sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Yoga e a “vidagame”

Ao longo das nossas conversas, temos chamado atenção para o fato de que tudo aquilo que percebemos e vivenciamos está sempre filtrado por muitas lentes, pelo sistema nosso, físico, que tem o papel de traduzir e reunir percepções. Essas se transformam em significados e emoções que passamos a chamar de realidade.

Mas a nossa realidade é um videogame constante, em que ficamos, o tempo todo, no jogo da percepção e da realidade. No fundo, nós lidamos mesmo é com as nossas percepções, não com a realidade. O que sabemos da realidade é o que nos chega pela percepção, pelo nosso videogame. Isso faz a vida ficar muito interessante, até porque cada um tem o seu próprio videogame. Os nossos videogames têm muito em comum. Nós vamos compartilhando as nossas compreensões conforme a época em que vivemos.

Aí, vem algo essencial, para o qual o hinduísmo e outras tradições filosóficas chamam a atenção: o viver dá muitas oportunidades para o sofrimento, porque o tempo todo nós vivemos emoções associadas aos significados daquilo com o que estamos nos relacionando. Esses significados provocam emoções e essas podem ser muito desagradáveis. O ser humano tem uma forte tendência a dar mais importância ao que é desagradável.

Todos nós temos geneticamente a pré-disposição de dar mais atenção às notícias ruins. A marca do ser humano é essa propensão ao sofrimento. Por isso, Patanjali e outros sábios nos orientam a prestar atenção às nossas movimentações mentais para que, no momento em que nos enveredarmos pelo caminho da notícia ruim, possamos interromper esse processo autodestrutivo.

Este é um objetivo da prática de Yoga: termos o domínio dos nossos pensamentos; porque a mente é apenas uma das nossas manifestações. As primeiras são Purusha e Prakriti, alma e matéria; ambas formam a consciência. Depois vêm a percepção das emoções e a percepção dos significados (Budhi). Em seguida, vêm as três qualidades da matéria: a dureza, a leveza e o movimento, que transforma a matéria em leveza e vice-versa. Somente depois desses é que vem a percepção dos sentidos. Se nos deixarmos, sem consciência, levar pelos sentidos, a tendência será de ficarmos presos às percepções dos sentidos.

Como geneticamente fomos preparados para lidar com mais atenção com tudo o que é negativo e ameaçador, facilmente entramos no caminho da negatividade. É freqüente nos lembramos de fatos ou sensações ruins. Patanjali dá a dica: quando você perceber que está indo nesse caminho dos sentimentos ruins, imediatamente mude o videogame, saia da cena que está lhe fazendo sofrer e vá para outra, na qual você se sinta mais leve e melhor.

Claro, essa mudança não é fácil, pois estamos acostumados com o jogo do sofrimento. Nós nos habituamos a jogá-lo. Mas basta começar um outro jogo, para propiciar a mudança positiva. A vida nos dá uma vantagem: a nossa flexibilidade emocional. Conseguimos passar, num estalar de dedos, do choro para o riso. É até surpreendente!

A principal dica, então, é estarmos conscientes dos nossos pensamentos. Se você estiver convencido(a) de que vive um videogame, que a sua relação com a realidade está sempre marcada pelo jeito como você a encara, tudo muda. Você passa a ter a escolha de se apegar ou não à desgraçeira.

Nós somos seres afetivos. Na hora em que ocorre a tragédia, nós vamos nos envolver e sofrer, vamos vivenciar com profundidade. Depois que a emoção se resolve, o momento também passa. Tudo passa e essa é uma grande vantagem! Já que passa, não há por que ficar esticando o sofrimento, ficar trazendo do passado as sensações negativas, uma vez que os fatos que as provocaram não existem mais. As fatalidades havidas são fatos passados (pois!).

Então, nós vivenciamos o momento, deixamo-nos passar pela emoção até que essa passe. Seguimos em frente. Se a situação ficar voltando, saia dessa sintonia. Avalie a situação, anote as providências que devem ser tomadas para que não fiquem voltando, ou determine-se a perdoar e siga adiante.

Mantenha-se no domínio da situação, com distanciamento para olhar a realidade com outras emoções, mais positivas para a vida, e poder perceber a beleza de privilégio que é viver.

