terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Memória e estresse

No nosso cotidiano, vamos disfarçando o estresse, porque somos muito educados socialmente. Mas o estresse continua, numa camada muito profunda. Nós trazemos o acúmulo de estresse desde a infância e mesmo de períodos anteriores, da era das cavernas. Quando à noite ficamos acordados, resolvendo os problemas do mundo, o que fazemos é reavivar memórias muito antigas, cuja mensagem para o nosso corpo é de ameaça. Diante das ameaças, o nosso organismo se estressa, é levado a limites para os quais teria que tomar uma atitude e agir.

Se ficarmos acordados à noite, assistindo pela TV às desgraças do dia, nosso corpo é levado a reagir. Mas nós não saímos para combater os incêndios do mundo. Em vez disso, vamos para cama, depois de nos submetermos a todas as mensagens de ação. O resultado é que não conseguimos dormir, pois a mensagem acumulada, há milhares de anos de existência, é que temos que agir diante das situações de ameaça (ou pelo menos ficar bem preocupados).

Ao longo do dia, podemos passar por várias situações desse tipo. Somos ou nos percebemos ameaçados, mas a condição educacional que temos – que é um privilégio, pois nos permite conviver socialmente – cobra de nós um preço alto, que são os acúmulos internos de tensão, com os quais de algum modo vamos ter que lidar. A dica é trabalharmos essa emoção, perceber que situações são essas, que chamam a nossa atenção profunda de forma tão exigente, para passarmos a evitar esses tipos de situação no cotidiano. Assim, não nos sentiremos tão ameaçados, estressados.

Na compreensão da prática de Yoga, o sábio Patanjali afirma que o nosso modo de ser, a nossa memória, tem um processo muito prático de se constituir. Temos alguma ação ou reação que provocam um resultado. Este é percebido, compreendido e traduzido num significado, com uma emoção associada, que fica registrada na memória e vira registro. No cotidiano, acontecem as manifestações involuntárias das memórias. Os hinduístas dão o nome para essas manifestações da memória de Sanskaras. Vêm então os pensamentos e nós tomamos decisões, em função de uma memória que ressurgiu. A ação provoca um resultado e novamente vivenciamos o resultado, com significado e emoção, e registramos uma nova memória. Então, esse processo não tem fim, é permanente.

O processo de formação de memória se dá nestas quatro etapas: ação, resultado, percepção do resultado e memória. E assim prossegue o tempo todo. Então, nós temos esses impulsos, memórias recorrentes: estímulos que brotam sem sabermos bem por quê. De repente, começam a vir lembranças de algo, e em função disso somos envolvidos por essa lembrança, positiva ou negativa e, daí a pouco, ficamos eufóricos ou raivosos, sem nem saber bem por quê. A origem foi alguma coisa ou fato que nem existe mais, cujo registro é da memória de alguns anos passados; ou quem sabe até uma memória ancestral, que nem nos pertence verdadeiramente, mas que vem porque está no nosso repositório inicial, no banco de dados que herdamos de nossos ancestrais.

Ao praticarmos Yoga, uma das intenções é deixar tudo passar como é. Evitamos julgar ou analisar os pensamentos, imagens ou sensações que passam. Assim vamos nos habituando a desligar o formador de memórias e a não darmos muita atenção às reminiscências que a memória fica mandando. Para resumir Yoga numa frase bem simples: é a cessação das manifestações da mente; essas manifestações que não têm uma conexão direta com a realidade presente. Claro que quando estamos lidando com a realidade objetiva, não faz sentido ignorarmos a nossa mente. Mas se não estamos nessa situação, tudo o mais que brota na mente é reminiscência, não tem nada a ver com o presente; ou é projeção de futuro ou é passado.

Então, praticar Yoga é lidarmos com a realidade estando aqui, em vez de não estar nem aí, perdidos nas armadilhas das memórias mal resolvidas. A memória talvez seja a mais difícil de lidar, dentre as manifestações da mente, que deveríamos controlar na prática de Yoga e da vida. Ela talvez seja a fonte mais abundante das cinco causas principais para o sofrimento mental: a ignorância, o egotismo exagerado, a aversão ao que não gostamos, o apego ao prazer e o medo da morte. Esses fatores poderiam ser reduzidos, se ficássemos mais atentos com a formação e o tratamento das nossas memórias de vida, as quais se associam ao estresse.

Mas, enquanto a gente ainda vai engatinhando no lidar com a memória, que tal programar a televisão para gravar o seu noticiário noturno, e se habituar a dormir mais cedo e em paz? Essa seria uma das várias pequenas mudanças possíveis que diminuiriam a exposição a situações estressantes. Experimente fazer uma listinha dessas possíveis melhorias na sua vida. Escolha algumas das mais fáceis para começar novos hábitos favoráveis a você.

Thadeu Martins

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Yoga no café da manhã

Nós somos muito educados socialmente, para respeitarmos as regras e podermos conviver de forma pacífica. Mas justamente por sermos muito educados, criamos camadas de estresse, de tensão, que nem percebemos. Quando chegamos ao ponto de ter consciência que o estresse aconteceu, ele já criou situações muito negativas para nós, como dores e doenças que surgem como conseqüência de algo que já está no nosso íntimo.

Mas, se ao deitar ou acordar, lembrarmos de alguns dos exercícios de alongamento – como movimentar vagarosamente a cabeça em várias direções –, já teremos a oportunidade de soltar a região da musculatura que mais guarda tensões durante o dia. Do mesmo modo, podemos andar ao banheiro prestando atenção aos nossos movimentos, colocando primeiro os calcanhares no chão e sentindo a planta do pé, até o dedão, pisando corretamente, para aumentarmos a nossa consciência corporal .

No banho, podemos aproveitar para massagear, com movimentos circulares, as articulações e, com descida e subida, as partes longilíneas das pernas e dos braços, vindo das extremidades na direção do coração. Assim, trabalhamos a nossa circulação e orientamos o nosso sistema muscular.

Depois do banho, é um bom momento para fazermos o exercício de Saudação ao Sol, que serve para alongar as costas e aumentar o fluxo de sangue na cabeça e no rosto. Ao escovar os dentes, podemos fazer posturas verticais, colocando os pés bem paralelos, flexionando um pouco as pernas. Essa é uma forma de irmos praticando alguns exercícios, antes que o dia exija demais de nós.

O momento matinal é a hora de nos ligarmos ao nosso corpo. Vamos chamando atenção para nós mesmos. De uma forma simples, exercitamos a presença, a autenticidade, para sermos quem somos antes que o mundo exterior solicite a nossa atuação social.

Há quem prefira exercitar-se à noite, ao voltar do trabalho. O cuidado é para não forçar demais a musculatura nem tracionar os tendões, pois à noite ficamos mais flexíveis, e há o perigo de exagerar nos alongamentos e movimentos. No período noturno, é preferível fazer exercícios mais meditativos e evitar grandes esforços e alongamentos. O exercício surte efeito com o tempo, com a habitualidade, com a repetição cotidiana. Assim, o efeito é cumulativo e gradual, sem exageros. Vamos aos poucos, aumentando a percepção da nossa presença.

Yoga trata basicamente disso, de ser autêntico, ter uma vida plena, integral, feliz, capaz de estabelecer prioridades para lidar com os inúmeros problemas que sempre irão surgir.

É bom lembrar que, em Yoga, os exercícios são alegorias; servem para treinarmos atitudes, para com isso percebermos como o nosso corpo participa dessas atitudes. Basicamente são quatro atitudes: perceber o contexto, meditar, entregar-se e cultivar a autoconfiança.

Fazer Yoga é estar atento a si mesmo e ao contexto. A segunda atitude diz respeito ao saber onde estamos. Na atitude meditativa, levamos a atenção para dentro de nós, abrindo mão do mundo social; vamos ao limiar do espaço-tempo, no qual surgem os “insights” e temos acesso a respostas que estão no inconsciente coletivo. A atitude da entrega, do desapego, da aceitação, é o contrário do esforço. Em Yoga, não nos esforçamos; percebemos o limite e o aceitamos. Já a atitude de autoconfiança está associada aos exercícios em que abrimos os braços, inflamos os pulmões e envergamos o corpo para trás.

Então, durante os exercícios de Yoga, o mais importante é nos concentrarmos nas atitudes, no que estamos fazendo, deixando que o organismo vá só até aonde pode ir.

Thadeu Martins

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Yogue-se

Yoga é uma estratégia de vida. Por isso, praticar Yoga só tem sentido se fizermos com habitualidade, de preferência todos os dias. Os exercícios são alegorias, artifícios para criarmos uma disciplina.

É um bom hábito, por exemplo, aproveitarmos a hora do banho para praticarmos os exercícios de Yoga. Vamos nos alongando, praticando o que é possível fazer. Escovar os dentes é uma ótima oportunidade para praticar as posturas verticais, perceber as musculaturas, encaixar o abdômen, alinhar-se. Já é o início.

