quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A vida como ela é

Segundo a filosofia Yoga, há cinco modificações da mente que devem ser controladas: o conhecimento correto, o conhecimento errado, a imaginação, o sonho/sono e a memória. O conhecimento correto é quando apreendemos a realidade do jeito que ela é. Isso se dá pela apreensão direta, pela dedução lógica ou pela transmissão por alguém que tenha autoridade. O conhecimento incorreto é quando tomamos o real por aquilo que não é. Ou seja, é o conhecimento cujo fundamento não é real.

A imaginação é aquilo que não tem sequer referência na realidade. Quando falamos em conhecimento, nos referimos à uma iniciativa de apreender algo. Na imaginação, não apreendemos nada. Nós “criamos” realidade e percepção. Nesse caso, não se trata de apreensão da realidade.

Quanto ao sonho (nidrá) em Yoga, há um estímulo para que esse não se torne dispersivo. Em Yoga, procuramos cultivar uma atitude de consciência mesmo durante o sono/sonho. Então, ao dormir, devemos ter a intenção de nos mantermos conscientes. A mente vai transitando do estado de agitação para um estado mais sereno. Vamos, assim, nos acalmando. Ficamos no limiar da vigília e do sono, acordados e dormindo. Com a prática, esse estado de transição começa a acontecer. Se permanecermos conscientes e começarmos uma viagem onírica, passamos a ter a sensação de estar em outras dimensões, fora do espaço-tempo. Com o hábito, isso passa a ser normal.

Os yoguis sugerem que isso seja praticado mesmo, para que nos mantenhamos nesse estado em que somos observadores. Não ficamos no sonho querendo atuar, apenas observamos. Nesse estado em que nos mantemos como observadores diante do mundo onírico, não há modificação da mente. Claro, como estamos conscientes, depois seremos capazes de verbalizar a experiência. Os lingüistas e os filósofos enfatizam que a palavra é o nosso veículo de humanidade, pois nos permite a compreensão e ter acesso ao “lago da memória”, que fica além da dimensão espaço-tempo e onde estão os significados, as emoções com significados que foram produzidos por todos que vivem, viveram ou ainda viverão.

Essa não-linearidade é difícil de compreender, pois fomos educados, desde pequenos, a perceber a realidade como seqüencial. Assimilamos isso como verdade tão absoluta que, no auge da física, na época de Isaac Newton, estabeleceu-se como lei a causalidade: uma coisa provoca outra. Nós acreditamos piamente nisso! Vivenciamos isso e nos surpreendemos profundamente cada vez que não acontece. Mas, rigorosamente, o nosso olhar funciona como a marca do Zorro, faz um “Z”. Temos acesso a um gigantesco volume de informações, mas o nosso cérebro só capta uma ínfima parte. Somos seres seletivos, ainda bem! Precisamos de limites, pois assim conseguimos nos livrar de muitas confusões. Então, fomos educados, por uma questão de eficiência humana, a colocar uma coisa depois da outra. Isso foi um recurso que adotamos, pois temos a tendência a fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Mas a localidade e a causalidade não têm tanto valor, em um novo referencial como o da Física Quântica, porque o que se acha que é causa não leva necessariamente ao que se acha que é um efeito. As “causas” e os “efeitos” se co-relacionam, mas um não implica o outro. Há vários exemplos disso, principalmente no que diz respeito ao raciocínio indutivo. A nossa percepção do mundo de forma seqüencial e hierarquizada é civilizatória, cultural, ela não é tão natural como nos habituamos a compreendê-la.

Por termos sido tão educados, nesse processo civilizatório de 200 mil anos, em vez de lidar com a realidade, lidamos com a nossa realidade. A nossa percepção da realidade é intermediada o tempo todo pelos nossos sentimentos e pelos significados que atribuímos à realidade e aos sentimentos. O real para cada um de nós não é o real propriamente dito, é aquele que cada um atribui com os seus valores, sentimentos e a cultura que nos antecedeu.

O desafio no caminho do Yoga é buscarmos nos reeducar na percepção da realidade, privilegiando a apreensão direta, a dedução, reconhecendo o conhecimento verdadeiro que alguém produziu para eliminarmos o que for possível dos nossos significados e emoções. Dessa forma, a realidade pode ser vista por nós de modo mais parecido com o que de fato é, em sua plenitude e multiplicidade.

Thadeu Martins