quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Consciente com o coração presente

Nos fundamentos da compreensão de como é o nosso eu, há sempre a menção a uma inteligência essencial, primitiva, que antecede a esta inteligência lógica, racional com a qual estamos acostumados a lidar na realidade social. Podemos dizer que existe um eu primeiro, uma consciência tão primordial que nem temos acesso a ela.

Para fazer uma analogia, basta lembrar do genoma humano, o qual até conseguimos mapear, vemos o efeito, mas não temos acesso à inteligência que o concebe. Essa codificação é de uma inteligência extraordinária a ponto de determinar pré-condições físicas em todos os seres. Nossos cientistas até conseguem mapear o DNA, mas não podem saber, por exemplo, por que a mosca tem 10 mil genes e o homem 30 mil ou por que os genes se agrupam de uma determinada forma. Embora seja bem evidente a existência dessa consciência absolutamente primordial, não a percebermos diretamente.

Em outro extremo, há esta inteligência realizadora da vida social, relacionada aos objetos da nossa ação, com os quais interagimos. De um lado, temos uma consciência, um eu ao qual não temos acesso; de outro lado, temos um eu totalmente referenciado aos objetos da ação. Mas temos também alguns “eus” intermediários.

Ora, quando levamos um susto, não temos tempo nem de pensar, mas tomamos consciência do susto. Damos um pulo, um grito. Não precisamos de uma consciência lógica para tomar susto. Temos também uma outra consciência que irá racionalizar o susto: por que me assustei?

Estamos falando então de quatro consciências: a inacessível, a referida aos objetos, a afetiva (pré-raciona) e a intelectual. Na compreensão hinduísta, esses quatro “eus” têm nomes. O primeiro é “Purusha”, “Atma”, o princípio divino da vida. É “a” consciência. O segundo é “Ahankara”, o ego, referenciado aos objetos, à densidade (“Thamas”). O terceiro é “Mahat”, o pré-racional, relacionado às emoções, e o último é “Budhi”, o intelecto.

Temos, portanto, um modelo, uma alegoria, que nos ajuda a compreender o que somos afinal. E analisando esse modelo, percebemos que as emoções (“Mahat”) estão próximas do princípio divino (“Purusha”). Quem atrapalha (e às vezes ajuda) ou intermedeia é a racionalização (“Budhi”). O ego (“Ahankara”) atua na realidade filtrada pelas emoções e racionalizações.

Vamos nos deter nessa relação conflituosa entre o agir (Ahankara), o sentir (Mahat) e o pensar (Budhi). Os três são geradores de percepções, de impressões dos resultados de suas respectivas atuações. Vamos memorizando esses resultados, sob formas que irão manifestar-se ou como reminiscências ou como tendências ou impulsos para ação - as quais surgem, em geral, fora do nosso controle. Quanto mais nos deixamos levar pelas manifestações mentais que brotam dessas reminiscências, tendências ou impulsos de nossa memória, mais embarcamos num mundo fantasioso, num fluxo social que aparenta ser a realidade. Saímos, assim, de nós mesmos para um mundo virtual, a ponto de viver uma vida totalmente dedicada ao que não é, sem perceber isto: que nos deixamos levar; perdemos o controle da situação; ficamos entregues a chuvas e tempestades; assim, os sustos serão sucessivos.

Em Yoga, somos estimulados a cultivar o nosso próprio ritmo por meio do cultivo da consciência, da compreensão das origens das reminiscências e dos impulsos da memória, com ênfase nessa relação entre o sentimento e o intelecto, para lidar com a realidade. O sábio Patanjali focaliza a nossa atenção para lidarmos simultaneamente com o mundo, com as pessoas e com os “eus” de nós mesmos. Segundo ele, devemos exercer plenamente os nossos papéis sociais, mas o mais importante é harmonizarmos a emoção e a razão, de modo a perceber que todos os fatos, com que lidamos, são circunstanciais. Eles também podem ser vistos, ou sentidos, com distanciamento. De que forma? Esvaziando as emoções de conteúdos que nos são prejudiciais, compreendendo o significado da aparente realidade ou das emoções. Assim, podemos nos apaziguar a ponto de ficarmos bem próximos da nossa consciência essencial (“Purusha”), que não é passageira como os fatos, e podemos lidar com a realidade de modo menos distorcido pelas nossas interpretações.

Portanto, desenvolver a consciência nada mais é do que tirar o envolvimento que o susto, o intelecto e a ação acrescentam à consciência original.

De início, precisamos manter o hábito de estarmos atentos, harmonizados. Um exercício prático é começarmos a analisar nossas próprias emoções. Feche os olhos e perceba o pulsar do seu coração. Você já está se abstraindo do mundo social, deixando o ego sossegado, a partir do momento em que a sua mente intelectual está voltada para a mente afetiva. Você está colocando em sintonia o coração e a mente, o cérebro da cabeça e o cérebro do coração. Você pode aumentar a sua atenção. Sabendo que o coração tem um ritmo, uma atividade, uma energia, a energia da respiração, leve agora a atenção simultaneamente para o coração e para o pulsar da sua respiração. Perceba que quando você respira, há uma certa quantidade de pulsos, de batimentos cardíacos. À medida que você vai respirando, o seu batimento cardíaco altera-se levemente. Prossiga nessa atenção consciente por alguns minutos, percebendo agora o ritmo da sua mente. Imagens, pensamentos e lembranças vão surgir, mas agora você estará no controle. Quando sentir que algum pensamento ou imagem está levando você, volte a observar a pulsação do coração e o ritmo da sua respiração.

Assim você vai se distanciando das reminiscências mentais. O objetivo é cultivar esse hábito de estar no controle, de se observar diariamente. Por que não começar agora mesmo?

Thadeu Martins