No trabalho, alinhe a coluna vertebral ao sentar-se, mantendo-se sobre os ossos ísquios (aqueles internos às nádegas), para criar uma situação de estabilidade. Respire com a musculatura abdominal expandindo o diafragma, deixando o ar entrar nos pulmões; apóie os cotovelos e os antebraços nos braços da cadeira, sentando-se o mais confortável possível. De vez em quando, alongue o punho e os dedos, levante-se e ande, vá beber um pouco de água. Pisque bastante enquanto lê ou escreve. O ideal é alternar, de vez em quando, o olhar para longe, uma paisagem ou mesmo um espelho. Coloque as mãos em concha sobre os olhos, para relaxar a musculatura ocular.

Antes de dormir, acrescente também a prática de meditação. Feche os olhos e fique ouvindo os sons à sua volta, evitando julgar ou analisar o que está ouvindo. Assim, você vai acentuando o seu sentido de direção e equilíbrio. Perceba a sua respiração tranqüila e vá prosseguindo, lembrando ou criando situações agradáveis em sua mente. Uma das formas de meditar é cultivar um estado positivo da mente; com isso, neutralizamos uma certa tendência à negatividade que desenvolvemos em situações sociais.

Enfim, vá inserindo, ao longo do dia, oportunidades de praticar Yoga, de se sentir presente, consciente. Vá praticando a capacidade de desapego do mundo social, que é uma das atitudes que se estimula em Yoga, e deixe o mundo prosseguir sem a sua interferência pessoal (pelo menos por algum tempo).

Na compreensão do Yoga, viver é incluir quatro atitudes básicas. A primeira é dispor-se a compreender o “Dharma”, a ordem, como as coisas acontecem, onde estamos. Essa ordem pode ser tão macro quanto a ordem universal, ou tão micro quanto a situação objetiva na qual estivermos inseridos num determinado momento.

A segunda atitude está associada ao posicionamento, à tomada de consciência, de perceber onde estamos nessa ordem (Dharma). Em determinadas situações, estamos em tal posição que não dá para nos desapegarmos de nada. Tendo em vista o todo e a posição de cada um nesse todo, é que passamos ao segundo estágio de compreensão, que não é apenas a compreensão do Logos – pelo estudo, pela pergunta e pela resposta – mas passa para Phisis – em que cada um de nós e o todo nos tornamos uma coisa só. É o estágio meditativo, sem dualidade.

A terceira atitude é render-se à realidade, fazer aquilo que é adequado àquela realidade; perceber que não somos onipotentes, embora sejamos capazes de fazer algo. Ficamos atentos e percebemos a ordem, nós nos posicionamos nessa ordem e nos entregamos ao que é possível, adequado. Com isso, vamos desenvolvendo a condição da quarta atitude, que é a autoconfiança, aquela que nos permite ser o que somos em qualquer situação.

Thadeu Martins

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mestres de nós mesmos

O Yoga Sutra de Patanjali, em seus 195 verbetes, faz uma verdadeira síntese de algo que já vinha sendo construído há pelo menos uns quatro mil anos antes dele. A cultura hinduísta surge praticamente junto com a descoberta da agricultura, há pelo menos dez mil anos a.C. Os registros dessa cultura vieram sendo transmitidos oralmente, em formato poético, como o foram os ensinamentos de Yoga e vários outros, pois assim eram mais facilmente decorados e passados para as pessoas. Seu idioma, o Sânscrito, é visto como origem de muitos dos idiomas conhecidos.

As escolas hinduístas do pensamento são surpreendentes. Produziram uma concepção ampla do que é a vida e o universo, integrados ao cotidiano, à produção social: agricultura, comércio, relações políticas, etc. Todo esse conhecimento foi transmitido em versos, até tornarem-se textos de formatos atuais. O maior poema escrito em todos os tempos é o Mahabharata (a grande Índia), com uns cem mil versos! Nele há um capítulo chamado “O canto do ser divino”, o Bhagavad Gita, uma história muito ilustrativa dos conflitos do ser humano diante da vida. Chama atenção para estarmos presentes e assumirmos mesmo a nossa vida.

O sábio Patanjali surge numa data indeterminada (entre os séc. V a.C. e V d.C.). Ele é o responsável por sintetizar todo esse conhecimento e colocá-lo de uma maneira didática. O Yoga Sutra (cordão do Yoga) inclui até um código de comportamento. Fundamentalmente, fala de atitudes que reforçamos em nós mesmos para conduzirmos a nossa vida de modo que seja bom para nós e para os outros. Também dá as dicas para lidarmos com aqueles momentos em que nos fazemos perguntas essenciais, do tipo “o que estou fazendo aqui?”, "para que eu nasci?”.

Patanjali reforça que cada um de nós tem todo o instrumental, todas as condições para perceber as respostas aos nossos questionamentos mais profundos. Claro que podemos conversar e pedir ajuda a amigos e especialistas, afinal, nós interagimos o tempo todo. E é bom que seja assim, pois, na maior parte das vezes, é por meio do outro que cada um de nós passa a se conhecer. A presença do outro é fundamental. Mas temos, dentro de nós, todas as respostas que precisamos. Elas surgirão na medida em que as busquemos.

Para encontrá-las, vale tudo: conversar, meditar, ler, etc. Patanjali sugere a prática da humildade, do bom humor e do esforço orientado. A humildade é essencial para percebermos que todo mundo pode ser um grande mestre para nós. Todas as pessoas têm muito a ensinar, a explicar e a dizer, desde que tenhamos a disposição de percebê-las como mestres. Se estivermos dispostos a aprender e perseverarmos nisso, faremos com que a nossa vida seja uma contínua oportunidade de desenvolvimento.

A maior fonte de prazer do ser humano é a curiosidade. A descoberta de algo, no mínimo de uma nova possibilidade, é o que nos encanta. Então, quando nos entregamos e nos aprofundamos no estudo, na descoberta, já estamos cultivando essa característica da felicidade humana tão preciosa que é a satisfação da curiosidade. Como o brotar de desejos é infindável, podemos criar uma espécie de "moto contínuo" de autêntica felicidade. O melhor é que nem precisamos comprar isso em lugar nenhum, pois já está disponível em cada um de nós. Custa só um pouco mais caro que sorrir à toa.

Thadeu Martins

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No caminho de Samadhi

Em Yoga, há uma ênfase de caráter social, em que desenvolvemos um comportamento tão tranqüilo que conseguimos diminuir bastante as perturbações que o mundo social traz ou que levamos para ele. Ficamos em paz com as pessoas e elas em paz conosco.

O sábio Patanjali, sistematizador do Yoga, afirma que o início do caminho em Yoga se faz com atitudes e ações correspondentes a um código de comportamento social, que prossegue no modo como lidamos com nosso próprio corpo, nossa mente e nosso espírito. Assim, fazemos um reforço: o corpo e a mente, por meio das atitudes e dos exercícios, vão estabelecendo um comportamento de liberdade (Moksha). Estimulamos e preservamos a liberdade nos outros e em nós mesmos.

Os exercícios são chamados de ásanas, posturas (que dão firmeza, estabilidade e conforto) e pranayamas, exercícios respiratórios, de controle da energia. Como a nossa atividade está diretamente associada ao nosso ritmo de respiração, o controle desta traz o controle da energia.

O caminho do Yoga passa, então, pelo comportamento - controles e estímulos - e pelos exercícios - posturas e respiração. Além desses, há outros quatro passos, mais voltados para o nosso interior. O primeiro é o exercício em que dirigimos os sentidos para dentro de nós mesmos. Esse é um dos principais exercícios para recuperarmos o nosso ritmo natural e para o nosso organismo se libertar dos condicionamentos negativos que cada um de nós cria (ninguém está isento disso). É o que os hinduístas chamam de Pratyahara.

Nesse exercício, cobrimos superficialmente os lábios, as narinas, os cílios (cuidado para não machucar os olhos), tampamos os ouvidos e tentamos ouvir o nosso som interior. O objetivo é permitir que o organismo se recupere no seu próprio ritmo, independentemente dos condicionamentos mentais, que até então lhe ficamos impondo.

Os outros três passos formam um conjunto destacado: a meditação. Na compreensão hinduísta, sistematizada na escola do Yoga, a meditação é constituída de três estágios. O primeiro deles é o de concentração (Dharana), em que nos concentramos num objeto ou numa idéia ou num ponto dentro de nós ou na graça divina. No segundo estágio, quando essa concentração é continuada e já não fazemos esforço, atingimos a contemplação (Dhiana). Essa palavra, inclusive, é mais adequada quando nos referimos à meditação, no sentido que se dá em Yoga. A contemplação é um estado de concentração sem esforço; o observador e o objeto começam a ficar em tal harmonia que de repente acontece o terceiro estágio, em que não há mais separação entre ambos. Dá-se, então, um estado de transe, de superação da dualidade, chamado de Samadhi. É uma meta para todo praticante de Yoga.

Então, em Yoga, buscamos desenvolver a habilidade de cultivo da liberdade (Moksha) de tal forma que socialmente sejamos bem aceitos, possamos lidar bem com os outros, estar em paz com o nosso próprio corpo – cuidamos dele de modo a que seja um aliado e não um atrapalhador, que está sempre pedindo atenção exagerada – e no qual nos permitimos ir além da dualidade das coisas, das relações de identificação.

Viver nesse estado zen, de Samadhi, é o ideal de quem pratica Yoga. Claro, não se chega lá de uma hora para outra. Vamos praticando, fazendo tudo com entusiasmo, com respeito a nós mesmos e ao que estamos fazendo, percebendo o caminho de cultivo, de aperfeiçoamento.

