sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A divina consciência de cada dia

Na origem de toda a articulação filosófica hinduísta estão os Vedas e a partir deles, o Sâmkya, o Yoga, o Vedanta (final dos Vedas) e mais outras escolas de pensamento. O Vedanta e o Sâmkya vieram sendo transmitidos por escrito, bem do princípio, enquanto o Yoga, na sua maior parte, foi transmitido oralmente e associado à prática. Há um aparente ateísmo no Sâmkya e de certo modo no Vedanta e um aparente teísmo no Yoga. Mas, no fundo, tudo está meio misturado: há uma compreensão da consciência como princípio divino como algo que não é personificado e há também, culturalmente, uma tentativa, em todas as escolas de pensamento, de personificar a consciência, a divindade primordial.

As escolas do pensamento hinduísta propõem um caminho filosófico. Algumas delas afirmam que o espírito individualizado, permanece dessa forma; a consciência originária de tudo se desdobraria nas várias espiritualidades individuais e esse desdobramento sempre permaneceria. Para outras escolas, essa individualização é pura imaginação nossa, a partir da experiência terrena de sermos indivíduos, num todo que é coletivo; tudo seria uma grande ilusão.

É interessante observar como as tradições do pensamento vão-se alternando nesses pontos de vista. Mas, independentemente do indivíduo se integrar ou não ao todo, há em todas as escolas a compreensão dos princípios da consciência e da ilusão. Na medida em que a experiência da percepção é muito marcante, experimentamos e tomamos o experimentado como verdade. Porém, o perceber estará sempre referenciado ao percebedor.

No Yoga e no Sâmkya, a compreensão de tudo é a partir de uma derivação original de uma unidade que é simultaneamente duas: Purusha e Prakriti, consciência e natureza que se manifesta para a consciência. Purusha é a pura consciência, percebe-se Prakriti pelo reflexo de Purusha. Nós, que somos ambas, temos a compreensão do todo pela manifestação; compreendemos aquilo que se manifesta e não temos a experiência daquilo que não se manifesta, porque não podemos experimentá-lo. Isso está na base de todo o pensamento hinduísta.

Purusha é a consciência que de nada precisa, que não se ilude. A primeira manifestação de Prakriti é Mahat ou Budhi (ou Mercúrio dos romanos, Hermes dos gregos, Trimegistro dos alquimistas), aquele que no indivíduo permite o acesso à compreensão. É o gestor da mente, que de uns trezentos anos para cá acabou virando sinônimo de consciência. Mas no hinduísmo, mente é Chitta, complexo mental; a consciência vem antes, é a consciência que viabiliza tudo o que se manifesta.

Hoje, felizmente, se observa uma convergência do pensamento científico (física quântica) e do pensamento místico, em que se coloca de novo a interferência da consciência, do princípio divino, na manifestação da natureza observada.


Cultivando a consciência

Em Yoga, estimula-se o cultivo dessa consciência primordial. E como podemos fazer isso? Prestando atenção, percebendo o que estamos fazendo e, principalmente, tentando perceber como é que nós estamos, quando fazemos algo. Isso é o mais difícil. Na maioria das vezes, nós nos envolvemos de tal modo com alguma coisa que nos desligamos. Isso é uma grande perda de oportunidade. E ao fazermos algo de forma atenta, vamos buscar uma condição de conforto. Se o que fazemos não está confortável, o melhor é parar, pois aquilo não será bom para nós.

É surpreendente como coisas simples, desse tipo, mudam uma vida e de forma extraordinária! A vida passa a ser muito mais fácil, mais interessante. Passamos a realizar a consciência o tempo todo. Cada vez que percebemos algo, realizamos uma virtude, compreendemos um novo significado, criamos ou captamos algo, temos acesso ao “lago da memória”, à consciência universal.

Portanto, a sugestão em Yoga é de, no cotidiano, praticarmos a atenção para cada vez mais termos clareza de que tudo o que vivenciamos é aparente, passageiro, é uma manifestação circunstancial, que só tem importância no contexto em que estivermos. Vamos assim nos habituando a perceber esse contexto, dando importância a ele, porém, também cultivamos o afastamento. Vivenciamos o momento e, ao mesmo tempo, cultivamos esse estado de consciência que se afasta da manifestação. Não deixamos de nos manifestar, porque isso é impossível de acontecer, afinal somos matéria. Daí a dualidade Prakriti e Purusha. Não há uma delas separada da outra.

A percepção daquilo que não se manifesta só se dá pela não-ação, que acontece por acaso ou cultivada. A prática de Yoga tem justamente o propósito de cultivar a não-ação. Essa prática foi ganhando acréscimos de toda ordem. Na proposta original do sábio Patanjali, não havia exercícios, mas sim o cultivo da não-ação, da atenção. Ele recomenda o cultivo da atenção à vida social e ao estudo, para reduzir a ignorância. O único exercício físico que Patanjali propõe é o controle da respiração e a meditação. Ao nos habituarmos a controlar a nossa respiração, estamos fazendo o principal exercício propiciador do estado de transe, de insights. Quando serenamos a mente (estado de não-ação) e a tornamos cristalina como a superfície de um lago, refletimos a consciência, a divindade, aquilo que não se manifesta. O caminho para que esse reflexo aconteça é a entrega à vida, algo que podemos cultivar a cada novo dia.

Thadeu Martins