sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Eu profundis

Todos nós temos basicamente quatro “eus”. Há uma inteligência profunda ao qual raramente temos acesso, se é que temos acesso, mas que está presente. Exemplos disso são o DNA e o sistema nervoso autônomo, que funcionam sem que nós atrapalhemos. É uma inteligência absolutamente evidente, embora não possamos pegá-la ou dialogar com ela.

No outro extremo, há a inteligência do eu que realiza as ações, que vive o cotidiano, que é sujeito das ações. Ao contrário do eu primordial, sutil, este é material, porque só existe na relação com os objetos; é o eu que faz as coisas. Um é inacessível e o outro é totalmente acessível. Outro eu, que está próximo do primeiro, é o eu que leva susto, que antes mesmo da possibilidade de raciocinar, percebe a realidade e é capaz de emocionar-se com ela, independentemente de qualquer racionalização. O último eu, mais próximo do eu das ações, é o eu que racionaliza. É o eu que pensa, que usa o intelecto, que cria compreensão e significados.

Quanto mais nos afastamos do eu inacessível, do eu mais profundo, mais nos aproximamos do eu mundano, que é o que lida com a realidade, com os outros, com o mundo. Essa distância é intermediada, o tempo todo, pela emoção e pelo significado que a realidade nos proporciona.

Na abordagem budista, o eu é o “não-eu”, ou seja, não há um eu. Já para o Vedanta, ramo da filosofia hinduísta, o eu existe, mas o mundo não, portanto o mundo é uma ilusão. Na escola do Yoga, o eu existe, o mundo existe, mas a relação entre o eu e o mundo é ilusória. A justificativa dessa ilusão é justamente o fato de haver essa intermediação dos “eus”, o emocional e o racional, entre o eu primordial e o eu realizador das ações. A ação desse eu realizador é vista com significados, provoca emoções e é a percepção dos resultados das ações que vai gerar memória. Quando lidamos com a realidade, essa resulta, percebemos a realidade resultante e a percepção transforma-se em memória. E assim a vida prossegue, com esse processo acontecendo.

A emoção que sentimos e os significados, que atribuímos aos resultados e à própria realidade, vão conformando dentro de nós um panorama, que não é propriamente a realidade, mas apenas a nossa interpretação dela. É como se cada um de nós vivesse um videogame particular, conforme o conjunto das memórias que estabeleceu e a forma como recupera essa memória e lida com ela; basicamente lidamos com estes dois aspectos: emocional e de significados.

Podemos acrescentar um complicador ou fator de beleza, que é o seguinte: o conjunto de significados e memória, quando compartilhado por muitos indivíduos, forma cultura e a partir do momento em que esses indivíduos vão convivendo entre si, e assim formando civilizações, vai sendo criado um supra-significado, que alguns chamam de arquétipos. São os significados culturais. Esse campo de significados e de emoções não só está referenciado a cada um de nós como indivíduos, mas também são referenciados à geração na qual nascemos, àquela que nos antecedeu, à que vai nos suceder e a um determinado momento na história. Quanto maior esse momento, maior vai ser o campo de significados que estarão se referindo a nós.

Quando embarcamos nesse desafio, de querer compreender a vida, nós nos deparamos com alguns significados que reconhecemos com muita facilidade, porque nós mesmos os incorporamos à nossa vida. Mas, de vez em quando, esbarramos com alguns significados que nos surpreendem totalmente, que não temos idéia de onde surgiram. São justamente os supra-significados, os significados culturais.

Na psicologia, encontramos o conceito de inconsciente coletivo e de inconsciente, que basicamente se referem a esse conjunto de significados que estão além do indivíduo (ou antes dele). A palavra inconsciente aí está bem no limiar, é inconsciente e consciente, ou seja, manifesta-se e não se manifesta.

Há um processo de estabelecimento de memória a partir da nossa experiência de vida. Essa memória pode manifestar-se, seja por impulsos, por reminiscências, ou por outra denominação para essas manifestações; elas vão brotar disso que é fruto da nossa vida, das vidas que nos antecederam e daquelas com as quais nós convivemos (e quem sabe, das que projetamos).