Thadeu Martins

domingo, 16 de dezembro de 2007

Com olhos de ver

A prática de Yoga é bastante intensa, pois despertamos a nossa atenção para focalizar no fenômeno da consciência. Isso cria uma mobilização diferente da habitual, na medida em que desde pequenos somos levados à produção. É claro que, antes do estímulo social, temos muitas experiências emotivas, pois recebemos grande atenção dos adultos. Há duas alimentações muito fortes de início: afetiva e de comida mesmo. Há também um grande estímulo primeiro para que nós correspondamos ao afeto e ao alimento. E após um certo tempo, somos cobrados para nos comportar conforme os adultos gostariam. Até chegar o momento em que somos cobrados a produzir. Vai havendo uma pressão enorme nesse sentido.

Assim, somos levados por essa corrente, esse fluxo. Isso, para cada um de nós, passa a ser a vida. Quando começamos a conversar sobre prestar atenção nos nossos limites, em nós mesmos, em perceber nossos sentimentos e evitar a ação, há um choque inicial. Como assim não agir, se fomos educados desde crianças a agir? Mas vamos aos poucos percebendo que isso faz sentido. A partir daí, as coisas começam a ser percebidas de um modo diferente. À medida que vamos nos habituando com essas diferenças, começamos a perceber muitas coisas que antes não percebíamos. Começamos a nos sintonizar para muitas coisas que antes passavam despercebidas. Aí, começamos a perceber desdobramentos que vão além do físico.

Ao ampliarmos a nossa capacidade intuitiva, começamos a sentir e a perceber coisas que são diferentes. Em Yoga, além de trabalharmos a mente, em perceber o que está além do corpo de comida, também mexemos nesse corpo, em memórias musculares ancestrais. O nosso comportamento também é memorizado. Rigorosamente, tudo é o mesmo corpo físico. Esse é um ponto muito importante. A Física Quântica, que estuda o fenômeno da não-localidade, demonstra que não é necessária a causalidade; a conexão não se dá apenas entre matéria e matéria. Já na época de Einstein, era aceito que partículas extraordinariamente distanciadas estavam conectadas a ponto de interferirem mutuamente em suas polarizações, mesmo não havendo aparente conexão física nenhuma entre essas partículas.

Na compreensão hinduísta, todos nós somos Prakriti. Então, há uma conexão física permanente. Além de sermos Prakriti, também somos Purusha (uma alma). Quando dizemos Namastê para outra pessoa, é a mesma divindade, uma saudando a outra. Para nós é muitas vezes difícil essa compreensão, pois temos uma educação prática da vida, que é muito útil para os nossos referenciais e limites, mas que não percebe essa sutileza.

Patanjali, no terceiro capítulo do Yoga Sutra, fala dos poderes (siddhis). Ele afirma que se nós desenvolvermos a nossa mente, a ponto de focalizar a nossa atenção totalmente em algo, acabamos percebendo a essência desse algo. Essa essência não é dada pela aparência visual. Vamos penetrar e ter acesso a algo muito diferente daquilo que está demonstrado.

Quando aguçamos a nossa percepção, começamos a perceber muito mais do que percebíamos antes. Imagine expandir a sua capacidade olfativa, tátil, visual, perceptiva de modo geral. Imagine ainda a conexão dos seus sentidos se expandindo. Nós estamos falando de pelo menos cinco possibilidades, cinco campos de existência, de manifestação da vida, que são: matéria, sentimento/emoção, conhecimento, pré-conhecimento e a divindade.

O que Patanjali orienta é o seguinte: aprofunde-se, mas se mantenha íntegro, caso contrário pode ficar encantado com essa novidade de ter os sentidos apurados. O cuidado é para evitar a dispersão.

A dica é praticar Yoga com atenção. Medite antes de dormir e na hora em que acorda. Esses são momentos especiais. Mantenha a atenção nos seus sentimentos, projete pensamentos positivos, tente fazer o seu dia ficar maravilhoso antes mesmo de surgir, crie positividade. A idéia maior é abrir-se para a vida e ser feliz.

Thadeu Martins