Sinteticamente, Patanjali chama atenção para comportamentos social e individual adequados e entusiasmo em tudo o que fazemos, com conforto e respiração.

Essa é a prática de Yoga, que vai muito além de uma coleção de exercícios. O que mais importa é a atitude, a habitualidade, a intenção do que fazemos com a nossa vida.

Thadeu Martins

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Livre para ser

Uma das palavras mais importantes, na escola Yoga, é Moksha, que significa literalmente libertação, mas num sentido bastante amplo. Talvez o principal foco dessa liberdade seja percebermos o quanto podemos nos desapegar de amarras, convenções, complicações, que não são tão importantes assim, mas que se transformam numa rede que nos prende.

A primeira percepção dessa liberdade é diferenciar aquilo que é mutável e aquilo que é permanente na nossa vida. As circunstâncias em que vivemos, mesmo alguns valores, vão mudando ao longo da nossa existência, enquanto mantemos a mesma identidade e compreensão de nós mesmos como uma mesma pessoa. Além das convenções sociais, também vamos percebendo que a nossa compreensão da vida é dada por uma certa construção mental, que fazemos e que está associada também à nossa formação. Esse modelo mental muda o significado da realidade, a nossa própria apreensão da realidade.

Tudo o que percebemos como realidade é absolutamente mutável. Então, não haveria por que nos apegarmos com tanta intensidade, se tudo é passageiro. Perceber essas nossas amarras talvez seja o principal foco do conceito de Moksha. É a libertação, liberação deste mundo ilusório, ao qual na maior parte das vezes estamos demasiadamente apegados, mas que é apenas uma forma de percepção, mesmo que compartilhada por muitas pessoas.

Essa compreensão de liberdade, na prática de Yoga, é bastante radical, porque vai se contrapor à origem das noções, muito arraigadas em nós, do que é real, concreto, permanente. Mas, se por um lado a filosofia Yoga faz essa contestação radical, por outro ela nos oferece uma compreensão prática de como lidar com a realidade percebida.

Ela propõe que cada um de nós adote limites e assim os perceba. Esses limites, obviamente, restringirão nossos movimentos, mas liberdade, em Yoga, não significa falta de comprometimento em relação a tudo. Os limites que são sugeridos, pela compreensão do Yoga, têm o objetivo de nos ajudar a lidar com a ilusão social. Na verdade, são bem menos limites e bem mais orientadores para lidar com o mundo fantasioso, de tal modo que não sejamos atrapalhados pelas armadilhas de comportamentos socialmente negativos, e possamos ter condições mais favoráveis de cultivar a nossa liberdade e bem-estar.

Patanjali, o guru histórico das escolas de Yoga, enfatiza um código básico de comportamento, conjuntos de restrições e de estímulos. São cinco restrições e cinco estímulos de direcionamento da liberdade. O sentido não é de proibição, mas de atenção e controle. Em Yoga, a sugestão é que, conscientes do nosso movimento, das nossas potencialidades, da nossa liberdade, possamos controlar punções, impulsos, movimentos para os quais, socialmente, somos empurrados e aos quais vale à pena dar atenção para não ofender os outros e nós mesmos.

As restrições básicas em Yoga são as seguintes: controle/atenção à ofensa (violência), à mentira, ao roubo, à prática exagerada do sexo (que anula o “ser”) e o respeito às condições objetivas dos outros (cobiça ou inveja).
Essas restrições têm por propósito o cultivo da liberdade. Importante frisar que não se trata de “pecados”, crimes ou punições. Trata-se de temas sociais que afetam a todos nós, humanos. Em nossa formação, temos inúmeras ocasiões de lidar com esses cinco aspectos da vida social, e elas poderiam se dar de modo tranqüilo.

Se por um lado em Yoga, há um foco no controle, por outro há os estímulos, que, no ambiente social, aparecem de forma meio velada; percebemos pelos exemplos de pessoas próximas (pai, tio, professor, amigo etc), mas nem sempre são estimulados explicitamente.

Tais estímulos também são cinco: pureza, contentamento, esforço (perseverança), estudo (hermenêutico e auto-estudo) e aceitação do princípio divino da vida. Esses cinco estímulos nos levam a um comportamento positivo. Como os sistemas sociais de controle são muito presentes, em geral, talvez seja mais efetivo cultivarmos com ênfase os cinco estímulos, pois assim, não daremos muita oportunidade para situações em que os controles tenham que ser exercidos.

Uma pessoa que segue esses estímulos, que vive desse modo, provavelmente vai se envolver muito pouco em situações que lhe exijam o exercício de controles. Não estamos falando de um comportamento ingênuo, bobinho, de não ver o que existe de esquisito na vida, no mundo. Ao contrário, só somos capazes de cultivar a alegria porque percebemos a tristeza, de estudarmos porque percebemos a ignorância, e assim por diante.

Esses, digamos, “10 mandamentos”, são lembranças, pontos de atenção que formam uma base simples, mas muito densa, para a prática da liberdade (Moksha), que em Yoga tanto cultivamos.

Podemos dizer que Yoga é Moksha, libertação – e não “salvação”. Em Yoga, não faz sentido “salvar” alguém, não se trata de um resgate! Trata-se de um modo preventivo de viver bem, e não de livrar alguém de culpas ou pecados já cometidos.

Em Yoga, como na natureza, não há pecado nem perdão. Moksha é o comportamento de escolha de atitudes e conseqüências que evitam o aprisionamento cultural, que nos ameaça, a cada vez, em que nos permitimos ou nos submetemos, de um modo aparentemente natural, a maltratarmos os outros e a nós mesmos, mesmo que a pretexto de sermos incluídos e podermos continuar vivendo na sociedade.

Thadeu Martins

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Palestra: liderança essencial

O tema que será tratado hoje é o modo como nós exercemos algum papel de liderança (seja em casa, na família, no trabalho, ou até conosco mesmos, quando estamos sozinhos ou acompanhados). Nós podemos olhar para certas questões relacionadas ao exercício da liderança e criar um modo de pensar que esteja presente durante o trabalho de planejamento que se vai fazer.







terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sintonize em Samadhi e curta até insônia

Nós tomamos decisões emocionalmente. Fazendo um paralelo com o Yoga, grande parte da prática yogue está focalizada nas emoções. Já que somos tão emocionais, é interessante haver um método que focalize as emoções de modo bastante atento, criando pré-condições ou condições para que cada um de nós vivencie as suas emoções, ao mesmo tempo em que se habitue a distanciar-se delas.

Isso é fundamental para não ficarmos o tempo todo sintonizados numa só “freqüência emocional”, como quando ouvimos um mantra. Aliás, o mantra tem o efeito inverso: esvazia as emoções. Nós nos colocamos numa única freqüência e vamos nos desligando de quaisquer emoções que possam ficar brotando.

Na época em que o sábio Patanjali escreveu o Yoga Sutra, e antes mesmo dele, com os recursos de compreensão da mente que se tinha até então, já se falava que toda ação implica um resultado que cada um de nós percebe. Ao percebermos o resultado, nós reagimos, pois atribuímos ao resultado um significado, que por sua vez também está associado a uma emoção. Nós seguimos agindo, provocando, percebendo e memorizando os resultados. Esse ciclo vai se repetindo numa freqüência extraordinária ao longo de nossa vida.

Patanjali afirma que algumas dessas lembranças afloram em forma de pensamentos ou como algo, que nem pensamento é, e que essas manifestações provocam em nós ações. Então, vamos criando um verdadeiro filme na mente, em que uma lembrança vai puxando outra e mais outra. Daí a pouco, estamos resolvendo problemas que ainda nem aconteceram, mas que criamos nesse filme que projetamos. Isso acontece o dia todo. Nas mais diversas situações, somos tomados por essas reminiscências e embarcamos nelas. Há pessoas que sofrem muito com isso, pois as lembranças as mobilizam de uma forma negativa; elas entram num surto depressivo, em que ficam com mania de perseguição, pois tudo lembra uma situação em que foram perseguidas, oprimidas, e a emoção vem à tona.

Num momento de crise, nossa tendência sempre é voltar para um terreno seguro. Vamos até certo ponto e, quando nos sentimos ameaçados, recuamos para as lembranças de segurança. No cotidiano, nós vivemos fazendo isso. Cada vez que aparece uma grande novidade, nós reagimos. Nós somos assim, trazemos em nós esse comportamento que vem desde a era das cavernas, ou antes. O comportamento defensivo é algo natural em nós. Mas o que pode tornar-se desgastante no cotidiano é nos deixarmos perder por esses fluxos de reminiscências, de pensamentos e ficarmos remoendo. Este é o perigo: desperdiça a vida e nos deixa doentes.

A dica de Patanjali é a seguinte: sempre que um desses pensamentos quiser nos pegar, nós até podemos curti-lo um pouco, para não ficar negando o sofrimento, mas antes que ele se torne uma complicação exagerada, o melhor a fazer é mudar de estação. Imediatamente, lembre-se de algo positivo, entre numa sintonia mais leve, agradável (pegue uma revista de fotografias bonitas, de piadas, cante uma canção amorosa). Assim, será possível analisar com distanciamento o problema: é algo para se trabalhar ou é apenas uma dispersão? Se for algo que já foi superado, o melhor é sair da sintonia.

