazem de algum modo sofrimento: quando nos identificamos com elas, ou seja, quando permanecemos nelas. A origem desse sofrimento é ignorar o todo que está acontecendo e que tornaria relativa e circunstancial aquela identificação. É a ignorância, num sentido bem amplo, de tomar a realidade por uma identificação circunstancial que temos dela. Na medida em que conseguimos nos distanciar da circunstância, tudo se torna relativo, pois deixamos de nos fixar nisto ou naquilo.

Claro que nós temos uma vivência circunstancial, sempre. Nós nos emocionamos bastante, somos tomados pelas situações, vivemos nos identificando com situações, com pensamentos ou ideologias. Então é como se o nosso viver fosse um vai-e-volta, nós nos identificamos e deixamos de nos identificar. A humanidade registra os vários ciclos tradicionais de grandes perdas de identificação, como as crises dos 28 anos e dos 40 anos ou da meia-idade. São momentos em que a maioria das pessoas vivencia fortes crises de identidade, de identificação com valores, crenças, comportamentos, relacionamentos.

De que forma podemos manter o distanciamento desse exagero da identificação? Alguns comportamentos são sugeridos pelo sábio Patanjali, entre eles o conhecer-se. Na medida em que cada um de nós tenta se conhecer, também está se distanciando, porque se torna uma terceira pessoa. Rigorosamente estamos falando de estudo e auto-estudo. Em sânscrito chama-se “svádhyáya”.

Estudamos a cultura e nós mesmos, o ambiente e as circunstâncias onde estamos - a história da nossa vida, da nossa família e do nosso país. O objetivo é compreendermos o contexto, tomarmos conhecimento do que foi produzido pelas gerações que nos antecederam e nos situarmos de modo prático. Isso é algo bastante amplo, ao qual somos estimulados desde cedo. Já o autoconhecimento não é tão estimulado. Mas nós temos várias oportunidades de fazer isso; como, por exemplo, buscar a opinião dos outros sobre nós mesmos. Essa opinião pode ser tanto de um especialista em comportamento humano, quanto de nós mesmos. Afinal, nós somos os maiores especialistas de nós mesmos!

O caminho sugerido no Yoga Sutra é de prestarmos atenção, ao fazermos os exercícios físicos e mentais de Yoga, os intermediários entre ambos (respiração sincronizada), bem como em nossa conduta na vida social. Ou seja, a sugestão é de nos mantermos atentos em cada um desses momentos, tanto ao que fazemos quanto a nós mesmos.

Na tentativa de captar o que Patanjali quer dizer, creio que a chave de tudo é o sentimento. Se eu começo a prestar atenção nos meus sentimentos, a percebê-los e a registrá-los, passo a aumentar as possibilidades de me conhecer. Prestar atenção nas emoções, me parece o melhor artifício do autoconhecimento.

Claro que precisamos sistematizar isso. Cada um usa o seu próprio método. Algumas pessoas, por exemplo, registram as emoções em um bloco de anotações, outros em voz alta. Alguns sentimentos são recorrentes e, sempre que eles surgem, devemos nos perguntar: por que aparecem com tanta freqüência e mexem tanto conosco? É bom fazer esse estudo dos nossos sentimentos em um determinado horário. Isso nos ajudar a desenvolver essa disciplina. Um exercício importante é tentar lembrar o que fizemos ou fazemos ao longo do dia e registrar as situações e os sentimentos que tivemos nessas situações. O propósito é criar o hábito de nos observarmos, tendo como foco a lembrança e, principalmente, o registro afetivo. A primeira habilidade a desenvolver é perceber os nossos sentimentos e depois, como qualquer observador, estudá-los e explorá-los, para que assim possam surgir os “insights”, o que eles nos querem dizer.

O sentir é talvez a nossa principal conexão com a realidade. Nós decidimos quase tudo de forma emocional. O sentimento é a base. Portanto, é fundamental cuidarmos bem dos nossos sentimentos. O caminho indicado por Patanjali é observarmos os sentimentos, percebê-los e nos distanciarmos deles como se fôssemos uma terceira pessoa que estamos observando. A partir daí podemos criar um método pessoal de auto-investigação. Crie o seu e depois me conte!

Thadeu Martins