sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Distanciamento para “cair em si”

Nos últimos encontros, temos conversado sobre algo essencial na prática de Yoga: a compreensão de que cada um de nós é real, o mundo é real, mas as relações que estabelecemos com os outros e com o mundo é ilusória. Não é ilusória no sentido de que não exista, mas porque essa relação é intermediada pelos sentimentos e pelos significados que nós percebemos ou atribuímos a nós, aos outros e à realidade.

É como se cada um de nós, no lidar consigo próprio, com os outros e com o mundo, fosse criando um videogame. Vivemos uma realidade aproximada. Cada um de nós percebe a realidade de forma diferente e essas percepções são aproximadamente parecidas, não são rigorosamente iguais. É esse perceber de modo diferente que torna esta vida diversificada. A questão-chave é a importância que nós damos às coisas. A partir da importância que damos a um determinado fato, haverá níveis diferentes de envolvimento emocional. Ou seja, cada um de nós é afetado pela sua própria percepção da realidade.

O que importa é o que percebemos, o que sentimos quando vivenciamos os nossos papéis sociais. E o que vivenciamos é intermediado, o tempo todo, pelos sentimentos e pelos significados. Então, é preciso manter o foco nos significados e sentimentos. Podemos nos perguntar: será que essa situação exige um sentimento tão profundo? Muitas vezes nós supervalorizamos uma situação que nem merece tanto. Daí a expressão: “fulano está fora de si”. Que “si” é esse? Deve ser alguém muito anterior dentro de nós, que não se abalaria diante dessas situações factuais que não são tão importantes assim.

Como podemos então continuar em nós mesmos e, ao mesmo tempo, vivenciarmos a realidade? É uma grande mudança. Como toda grande mudança, temos dificuldade em realizá-la se não tivermos método, propósito, ajuda ou fé. Na prática de Yoga, há um estímulo para que tenhamos essa compreensão, de que tudo é real, mas a relação entre nós e tudo é ilusória e de que existe um “si” interior que pode não se abalar diante dessa interação com a realidade. Assim, é sugerido que seja praticado com freqüência, de modo a se tornar um hábito, o distanciamento para observar a realidade.

Nós vivenciamos o cotidiano, atribuímos significados aos fatos e às coisas com os quais convivemos. Mas, assim que a situação se dá, vamos refletir um pouco sobre essa situação; vamos nos habituando a cair em nós mesmos, vamos nos distanciando dos significados, dos sentimentos que atribuímos às coisas ou aos fatos.

A idéia, que está no pano de fundo, é que podemos promover mudanças paulatinamente, pois é complicado mudarmos bruscamente. É preciso a formação de um hábito diário. Assim vamos criando um novo condicionamento, que vai nos ajudar a descondicionar o achar que todas as interações que temos com a realidade são a coisa mais importante no mundo. Elas são relativas. Podemos perceber a relatividade delas se pararmos um pouco para nos afastarmos da situação e olhá-la com outros olhos, que são do “si”, do eu interior, daquele que vê sem a intermediação dos sentimentos, das emoções e dos significados.

Esse eu interior é muito citado no Yoga Sutra do sábio Patanjali. É o Ser, a alma, Purusha, Atman. É o eu primordial, inabalável, que antecede o eu sujeito das ações no cotidiano. Então, quando cultivamos a prática de meditação, a tranqüilidade, o relaxamento, quando olhamos as coisas e fatos esvaziando-os de significados e emoções, nós nos aproximamos do eu interior. Claro que vamos deixar o eu das ações prosseguir agindo, pois afinal vivemos nesta realidade para realizar.

Além do eu primordial e do eu das ações, temos o eu dos significados e o eu das emoções. Esses dois últimos fazem a intermediação entre os dois primeiros “eus”. O eu das emoções é aquele que leva susto, que sente as coisas; o eu dos significados é o que racionaliza, que entende as coisas.

Mas o que isso tem a ver com os exercícios de Hatha Yoga que nós praticamos? Originalmente, os exercícios indicados por Patanjali buscavam, além da compreensão do comportamento, uma postura firme e confortável que possibilitasse atenção com a energia vital, com a consciência. Para isso, era preciso concentrar-se na respiração, pois esta segue o ritmo de nossa energia. Ele também propunha os exercícios de meditação. As posturas, associadas à atenção com a respiração, acabaram originando dezenas de exercícios.

Durante um determinado período de tempo, a vida das pessoas era de tal modo exigente de atividades que ninguém tinha vida sedentária. O corpo não era objeto de atenção. Foi então ocorrendo uma mudança cultural, em que o corpo passou a ser visto como ou um aliado ou um sabotador desse propósito de estar atento. Quando ficou evidente que o corpo poderia ser uma fonte de enorme dificuldade de ficarmos atentos à vida, passou-se a dar ênfase à saúde do corpo. A saúde corporal passa então a ser vista como um meio para se poder estar atento à vida. Afinal, é com o nosso corpo que temos a possibilidade da experiência física.

Assim, os exercícios basicamente trabalham com quatro atitudes: (1) o sentido de ordem, de dever em relação à vida no mundo com os outros, propiciado pelas posições meditativas; (2) a tomada da consciência na realidade, que o nosso corpo propicia quando fazemos os alongamentos verticais ou laterais, quando percebemos nossos limites, quando aguçamos a consciência interior, a partir de exercícios respiratórios (Pranayamas) e meditativos; (3) a entrega, o desapego, que nos permitem o distanciamento da realidade, associados ao movimento respiratório de expirar e de se entregar (por exemplo na posição do Yoga Mudrá), em que abrimos mão do controle e “deixamos a vida rolar”; e (4) a autoconfiança, que se dá com o atendimento das outras três. Realizado o ordenamento, a compreensão e o desapego, vamos nos sentir autoconfiantes. A confiança é cultivada pelos exercícios em que se arqueiam as costas (para trás).

À medida que exercitamos o corpo, permitindo que todos os nossos sentidos participem dessas quatro atitudes, vamos para a nossa memória profunda, descondicionando e recondicionando, no sentido de reforçar a autoconfiança, o desapego, a compreensão e o ordenamento na realidade.

Os exercícios passam a ganhar maior importância nesse contexto. Eles não são um fim em si mesmos. O propósito é viver com a compreensão de estar em si, de lidar com a realidade, sabendo que é real, mas que a nossa compreensão é ilusória, pois está misturada com os sentimentos e os significados que atribuímos a tudo. Assim, vamos cultivando essas pré-condições, de modo que nos sintamos confiantes diante da vida, desapegados, com capacidade de compreender o que nos cerca, para podermos nos distanciar ou nos aproximar, conforme as circunstâncias e, ao mesmo tempo, com capacidade de viver esta ordem (da natureza da vida).

Thadeu Martins