sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Consciência além da vivência

Na base da compreensão do que é Yoga e do pensamento hinduísta há uma dualidade essencial: a consciência e a natureza, em que a consciência é um referencial não-manifestado (“Purusha”) e a natureza, aquilo que se manifesta (“Prakriti”). Estão sempre juntas, não há separação. Então, tudo aquilo que é manifestado – incluindo os pensamentos, as visões, os sonhos e a matéria, seja ela de que natureza for – é “Prakriti”. Toda essa manifestação se dá em relação a um referencial imanifestado, “Purusha”.

O físico quântico Amit Goswami (que esteve em Brasília recentemente) chama a atenção, em seus livros e palestras, que a compreensão da Física atualmente só é possível tendo-se em consideração a interferência da consciência. Ora, essa questão da independência do observador em relação àquilo que ele está pesquisando sempre foi uma celeuma, um ponto de antagonismo na visão dos cientistas.

Um dos cânones da ciência é poder reproduzir as experiências; e que elas se dêem em qualquer situação, independentemente daquele que conduz a experiência. A ciência, portanto, estaria baseada nessa independência do observador, que não influenciaria os resultados da observação. Mas, ao se chegar no limiar da subpartícula da partícula atômica, a constatação é que a simples presença do observador altera o fenômeno. Os físicos quânticos chegaram a pontos de total inconsistência, como se a física se mostrasse contraditória. Mas é claro que a natureza não é contraditória, o que pode ser contraditório é o modelo que se está utilizando para observar a natureza.

Essa divulgação conceitual começa com o PhD em física Fritjof Capra na década de 70. Ele demonstrou que há um paralelismo extraordinário entre a expressão do misticismo oriental e a linguagem com a qual a física consegue descrever a natureza. E chega próximo à questão da consciência. O Amit Goswami se aprofunda nesse tema. No livro “Universo autoconsciente”, ele explora justamente a consciência que antecede a nossa consciência verbal e que condiciona tudo o que há.

Isso que nós habitualmente chamamos de consciência é, no máximo, uma consciência social, verbal, lingüística que nos ajuda a interagir e compreender isto que está no mundo social aparente e para o qual fomos preparados. Não é essa consciência superficial a que se refere Amit Goswami na física. Ele se refere a um nível de consciência tão essencial que, na tradição habitual, nós chamamos de divindade. Mas na linha filosófica indiana “Samkhya”, focalizada no conhecimento e que dá todo o suporte para o Yoga, não existe referência a Deus em nenhuma acepção que se possa pensar. Não há nenhuma personificação. Quando se fala de vida, da inteligência essencial de vida, está se falando desse nível de consciência que não é personificado, mas que é absolutamente presente e condicionador de tudo o que se manifesta. Os humanos atribuímos a esse princípio essencial características humanas para facilitar a nossa comunicação. O símbolo é que é poderoso, enquanto a alegoria é apenas a representação do símbolo.

Amit Goswami fala desse nível de consciência, que em Yoga se cultiva o acesso pela prática de meditação. Só temos acesso à consciência pela não-ação. Quando agimos “conscientemente”, agimos na inteligência social, nos limites do nosso espaço-tempo.

O que os hinduístas sugerem e os físicos quânticos estão chegando lá, é que temos manifestações aparentes, que ao observador parecem ser desta ou daquela maneira, mas que rigorosamente é apenas aparência. Em outros referenciais aquilo poderia parecer outra coisa. Quando praticamos meditação, nós serenamos essa nossa capacidade extraordinária de interpretar as aparências, cessamos de dar atenção às aparências, deixamos de ficar percebendo aquilo que se oferece neste contexto de espaço-tempo. Os pensamentos ficarão serenos a tal ponto que poderemos ter “insights” além do espaço-tempo.

Nós estamos muito mais habituados a exercer a inteligência social. A forma de reduzirmos um pouco isso é usar as mesmas ferramentas culturais que temos, é criar um novo hábito; e só criamos um novo hábito fazendo, praticando um outro rumo. Podemos praticar Yoga, meditação, relaxamento e repouso com habitualidade, para abrir essa possibilidade de viver também o não-espaço-tempo, o que não é social, aquilo que é essencial. Cada um vai descobrir na medida em que se permitir fazer isso, porque é uma vivência intransferível. Vivencie, pois!

Thadeu Martins