sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Flores em você

Em Yoga, o Mulabanda (banda, fecho; mula, de Muladhara, centro de distribuição de energia da base da coluna; contração da musculatura da região anal e uretral) e todos os outros “bandas”, selos, têm por propósito o controle de energia. Eles têm dupla função: orgânica e energética.

Na concepção hinduísta, há milhares de canais de distribuição de energia no nosso corpo. São os nadis. Desses canais, os mais importantes são três (ida, píngala e sushuma) que ficam ao longo da coluna vertebral. São canais sutis de energia.

Os nós desses nadis são os chakras, que em sânscrito significam círculo. Há pelo menos sete desses centros de irradiação de energia. Cada um deles está associado a uma determinada região do nosso tronco.

Como na percepção hinduísta a nossa manifestação tem três qualidades, que são a densidade (tamas), a sutileza (sattva) e o movimento transformador (raja), podemos dizer que o sistema nervoso é a parte densa, tamásica da distribuição de energia dentro de nós. A energia em si é sutil (sattva) e seu movimento é ígneo (fogoso), raja.

Os chakras são representados pelos hinduístas como flores. Para cada chakra é associada uma flor com um determinado número de pétalas. O chakra que fica acima da cabeça, por exemplo, é chamado de Chakra das Mil Pétalas. Está associado à Budhi, que é Mercúrio, Hermes Trimegistro, é a inteligência. Curiosamente, o desenho desse chakra é muito semelhante ao da órbita de Mercúrio em torno do Sol, se visto da Terra!

Budhi também é chamado de Mahat, mas esse está no limiar da consciência inconsciente. Os hinduístas afirmam que no início da nossa existência, quando não havia nada, surgem Purusha e Prakriti, ambos sendo uma coisa só. Didaticamente, um é o aspecto que não se manifesta e o outro se manifesta. Purusha é o princípio da consciência não-manifestada. Prakriti, o aspecto que ao começar a se manifestar, apresenta Mahat, o pré-consciente, que é uma consciência não-discriminadora, anterior ao raciocínio. É pré-intelectual, mas é consciência. O início da consciência com inteligência discriminativa já é Budhi, que poderia ser representado por um cocheiro que orienta três cavalos unidos entre si, ou seja, as três qualidades da matéria.

Então, na imagem hinduísta de como a energia manifesta-se em nós, há sete círculos ou chakras, aos quais podem ser feitas várias associações. O primeiro chakra é o da base da coluna, associado à energia terrena. O segundo está na região das supra-renais (ou na base do baço), relacionado à água, às emoções, à criação da vida. O terceiro está na região do umbigo, do “fogo” da digestão. Os três são chakras de matéria. Já o quarto chakra está associado ao ar, que simboliza a transição para do material para o sutil e fica na região do coração. É a mistura de ar e fogo. O coração faz a transição dos chakras-matéria para os chakras-sutis, que são o da voz (da expressão), da região intelectual (que articula o significado das emoções) e o Chakra das Mil Pétalas, que é supra-racional, no limiar do espiritual (alma, Atman, individualização de Purusha).

Ao meditarmos, podemos levar a atenção, por exemplo, a cada um desses chakras; ir percebendo a transição de nossa atenção indo de um chakra para outro. Podemos sincronizar isso com o ritmo da nossa respiração, fazendo por exemplo a emissão do mantra OM, enquanto expiramos, sentindo “vibrar” cada um dos chakras ao som prolongado do OOOOMMMMM...

Mas havíamos começado a nossa conversa com a expressão mulabanda, apenas para chamar a atenção para outro hábito, muito mais simples, de fazer uma breve contração da região muscular do períneo, ao concluirmos uma respiração, tanto depois de expirar, quanto depois de inspirar. O propósito básico seria levar a atenção para a base muscular de onde se mobiliza toda a musculatura que dá sustentação à coluna vertebral. Assim, estaremos cultivando outro importante hábito: o de associar a respiração à tonificação muscular que nos permite ficar em pé ou bem sentados.

Por meio da atenção aplicada durante a respiração, tanto à sutileza dos chakras, como à materialidade muscular, vamos, no mínimo, nos apaziguando, nos desligando um pouco do mundo das mil e uma solicitações, prestando atenção ao nosso jardim interior.

Thadeu Martins