Patanjali enfatiza que um dos caminhos para se meditar, para se entrar no estado mental que os indianos chamam de Samadhi, que é um estado de não-identificação, é cultivar lembranças agradáveis, pensamentos positivos, ficar em paz. Então, antes de dormir, em vez de assistir ao noticiário, cultive o bom astral e crie um clima agradável. Entregue-se, relaxe, ouça uma música suave, feche os olhos e apenas aproveite. Se barulhos aparecerem, incorpore-os aos outros sons ambientes, sinta a que distância eles estão de você, sem se preocupar em julgá-los. Você já estará num estado próximo ao Samadhi, principalmente se você se mantiver consciente. Os yogues acreditam que melhor do que dormir profundamente é dormir profundamente de modo consciente. Eis um grande desafio, saber que está sonhando e monitorar os sonhos, como se estivesse dentro de um cinema. Para conseguir esse estado, diga antes de deitar-se, ou enquanto vai relaxando os músculos do seu corpo, respirando numa cadência tranqüila: “vou ficar consciente durante o meu sonho”. E vá praticando todas as noites; é uma boa forma de ir fazendo Yoga.

Um segredo é usar a capacidade imaginativa para criar situações positivas. Lembre-se que qualquer emoção que temos é reforçada, de modo físico, pelo nosso cérebro. O hipotálamo cria neuropeptídeos, que são energia em forma eletroquímica e que são disparados para todo o organismo, reforçando a emoção na qual estamos envolvidos. Todas as células de nosso corpo são atingidas pelos neuropeptídeos. Assim, de modo inconsciente, nós reforçamos as emoções negativas, como fazíamos antes de sermos racionais, há milhares de anos. Mas, com a evolução humana (lembra do homo sapiens?), formamos um cérebro intelectual, que se acrescentou ao antigo cérebro réptil - onde o hipotálamo reforça as emoções. Isso nos permite sair das armadilhas. Para tanto, valem todos os artifícios, principalmente o bom humor, que é um poderoso antídoto para curar os problemas no cotidiano.

Podemos mudar a programação do hipotálamo, trocar de sintonia. Um problema como a insônia passa a ser uma oportunidade de ficar consciente e relaxar os músculos, para observar o fluir dos pensamentos, ou das imagens positivas que se podem inventar ou recuperar. Daí vira uma curtição e prosseguimos, num estado de absoluta paz, até o dia amanhecer.
Thadeu Martins

terça-feira, 24 de junho de 2008

Viva a sua plenitude

Meditar é concentrar-se em algo até sair do estado de concentração para entrar no estado de contemplação. Nós nos mantemos fixados em algo e daí a pouco, naturalmente, nos esquecemos que estamos fixados naquilo e prosseguimos contemplando.

No estado de contemplação, permanecemos atentos, mas não mais “tensos”, concentrados. O próximo passo, então, é distanciar-se da identificação que surgiu entre nós e o objeto da concentração anterior. Como isso se dá mesmo, ninguém sabe ao certo.

A experiência que vem a seguir da contemplação, o Samadhi, é individual. Cada um vai experimentar de uma forma diferente. Mas todos os relatos apenas dizem que, de repente, vai-se. Alguns passam longo tempo meditando, contemplando, sem que nada ocorra. Até que um dia, de repente, acontece. Com a prática, sentado ou deitado, vai ficando cada vez mais fácil. De início, pode ser melhor meditar deitado, para não sentir desconforto físico.

Depois de relaxarmos, nos concentrarmos, deixarmos os pensamentos, imagens e sensações passarem, chegamos a um estado no qual ficamos abertos a experiências extra-sensoriais, fora da dimensão espaço-tempo. Mas o sábio Patanjali chama atenção, no Yoga Sutra, para não nos encantarmos, nem tentarmos operacionalizar essa experiência, que parece meio mágica. O que ele sugere é que cada um de nós se entregue, consolide as suas experiências, para perceber qual é o seu propósito, o seu caminho; que cada um se entregue às suas experiências meditativas com habitualidade, deixando brotar respostas para as silenciosas perguntas que estão dentro de nós, as quais as palavras não ajudam a dizer.

Então, começaremos a ver o mundo de forma bem diferente. Começará a fazer sentido o que dizem os hinduístas: que a vida é muito mais do que se apresenta; que vivemos relações convencionais; que não é preciso sofrer nem se empolgar tanto. Com essa compreensão, a vida passa a ser muito mais tranqüila. Os aborrecimentos passam a ser vistos como algo insignificante, perto do que a vida é. Passamos a lidar melhor com o cotidiano, e vamos ficando cada vez mais disponíveis para ver a essência das coisas, dos relacionamentos, da realidade.

Um modo de começar a praticar poderia ser o que os yoguis chamam de Yoga Nidrá, a prática do sono/sonho dos yoguis, quando, na hora de dormir, se faz um relaxamento profundo e se tem experiências oníricas, conscientes. Durante o relaxamento, ficamos mentalizando o desejo de ficarmos conscientes durante o sono que virá. Desse modo, quando permanecermos presentes em nossos sonhos, ficaremos nos observando “em ação”, e já estaremos praticando uma forma bem efetiva de meditação.

Esse hábito vai-se consolidando, e vamos incorporando à vida, do mundo material, a dimensão onírica, que é tão ou mais interessante que o videogame ao qual estamos acostumados. Será a continuidade que nos vai possibilitar o aperfeiçoamento. À medida que formos praticando e compreendendo as nossas experiências, estaremos cultivando um estado mais amplo de consciência, aprendendo a lidar mais tranqüilamente com o cotidiano e experimentando um viver cada vez mais próximo da plenitude.

Thadeu Martins

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Viagem ao centro de si

Os estilos de meditação em Yoga são basicamente dois: Samprajanata Samadhi, aquele em que a identificação está presente, em que procuramos compreender algo com o que nos identificamos; e o Asamprajanata Samadhi, aquele em que não há identificação alguma.

No primeiro tipo, nós estabelecemos uma identificação de tal ordem que chegamos a criar um vínculo com o objeto. No segundo, não há um foco, não há substância, não há nem um objeto totalmente abstrato.

As pessoas que sentem necessidade de meditar sobre algo concreto, podem criar alguns mecanismos, como fazer registros, anotar ou mesmo modelar o objeto. São artifícios cognitivos de identificação. Assim poderá ser mais fácil compreender a identificação com o objeto da atenção.

Pode-se, então, deixar os pensamentos fluírem; não qualquer pensamento, mas sim aqueles que se relacionam com o objeto escolhido. Um pensamento vai puxando o outro, com o foco em uma determinada situação, evitando-se a dispersão.

Podemos meditar de forma despretensiosa, como um exercício para sair um pouco das pressões sociais; ou de forma densa, meditando sobre a compreensão da vida, do modo de ser, dos padrões individuais e sobre as relações sociais.

Também é possível meditar sem concretude. Os objetos, nesse caso, podem ser imagens, conceitos ou emoções - qualquer uma que se queira: injustiça, indignação, alegria, êxtase ou variações entre esses pólos.

Pode-se criar uma materialização para ajudar, com desenhos ou mini-esculturas, aquelas com massinhas ou miolo de pão, por exemplo, para perceber melhor os sentimentos recorrentes e fazer referências a eles: quando esses sentimentos aparecem? Com quem eles brotam? Com que propósito? Como lidar com eles? Se há um padrão, fica mais fácil identificar-se, porque é o padrão de cada um. Nesses modos, o meditante poderá utilizar recursos de anotação, para facilitar o seu exercício. Afinal, nem só sentado ou deitado se medita.

Até agora falamos do primeiro movimento, que é a identificação. Escolhemos, decidimos, criamos os nossos artifícios, do mais concreto até o mais sutil. Nós nos transformamos no objeto em questão, reconhecemos dentro de nós aquilo que representamos, o sentimento do ser.

Aí vem o outro movimento, o contraponto, a essência da meditação, aquilo que faz acontecer o Samadhi, a partir do desapego da identificação. É a plena meditação, que ultrapassa a concentração e a contemplação, e que é de total não-ação. O objeto e o observador se fundem. Primeiro nos identificamos com o objeto, que é usado como apoio, e depois nos abstraímos completamente dele.

Quando há o apoio de um objeto concreto ou sutil, é o caso do Samprajanata Samadhi; se a meditação é de não-ação completa, nem identificação há, trata-se do Asamprajanata Samadhi.

No primeiro, o pensamento está presente, focalizamos a atenção, verificamos nossa identificação com o foco da atenção, para em seguida abrirmos mão da identificação e nos permitirmos ficar num estado contemplativo, de não-ação, de liberdade em relação àquela identificação percebida. A sensação de liberdade se expande em nós, mesmo que sua origem tenha sido um objeto determinado.

No segundo, em geral mais raro, mais “avançado”, o estado de não-ação é obtido, alcançado, acontece, sem o artifício direcionador do pensamento dirigido a um alvo. Os místicos, os de muita fé, os simples e sábios o realizam pela cessação da atividade mental, intelectual, cognitiva. Eles se colocam, cada um ao seu estilo, em um estado de consciência plena, e distantes de toda apelação existencial, provavelmente experimentam uma extraordinária e indescritível liberdade. Talvez, o silêncio primordial.