O objetivo do Yoga e da meditação é incluir, em nossa vida, a sintonia com a inteligência primordial. Para isso, precisamos tirar os envolvimentos que foram criados pela emoção, pelos significados e pelas ações. Esse desenvolver-se propiciado pelo estado da meditação é o propósito da prática de Yoga. Uma vez que nós somos condicionados pela cultura e pelo ambiente no qual vivemos, pelo corpo, pela forma de respirar. Portanto, incluímos, na prática de Yoga, cuidados com o relacionamento social, com a saúde, com o nosso próprio comportamento, de tal modo que: tanto a vida social, como o nosso corpo e a nossa mente, nada disso atrapalhe esse des-envolvimento.

Dessa forma, podemos manter a nossa mente serena, como a superfície de um lago, capaz de refletir a inteligência primordial, à qual não temos acesso (...conscientemente...).

Thadeu Martins

O eu que lembra

Todos nós temos uma pré-disposição ao aprendizado e à medida que vamos convivendo com os outros, com o mundo, essa pré-disposição vai se concretizando e nos tornamos aquilo que somos.

Esse processo de aprendizado humano vai se dando com o registro de memória. Não sabemos ao certo como o registro ocorre, nem como se recupera esse registro. O fato é que a memória vai se estabelecendo. A manifestação dessa memória é justamente o grande desafio de controle. Em várias tradições, como em Yoga, trabalha-se o isolamento dessas reminiscências que conseguimos perceber para olharmos com distanciamento as lembranças, compreendê-las e tentarmos incorporá-las ou neutralizá-las.

O propósito em Yoga é a criação de um novo condicionamento em relação a essas reminiscências, quando elas aparecem. Basicamente é um exercício de apaziguamento, de distanciamento, em que observamos o pensamento e a emoção. Nesse exercício, nós nos perguntamos: por que isso está surgindo? Alguma compreensão acabará surgindo. Vamos então convivendo com a compreensão da resposta à pergunta para abrir mão e, assim, prosseguir.

O que se observa, tanto na compreensão milenar do Yoga, quanto em tradições mais recentes, como a psicologia, é que esse exercício faz com que consigamos superar, sublimar e até anular essas reminiscências, que são muito fortes. Além do exercício de meditação, que leva a essa capacidade de nos observarmos, há recursos do tipo lápis e papel na mão.

A sugestão é a seguinte: durante a meditação, ao observar o fluxo dos pensamentos e quando surgir um pensamento com o qual você tenha interesse em lidar, tente compreendê-lo, perceba qual é a emoção, veja quando surge novamente. Então, anote no papel, descreva o pensamento e as emoções envolvidas. A idéia é aumentar o distanciamento em relação a esses sentimentos e a compreensão intelectual deles. Depois de escrever, rasgue e jogue fora o papel. O fato de saber de antemão que a anotação será destruída já o libera de uma crítica, que estaria presente pela ameaça disso ser revelado, pois é algo que só diz respeito a você. Esse é um método bastante eficiente.

Ao refletir sobre o pensamento e as emoções em questão, você pode também se perguntar sobre a seguinte dicotomia: a situação exige ação ou perdão? Se há alguma ação que se justifica a ser realizada, você registra: há algo a ser feito em relação a essa situação. Caso não haja nada mais a ser feito, você também registra: nada mais há a fazer, só o perdão.

Esse exercício nos permite o distanciamento, porque na situação de conflito, por exemplo, ficamos envolvidos pelas circunstâncias. Passado o momento, é que temos a facilidade de racionalizar. Olhando com distanciamento podemos até rir daquela situação.

Assim, vamos nos habituando a ficarmos tranqüilos diante dos pensamentos, da realidade e das emoções para podermos lidar com os fatos, da forma menos deturpada possível pela herança de memórias, de experiências, pela fantasia que criamos na nossa relação com a realidade.

Thadeu Martins