Thadeu Martins

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Testemunhas de nossa atenção e respiração

Em Yoga Clássico, os exercícios físicos só fazem sentido se nos estimularem a praticar algumas atitudes de vida. O exercício é muito bom sob vários aspectos, mas será ainda melhor se, ao fazermos, nos concentrarmos na atitude que este propicia.

São quatro as atitudes que cultivamos em Yoga: desapego, autoconfiança, tomada de posição e tomada de consciência.

Cada atitude está associada a um tipo de movimento. Por exemplo, a atitude de desapego, de entrega, está associada aos exercícios em que nos curvamos para frente. Já quando nos curvamos para trás, abrimos o peito, cultivamos a autoconfiança. Nas posições, em que nos colocamos aprumados na vertical, estimulamos a atitude de tomada de posição, percebendo tudo o que está à nossa volta, a ordem na qual estamos inseridos (e verificar se não estamos sendo alguém estranho no ninho).

A tomada de consciência está relacionada às posições que propiciam a meditação, a contemplação; ficamos muito mais focados na não-ação, quando não precisamos agir. Percebemos que quem de fato vê e percebe é alguém muito anterior em nós. É o ser consciente que nos constitui de origem, embora nos dispersemos dele cada vez que assumimos uma personalidade, uma máscara ou personagem, para atuarmos num contexto circunstancial qualquer.

Então, essas quatro atitudes é que são o foco de exercício da prática de Yoga. Fazemos isso de corpo presente, plenamente, com toda a nossa consciência.

Nas várias posições (ásanas), nós nos concentramos na respiração: quando nos alongamos, na vertical, vamos inspirando e voltamos expirando; quando nos curvamos para a frente, vamos expirando e voltamos inspirando. O foco na respiração facilita a concentração na atitude correspondente ao exercício.

Quando respiramos, nos sincronizamos com o principal ritmo da nossa vida. O ritmo da nossa energia, da nossa atividade, é o ritmo da nossa respiração. Daí a importância de respirar bem, profundamente. Ao nos concentrarmos na nossa respiração, deixamos de dar atenção exagerada ao mundo exterior e nos voltamos para nós mesmos, para o nosso processo consciente mais vital.
Em Yoga e em várias tradições, energia e respiração são absolutamente associadas, há uma congruência entre as duas. Vamos respirando conforme o ritmo da nossa atividade e a principal ênfase é em deixar o ar fluir. Não há preocupação em respirar muito, até porque é mais funcional expirar do que inspirar. O ar entra, o difícil é sair. O ideal é caprichar em expirar, encolhendo o abdômen; e para inspirar, basta liberá-lo.

Vamos percebendo a nossa respiração de acordo com o que estamos fazendo, de modo a nos sentirmos bem. Quanto mais profunda, silenciosa e contínua for a nossa respiração, melhor.

Ao prestarmos atenção na inspiração e na expiração, conseguimos ficar em dois lugares ao mesmo tempo. No que estamos fazendo, e em nós mesmos. Seremos testemunhas de nossa atitude e do que estamos fazendo. Essa é a situação ideal, porque estaremos em plena consciência; tão conscientes que seremos capazes de perceber o ritmo da nossa respiração. A nossa tranqüilidade será muito maior. Haverá plenitude. Passamos a lidar com as situações das mais desafiadoras de um modo extraordinário: ao mesmo tempo com proximidade e distanciamento.
Thadeu Martins

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Atitudes fazem a diferença

Na prática de Yoga, você deverá ficar bem consigo mesmo. Ao se sentir bem, completo, você terá algo de bom para dar, que é o seu bom astral. Quando em Yoga se diz que uma pessoa está iluminada, significa que ela está nesse estado de espírito, de completude.

Os exercícios de Yoga têm o propósito de levar a esse estado de felicidade. E tudo começa com as nossas atitudes diante da realidade, do mundo social. Basicamente, são quatro as atitudes. Em primeiro lugar, devemos saber onde estamos, ter um sentido de orientação, de ordenamento. Procuramos perceber onde estamos para nos posicionarmos. Essa atitude está associada a todos os exercícios em que nos alongamos na vertical ou deitados; nós alinhamos a coluna vertebral, os ossos.

A segunda atitude é a de tomada de consciência. Está associada aos exercícios preparatórios para a meditação, em que nos voltamos para dentro de nós mesmos, tomamos consciência da unidade que somos, cultivamos essa compreensão interior.

A terceira é a atitude de desapego (abrir mão de algo). Essa é das mais difíceis, até em termos físicos (do próprio corpo). Em cada movimento, usamos, no mínimo, dois conjuntos de músculos: aqueles que provocam o movimento e os que se antepõem. Por exemplo, quando levamos o corpo para frente, os músculos dianteiros puxam o corpo para nos flexionarmos, e os músculos das costas fazem um esforço de compensação. A musculatura vai cedendo, à medida que deixamos o corpo ir. Não será numa vez só, que fizermos os exercícios, que a musculatura vai-se alongar, mas sim, por se praticar algumas vezes, com paciência, e durante “a vida toda”. A cada vez que fizermos, a musculatura irá adequar-se um pouco mais às nossas intenções de flexibilidade e tonicidade. Se o praticante agir com desapego ao rápido resultado, e entregar-se para aceitar os seus limites momentâneos, o seu corpo terá oportunidade de perceber a mudança de atitude para colaborar em sua realização.

Em Yoga, o cuidado é sempre no sentido de evitar o exagero (que podem levar a lesões). Nós já temos a musculatura adequada para o que precisamos, que é carregar o nosso próprio peso. Então, com essa atitude, buscamos soltar tudo o que não precisamos reter. No caso do nosso corpo, são principalmente as costas e toda a musculatura posterior que se habituaram a contrair-se demais.

A quarta atitude é de autoconfiança, algo que devemos praticar na vida social para poder lidar com a rejeição e a realização do que se precisa fazer. Para isso, precisamos ainda mais estar bem conosco mesmo. Os movimentos de autoconfiança são aqueles em que abrimos o peito. Nas posturas de autoconfiança, alongamos a musculatura frontal ou nos envergamos para trás.

São essas as quatro atitudes que, de fato, devemos fazer presentes nos exercícios. Yoga não é coreografia ou dança. O que fazemos nos exercícios, que até podem parecer coreografias para quem está vendo de fora, é praticarmos diferentes atitudes, que podem fazer toda a diferença na nossa vida.

Thadeu Martins

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Yoga em síntese

Yoga, basicamente, é uma das linhas filosóficas hinduístas, sendo que as principais são seis. Essas escolas remontam há milhares de anos e propõem a compreensão da vida de um modo que permanece contemporâneo. Elas espalharam-se pela Índia inteira e fora dela; são bastante parecidas entre si e com o Budismo também (este constitui uma escola não-ortodoxa do Hinduísmo). São mais complementares que antagônicas. Assim como o Budismo, o Yoga, acabou chegando ao Ocidente, mas sem conotação religiosa.

A maneira prática como a tradição hinduísta espalhou-se é muito semelhante à da literatura de cordel. Surgiram e espalharam-se textos cantados e recitados, que iam sendo incorporados às regiões que alcançavam. O principal texto-poema indiano é o Mahabharata (incluindo o famoso Bhagavad Gita, que aqui ganhou música de Raul Seixas e Paulo Coelho).

O principal texto sobre Yoga é o Yoga Sutra (pequenos textos em cordão), escrito pelo lendário sábio Patanjali (no período entre 500 A.C. e 300 D.C.), que reúne apenas 195 versos. Esses versos, ou sutras, estabelecem um roteiro filosófico, que é um modo de viver e de orientar a vida. Essa estratégia de vida tem a seguinte síntese: acalme, domine os seus pensamentos, apazigúe as variações da sua mente e esteja presente.

À medida que ficamos conscientes do que pensamos, que nos mantemos presentes o tempo todo, testemunhas de nós mesmos, enquanto fazemos algo, deixamos de ser apenas a pessoa que faz e passamos a ser também a pessoa que não faz, mas observa, e observa principalmente essa pessoa que faz. Isso ajuda muito.

Patanjali inicia o Yoga Sutra definindo Yoga como a cessação dos turbilhões da mente. Ele praticamente desenvolveu os fundamentos da psicologia, dois mil anos antes de Freud, ao propor as bases da compreensão da mente: como a mente funciona, como podemos interagir com ela e como podemos fazer com que ela seja uma aliada e não um fator de perturbação e ansiedade. O que Patanjali propõe é o viver para a felicidade. Na seqüência, ele nos chama a atenção de estarmos no mundo real. Embora tenhamos um mundo interior muito rico de possibilidades, temos de desenvolver a habilidade de lidarmos simultaneamente com o mundo social e exterior a nós.

Segundo o pensamento hinduísta, nós já surgimos como uma unidade, somos todos uma unidade. Neste mundo material, temos a oportunidade da experiência individualizada, em que ganhamos um nome. Essa variedade de experiências nós as vivenciamos porque abrimos mão da unidade e passamos a viver a dualidade: a unidade em confronto com outras percepções da mesma unidade. Daí surge o mundo social, que é superinteressante por ser propiciador de experiências.

Portanto, na compreensão hinduísta, o sentido da vida é viver por viver. Vivendo, por conseqüência, temos a oportunidade da experiência e da realização da consciência.

Rigorosamente, nós somos unidade. Nós nos materializarmos neste modo em que aqui estamos e podemos viver o mundo dual, no qual a nossa cultura se especializou. Embora a filosofia hinduísta parta desse princípio da unidade, ela de imediato chama atenção para a realidade dual, na qual as aparências se antepõem. Surge então uma complexidade social extraordinária, a ponto de a unidade parecer perder-se. Daí a necessidade de recuperação do sentido da unidade. É como se o viver fosse um pêndulo, em que vamos ora num sentido, ora noutro. Assim vamos percebendo que podemos, simultaneamente, vivenciar a unidade e a multiplicidade.

Aí vem a questão cultural. Desde pequenos, vamos sendo educados, pressionados, estimulados a nos relacionar com os outros. Isso vai ficando cada vez mais acentuado a ponto de nos especializarmos no mundo social. Pode acontecer de essa dimensão social ser tão entusiasmante que não realizamos o sentido da unidade em uma única vida; a nossa consciência pode perder-se nos muitos apelos do mundo social. Na filosofia hinduísta, não há nenhum problema em se perder, pois nela morremos e nascemos de novo, e aí começa tudo outra vez...

Um propósito de viver, portanto, é também o de se libertar dessas múltiplas experiências recursivas. Todas as escolas filosóficas hinduístas afirmam que essa multiplicidade é uma ilusão. Tudo o que está à nossa frente é uma ilusão, uma convenção; nós aprendemos a ver a vida do jeito que vemos. Mas, na realidade, nós vivemos videogames, que são orientados pelo tipo de formação, de referencial, de modelos explicativos que nós tivemos e adotamos.

Ora, à medida que escolhemos os nossos modelos explicativos e percebemos que tudo aquilo que vivenciamos é interpretado por nós segundo esses modelos, tudo pode ficar diferente, pois nós podemos optar por experimentar outros modelos ou abrir mão dos modelos e nos entregarmos à realidade. Nessa entrega, surge a diferença filosófica entre Oriente e Ocidente, logos versus phisis, processo analítico versus processo integrativo da realidade. No segundo caso, temos a percepção direta da realidade como unidade, sem modelo explicativo algum. O fato é, porém, que tanto podemos estar na ilusão desses modelos, quanto na ilusão da percepção direta sem auxílio algum. E então temos um desafio que persiste para os filósofos de todas as tradições.

Não por acaso, a palavra que os indianos mais prezam é liberdade, Moksha. Mas que liberdade é essa? Não é nenhuma liberdade “sem limites”, mas sim de podermos escolher o nosso modelo explicativo, ou ter acesso direto à realidade, ou ainda ver por dentro como a vida é. Segundo os hinduístas, a grande liberdade é a libertação da ignorância de não saber que nós experimentamos o mundo por meio de modelos explicativos; a maior ignorância é esquecer que originalmente nós somos uma unidade, que não temos carência alguma do ponto de vista essencial. As carências que surgem são decorrentes da interação social, que cria uma realidade adicional e que se superpõe à unidade essencial.

Uma das grandes sabedorias dos hinduístas é estimular a realização dessa liberdade maravilhosa que é perceber a unidade divina que constitui cada um de nós, e agir em conformidade com essa compreensão.

Thadeu Martins

terça-feira, 22 de abril de 2008

Universo de possibilidades

O Yoga e outras filosofias, bem como as ciências, de modo geral, oferecem modelos explicativos da realidade. O compartilhamento desses modelos nos permitiu comunicar e assim evoluir como espécie. Os modelos serão tão bons quanto quisermos que sejam, conforme a capacidade de aplicação que tiverem.

A origem remota de quase todos esses modelos é muito semelhante. Eles surgem em uma época muito anterior à escrita, mas na qual as pessoas já conversavam. Das muitas observações que foram feitas por nossos ancestrais, a mais importante talvez tenha sido a que permitiu o surgimento da agricultura, há cerca de dez mil anos. Ela foi viabilizada porque se conseguiu determinar com precisão o movimento relativo do sol, por meio da marcação dos equinócios da primavera e do outono, bem como dos solstícios do inverno e do verão. A marcação era feita com pedras gigantescas, para ninguém as tirar do lugar. Ocorreu, assim, a primeira divisão do tempo nas estações de preparar a plantação, plantar, fazer o cultivo e realizar a colheita.

O céu passou a ser um verdadeiro quadro-negro, cheio de informações. Além do sol e da lua, que determinavam os ciclos do tempo, as estrelas também começaram a ser úteis para se determinar as principais direções. Começamos a fazer conexões de estações não só com o sol e a lua, mas também com as constelações. Fomos usando imagens que nos eram familiares para identificar o céu. Passamos a chamar grupos de estrelas de escorpião, touro, virgem, e assim por diante. Essas figuras foram sendo associadas aos ciclos do tempo.

De tanto observar os fenômenos agrícolas, fomos nomeando as constelações conforme a sua aparição no ciclo da agricultura. Assim, por exemplo, a colheita foi associada ao signo de Virgem; a semeadura, à previsão do local de plantação, foi relacionada a Capricórnio; a manutenção da colheita associou-se a Touro, que puxava o arado; e assim por diante. Não deve ter demorado muito para se associarem as características das atividades humanas nessas estações às pessoas que estivessem ligadas a elas. E assim fomos criando maneiras de explicar ou tentar compreender a realidade com a qual lidávamos.

O que nos interessa nessa história é o compartilhamento de experiências, que são objeto de conversas e registros, para que se tenha fácil acesso e recuperação. Além do céu, que todos vêem, sempre houve um ambiente no qual compartilhamos, registramos e acessamos experiências, até que elas se tornem cultura. Quanto mais grupos humanos distantes, mais variedade de formas de explicação, de registro, de modelos. Ao longo da história, os grupos vão-se aproximando e compartilhando possibilidades e estabelecimento de comunicação. Isso faz parte do nosso viver cultural.

No entanto, tudo parece diferente quando um modelo explicativo da realidade mostra as coisas de outra maneira. Por exemplo, se passarmos a perceber o ser humano como uma unidade divina, a nossa visão de mundo será muito diferente daquela que pressupõe uma separação entre um ser divino e um humano. A compreensão dependerá do modelo que escolhermos para direcionar a nossa visão da vida.

Entre as muitas possibilidades, o modelo filosófico hinduísta tem como conceito primordial a unidade de um princípio divino de inúmeras possibilidades de manifestação e também de não-manifestação. Dessa unidade decorre a dupla disposição de manifestar-se ou não. Surge toda uma cultura que incorpora o divino em si, em que o mundo da não-ação material e o mundo denso das ações têm a mesma legitimidade; são igualmente verdadeiros; vive-se em ambos os modos o tempo todo.

Tanto em um modelo como em outro, surgem mediadores para propiciar as relações entre o divino e o humano. No de separação, para intermediar as relações. No de unidade, para desenvolver as relações. Os resultados que se observam podem ser muito diferentes.

Mas, no modelo “ocidental”, no qual fomos criados, a atenção está mais voltada para que possamos lidar com a produção material e suas conseqüências nas relações sociais. Ele estabelece as relações que são exteriores a nós e que também nos afastam da nossa convivência interior. Mas a vida não é bem assim, pois o mundo que podemos vivenciar internamente tem uma realidade extraordinária. Para percebermos isso, temos que superar o envolvimento social, para deixarmos brotar o que está dentro de nós (des-envolver a alma).

Independentemente de qual seja o melhor modelo, o importante é que tenhamos clareza de que não estamos falando da realidade, mas sim de modelos explicativos da realidade. Conforme o modelo que adotarmos e praticarmos, a realidade pode se tornar muito diferente. O modelo do Yoga, que estamos aqui acrescentando, privilegia a divindade com a mesma intensidade com que se privilegia a matéria densa, percebe divindade em tudo. A premissa é a não-separação.

Se você, nos exercícios de total não-ação (meditativos, por exemplo), de alguma ação (respiratórios) ou de bastante ação (ásanas), em qualquer dessas situações, estiver ligado que você é um todo (divino e humano), a sua vida pode se tornar muito diferente... e talvez melhor.

Thadeu Martins

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Yogues urbanos

Hoje quero comentar um pouco o filme “Samsara”. Aliás, dá para conversar bastante sobre esse belo filme! Vou me concentrar no aspecto que considero essencial, que é o desafio de viver o nosso tempo. Os hinduístas sugerem que podemos desenvolver a sabedoria se passarmos por quatro estágios da vida: o tempo de estudante, o de realização material, o de retiro e o de retribuição com a sabedoria adquirida; se vivermos integralmente tudo isso, sem pular etapas. Vamos aprendendo com a própria experiência e, em algumas vezes, também aprendemos, antes de errar, por observar e aprender com os erros dos outros.

Nós todos somos deuses anônimos, todos temos esta realidade extraordinária que é a vida conosco e temos a oportunidade, se quisermos, de viver com essa intensidade entusiamada. No entanto, por mais “iluminado” que alguém possa ser, continuamos no mundo social e vivenciamos isso. A questão é o grau de importância que damos ao viver social na circunstância em que estamos. Esse é o ponto. Haverá circunstâncias em que daremos prioridade máxima a essa dimensão, mas haverá muitas outras em que teremos oportunidade de olhar a vida social com uma prioridade muito menor. Entre a muita ou nenhuma atenção, estaremos presentes. Cada um de nós é quem estará lá (na situação objetiva), e é isso que pode mudar tudo, quando se considera que é “você” quem dá prioridade, quem dá atenção, e não o seu personagem de plantão ou o que está envolvido na situação.

O desafio do yogue urbano, ao adotar o caminho filosófico dessa escola hinduísta, é conciliar o que o Yoga adiciona de compreensão da vida a toda uma cultura que já está impregnada em nós (que não crescemos na Índia). Haverá acréscimos e diferenças em algo muito forte, muito enraizado e estabelecido em comportamentos e atitudes habituais.

Não por acaso, acho muito melhor viver Yoga no Ocidente, ser um yogue urbano, do que praticar Yoga no Tibet, ou na Índia do citado “Samsara”. O filme acentua que os monges lá não têm muita escolha, já crescem num contexto que elimina inúmeras condições dos desafios de viver. E, volta e meia, as coisas se complicam mais do que se aprendeu no monastério. Creio, por um lado, que é muito mais desafiador ser um yogue em uma cidade normal, do que ser yogue em Rishikeshi (a “capital” do Yoga), por exemplo; por outro lado, as virtudes que se desenvolvem aqui poderão ficar mais consistentes, porque serão mais colocadas em teste.

Claro que aqui no Ocidente, para praticarmos Yoga, temos que fazer uma redução cultural muito grande. Há uma mudança de conceitos do que significa a vida. Portanto, vamos praticar Yoga com a nossa formação: cristã, espírita, umbandista, judaica, evangélica, e todas mais que fazem parte da nossa cultura. Vamos adaptar o hinduísmo à nossa compreensão, para fazer esse essencial que é a realização da consciência, estar presente, perceber-se, tornar a vida algo agradável, consciente, bonito, e feliz.

Curioso que, para os gregos antigos, a felicidade seria algo impossível, pois estaríamos sempre desejando algo que não temos (conforme Platão). Seria a contínua insatisfação, o reino infernal para o marketing eterno. Eles não sacaram que se pode desejar o que se tem, o que é real, o que está aqui e agora. No filme “Samsara”, e em seu contexto, um monge escreve para outro e pergunta: “entre satisfazer mil desejos e dominar apenas um, o que será mais importante?” Ora, jamais satisfaremos os infinitos e brotantes desejos. Viver inclui desejar. Não há nenhum problema em ser uma criatura desejante. Essa é uma condição essencial. Mas se vivemos como meros realizadores de desejos, operacionalizamos a consciência e perdemos essa pré-condição do ser.

O desejar não tem fim. Portanto, desenvolve-se a técnica do domínio de pelo menos um desejo, aquele que será a nossa fonte de segurança, a nossa afirmação da consciência. Vamos perceber os nossos desejos; nos entregaremos a alguns; seremos arrastados por outros; satisfaremos outros ainda e, ao mesmo tempo, estaremos praticando o domínio do desejo. É como se percebêssemos assim: estou desejando, e agora? Entrego-me ou não? Vou ou não vou? Decido! A partir daí entra a prática da vontade. Estaremos íntegros, atuando conscientes na vida.

Nosso tempo de vida nos oferece as circunstâncias de aprendizado, realização, desapego e aplicação da sabedoria. Já valeria viver só por isso, e seria um desperdício abandonar a consciência nos turbilhões dos desejos ou condená-la na negação deles. Cada circunstância, de cada estágio da vida (aprendizagem, experiência, renúncia e sabedoria), é determinada com a perspectiva pela qual participamos em nossa época e lugar,e vivenciamos nossos desejos e seus desafios de satisfação ou domínio. Tudo será passageiro, mas o percurso fará toda a diferença.

Thadeu Martins

quinta-feira, 13 de março de 2008

Emoções sem perder de vista

Hoje quero comentar um pouco sobre a questão da perda e do desapego na perspectiva do Yoga. Inicialmente, o que me ocorre é que quando vamos a um velório de alguém conhecido, em geral o que fazemos mesmo é tentar consolar os amigos. Esse exercício de apoiar o outro, de consolar, podemos trazer cada vez mais para perto de cada um de nós, até a situação em que o outro a apoiar é a própria pessoa.

No referencial do Yoga, temos a grande vantagem de podermos nos ver também como o outro, pois se acredita haver em tudo e todos uma dualidade básica: uma de natureza não-manifestada e outra que se manifesta. Essas duas entidades formam uma dualidade essencial: Purusha e Prákriti. Nessa concepção filosófica, o material e o não-material surgem simultaneamente, e embora não faça sentido uma separação, podemos vê-los como “um” e “outro”.

A primeira manifestação de Prákriti é a mental, o código. Nós surgimos a partir de uma definição codificada, o DNA, que dá a conformação que cada um de nós tem. Esse código é imaterial, está mais perto de Purusha do que de Prákriti – embora, no fundo, tudo seja uma coisa só.

Nessa seqüência do código mental, a primeira manifestação é de natureza intuitiva, Mahat; sente-se mesmo sem pensar. As reações intuitivas que temos são absolutamente emocionais, não passam por nenhum processo de racionalidade. Já a manifestação seguinte é intelectual, Budhi, e tem por base a racionalidade. A terceira manifestação mental é Ahankara, o ego. São os personagens que adotamos, que exercemos, o eu que atua. Esse eu é antecedido por dois condicionantes mentais: um de racionalidade e outro de intuição/emoção.

Quando observamos a nós mesmos, verificamos que assumimos vários personagens. Passamos a ser “outros”, mesmo que personagens de nós mesmos. Um dos propósitos da prática de Yoga e meditação é nos observarmos, nos aproximarmos do eu profundo que observa os vários “eus-personagens”.

Podemos aproveitar esse referencial para usarmos na alegoria, no caso, o velório de um amigo ou uma amiga. Todos que estão lá atuam tentando consolar outras pessoas. Há um ritual de apoio, de sustentação aos outros que ali ficaram, sentido a perda de alguém muito próximo. Nessa situação, atuamos também como um personagem: o eu que perdeu alguém. Podemos observar esse personagem, que somos nós e outro ao mesmo tempo. Assim fica mais fácil. É claro que esse outro vai se emocionar. A perda de alguém querido mexe com valores enraizados em nós. É uma dor muito forte, não há quem não se emocione. Não há como lidar com uma emoção muito grande, a não ser emocionando-se.

Mas, ao mesmo tempo em que vivenciamos essa forte emoção, somos obrigados a tomar várias decisões, a realizar várias ações de natureza prática e que nos serão cobradas. Dependendo de quanto conseguimos nos manter inteiros, vamos fazer essas ações. No mínimo, vamos ter que providenciar o ritual de despedida daquela pessoa. Enfim, vamos ter que dedicar energia a isso. Então, mesmo quando estamos tomados pela emoção de uma grande dor, temos que divergir dessa emoção concentrada para dedicarmos atenção aos outros personagens que nos são exigidos.

Somos vários personagens, que estão sempre lidando com aspectos diferentes da realidade, sob diferentes pontos de vista. Também somos o observador privilegiado, que está dentro de nós, que antecede a nossa racionalidade e a nossa emoção (o Purusha), e que é capaz de nos ver em cada um desses “eus” que assumimos em situações que nos exigem envolvimento e dedicação.

O que buscamos em Yoga é nos habituarmos a nos observar em ação, a perceber os vários personagens que assumimos no dia-a-dia. O olhar é de compreensão para nós mesmos, não de condenação, até para apoiarmos o eu que observamos, para deixarmos a emoção abrir espaço e assim sairmos de uma eventual sintonia negativa.

Este é um aspecto importante: precisamos ter cuidado para não deixarmos o eu entregue à própria sorte. A maneira mais fácil de abandonarmos o eu que está numa situação complicada é ficarmos totalmente dedicados a ele. Por exemplo, se nos deixarmos levar pela tristeza, acabamos por sucumbir, ficamos doentes. Aí vamos precisar da ajuda de alguém para sairmos dessa sintonia. O ser humano passa o dia inteiro sintonizando em várias situações. Isso acontece o tempo todo. A nossa emoção é distribuída nessas várias possibilidades que temos. Quando nos abandonamos, deixamos a nossa emoção concentrar-se em apenas uma determinada sintonia, e assim não conseguimos recuperar sozinhos o distanciamento, necessário para sair daquela sintonia emocional.

Quanto mais nos habituarmos a nos distanciar para nos observarmos, mais esse hábito vai se afirmar, mesmo nos momentos mais difíceis. Daí a importância da formação desse hábito. Só conseguimos tomar uma ação para sair de um estado emocional intenso se tivermos o hábito de nos observar. Até mesmo num estado alterado de consciência, esse hábito se afirmará.

No seu cotidiano, adquira esse hábito, porque até nas situações de perdas terríveis (inclusive de você mesmo!) será de grande valia. Medite um pouco todos os dias. Lembre-se do que você fez, do seu comportamento, das suas atitudes. Avalie-se nessas situações ocorridas. Habitue-se a rever o seu dia. Os seus encontros com outras pessoas. Você teria agido de modo diferente? Como você acha que as situações poderiam ter sido melhores, se você tivesse agido de outra maneira?

Existe dentro de você o ser inabalável, que é a sua essência divina. Você não precisa esperar uma grande perda para se colocar nesse ponto de vista. Você pode (talvez devesse) praticar todos os dias, olhar para o seu “eu circunstancial” com o propósito de ajudá-lo a lidar positivamente com as suas emoções e desapegar-se delas.

Thadeu Martins

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Graças ao eu!

Na concepção da escola hinduísta Sânkya, a vida se dá a partir de uma dualidade básica: matéria (Prakriti) e o referencial para o qual esta se manifesta (Purusha). Isso simplesmente surge, segundo o Sânkya. Não há, portanto, um princípio criador ou um tempo anterior a essa dualidade. Isso é o tempo em si.

Para o Sânkya, não existe um ser divino, criador de tudo. As coisas são e acontecem. Não há um propósito. Já no Yoga, que surge simultaneamente com o Sânkya, o sábio Patanjali acrescenta uma entidade: Ishvara, um ser especial que representa a divindade.

Há um exercício na prática de Yoga em que nos entregamos, nos desapegamos. É justamente o Ishvara Pranidhana, render-se ao ser divino, a Deus. Mas que Deus é esse Ishvara? É um ser que representa o máximo da perfeição, aquele que não se corrompe, não se deixa levar pelo mundo, que não se abala pelas emoções. É uma referência da divindade. Claro, portanto, que não há, em Yoga, qualquer restrição à prática religiosa ou à concepção que você tem ou quiser ter do que é divino. Vivencie a sua fé, a sua crença com toda a intensidade que ela merece.

Patanjali afirma que uma das melhores maneiras de se meditar é pela fé. Ele adotou todo o conhecimento filosófico do Sânkya e incorporou esta nossa natureza bem humana, que se relaciona, que estabelece relações de promessas e dívidas. Uma das maneiras de se meditar é rezar. Para quem rezar? Para quem você quiser; depende da sua convicção pessoal. Mas reze com fé!

Podemos depreender que a vida é algo divino. A vida é o máximo! Tudo é lucro. Talvez o sentido da vida seja perceber o valor de estar vivo e prosseguir vivendo. A vida é um processo bastante complexo, que funciona de modo extraordinário e que vai muito além do que conseguimos imaginar; nenhum de nós tem controle algum sobre ela, pois não controlamos nem o respectivo DNA, por exemplo. Temos é sorte (muita sorte) de poder vivenciar esta experiência.

Nós compreendemos a vida usando o instrumental que ganhamos, aprendemos e desenvolvemos. Cada um vai percebendo o valor da vida do seu próprio jeito, conforme a sua história pessoal. Alguns têm a sorte extraordinária de dispor de muitos recursos para perceber a beleza que a vida é e se entregar. Outros só aprenderam a sofrer. Infelizmente o ser humano tem uma grande tendência ao sofrimento.

Para algumas pessoas, o sofrimento decorre de um vazio existencial, mesmo quando elas dispõem de recursos de toda ordem. Para quem não está no lugar de quem sofre, fica fácil falar. Mas, já que estamos (neste momento) do lado de fora, podemos compreender melhor. A vida já é plena, mas provavelmente quem está sofrendo deve ter vivenciado uma confusão entre ter e ser.

Ter capacidade, ter bens, ter família, fazer coisas, isso tudo é conseqüência. O importante é viver. Do mesmo modo, sofre quem está o tempo todo em busca de alegrias, fugindo das tristezas, e não percebendo que essas emoções são passageiras. Nós viveremos melhor se percebermos os sentimentos negativos ou positivos e seguirmos adiante.

Por isso, em Yoga, praticamos a auto-observação, de modo que possamos nos ver enquanto estamos fazendo algo. Dessa forma, o viver passa a ser um estado permanente de testemunho e decisão: estamos o tempo todo observando a vida e a nós mesmos vivendo conforme as nossas decisões diante do que “vemos”.

O propósito em Yoga é nos aproximarmos, cada vez mais, do nosso eu interior de modo que possamos ver a vida como ela é para “ele” (o eu interior... talvez o Ishvara). Assim, as coisas perdem a importância exagerada que lhe atribuímos. O importante mesmo está lá dentro do que percebermos, observarmos. Assim, passamos a ter a consciência de que tudo é passageiro, mutável. Só o que não passa é esse nosso eu interior, esse ser especial, Ishvara.

Por isso saudamos uns aos outros dizendo Namastê: o eu que está aqui dentro cumprimenta o eu que está aí dentro, a divindade que há em mim saúda a divindade que há em você.

Somos todos iguais: divinos e eternos!


Thadeu Martins

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A vida como ela é

Segundo a filosofia Yoga, há cinco modificações da mente que devem ser controladas: o conhecimento correto, o conhecimento errado, a imaginação, o sonho/sono e a memória. O conhecimento correto é quando apreendemos a realidade do jeito que ela é. Isso se dá pela apreensão direta, pela dedução lógica ou pela transmissão por alguém que tenha autoridade. O conhecimento incorreto é quando tomamos o real por aquilo que não é. Ou seja, é o conhecimento cujo fundamento não é real.

A imaginação é aquilo que não tem sequer referência na realidade. Quando falamos em conhecimento, nos referimos à uma iniciativa de apreender algo. Na imaginação, não apreendemos nada. Nós “criamos” realidade e percepção. Nesse caso, não se trata de apreensão da realidade.

Quanto ao sonho (nidrá) em Yoga, há um estímulo para que esse não se torne dispersivo. Em Yoga, procuramos cultivar uma atitude de consciência mesmo durante o sono/sonho. Então, ao dormir, devemos ter a intenção de nos mantermos conscientes. A mente vai transitando do estado de agitação para um estado mais sereno. Vamos, assim, nos acalmando. Ficamos no limiar da vigília e do sono, acordados e dormindo. Com a prática, esse estado de transição começa a acontecer. Se permanecermos conscientes e começarmos uma viagem onírica, passamos a ter a sensação de estar em outras dimensões, fora do espaço-tempo. Com o hábito, isso passa a ser normal.

Os yoguis sugerem que isso seja praticado mesmo, para que nos mantenhamos nesse estado em que somos observadores. Não ficamos no sonho querendo atuar, apenas observamos. Nesse estado em que nos mantemos como observadores diante do mundo onírico, não há modificação da mente. Claro, como estamos conscientes, depois seremos capazes de verbalizar a experiência. Os lingüistas e os filósofos enfatizam que a palavra é o nosso veículo de humanidade, pois nos permite a compreensão e ter acesso ao “lago da memória”, que fica além da dimensão espaço-tempo e onde estão os significados, as emoções com significados que foram produzidos por todos que vivem, viveram ou ainda viverão.

Essa não-linearidade é difícil de compreender, pois fomos educados, desde pequenos, a perceber a realidade como seqüencial. Assimilamos isso como verdade tão absoluta que, no auge da física, na época de Isaac Newton, estabeleceu-se como lei a causalidade: uma coisa provoca outra. Nós acreditamos piamente nisso! Vivenciamos isso e nos surpreendemos profundamente cada vez que não acontece. Mas, rigorosamente, o nosso olhar funciona como a marca do Zorro, faz um “Z”. Temos acesso a um gigantesco volume de informações, mas o nosso cérebro só capta uma ínfima parte. Somos seres seletivos, ainda bem! Precisamos de limites, pois assim conseguimos nos livrar de muitas confusões. Então, fomos educados, por uma questão de eficiência humana, a colocar uma coisa depois da outra. Isso foi um recurso que adotamos, pois temos a tendência a fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Mas a localidade e a causalidade não têm tanto valor, em um novo referencial como o da Física Quântica, porque o que se acha que é causa não leva necessariamente ao que se acha que é um efeito. As “causas” e os “efeitos” se co-relacionam, mas um não implica o outro. Há vários exemplos disso, principalmente no que diz respeito ao raciocínio indutivo. A nossa percepção do mundo de forma seqüencial e hierarquizada é civilizatória, cultural, ela não é tão natural como nos habituamos a compreendê-la.

Por termos sido tão educados, nesse processo civilizatório de 200 mil anos, em vez de lidar com a realidade, lidamos com a nossa realidade. A nossa percepção da realidade é intermediada o tempo todo pelos nossos sentimentos e pelos significados que atribuímos à realidade e aos sentimentos. O real para cada um de nós não é o real propriamente dito, é aquele que cada um atribui com os seus valores, sentimentos e a cultura que nos antecedeu.

O desafio no caminho do Yoga é buscarmos nos reeducar na percepção da realidade, privilegiando a apreensão direta, a dedução, reconhecendo o conhecimento verdadeiro que alguém produziu para eliminarmos o que for possível dos nossos significados e emoções. Dessa forma, a realidade pode ser vista por nós de modo mais parecido com o que de fato é, em sua plenitude e multiplicidade.

Thadeu Martins