quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Graças ao eu!

Na concepção da escola hinduísta Sânkya, a vida se dá a partir de uma dualidade básica: matéria (Prakriti) e o referencial para o qual esta se manifesta (Purusha). Isso simplesmente surge, segundo o Sânkya. Não há, portanto, um princípio criador ou um tempo anterior a essa dualidade. Isso é o tempo em si.

Para o Sânkya, não existe um ser divino, criador de tudo. As coisas são e acontecem. Não há um propósito. Já no Yoga, que surge simultaneamente com o Sânkya, o sábio Patanjali acrescenta uma entidade: Ishvara, um ser especial que representa a divindade.

Há um exercício na prática de Yoga em que nos entregamos, nos desapegamos. É justamente o Ishvara Pranidhana, render-se ao ser divino, a Deus. Mas que Deus é esse Ishvara? É um ser que representa o máximo da perfeição, aquele que não se corrompe, não se deixa levar pelo mundo, que não se abala pelas emoções. É uma referência da divindade. Claro, portanto, que não há, em Yoga, qualquer restrição à prática religiosa ou à concepção que você tem ou quiser ter do que é divino. Vivencie a sua fé, a sua crença com toda a intensidade que ela merece.

Patanjali afirma que uma das melhores maneiras de se meditar é pela fé. Ele adotou todo o conhecimento filosófico do Sânkya e incorporou esta nossa natureza bem humana, que se relaciona, que estabelece relações de promessas e dívidas. Uma das maneiras de se meditar é rezar. Para quem rezar? Para quem você quiser; depende da sua convicção pessoal. Mas reze com fé!

Podemos depreender que a vida é algo divino. A vida é o máximo! Tudo é lucro. Talvez o sentido da vida seja perceber o valor de estar vivo e prosseguir vivendo. A vida é um processo bastante complexo, que funciona de modo extraordinário e que vai muito além do que conseguimos imaginar; nenhum de nós tem controle algum sobre ela, pois não controlamos nem o respectivo DNA, por exemplo. Temos é sorte (muita sorte) de poder vivenciar esta experiência.

Nós compreendemos a vida usando o instrumental que ganhamos, aprendemos e desenvolvemos. Cada um vai percebendo o valor da vida do seu próprio jeito, conforme a sua história pessoal. Alguns têm a sorte extraordinária de dispor de muitos recursos para perceber a beleza que a vida é e se entregar. Outros só aprenderam a sofrer. Infelizmente o ser humano tem uma grande tendência ao sofrimento.

Para algumas pessoas, o sofrimento decorre de um vazio existencial, mesmo quando elas dispõem de recursos de toda ordem. Para quem não está no lugar de quem sofre, fica fácil falar. Mas, já que estamos (neste momento) do lado de fora, podemos compreender melhor. A vida já é plena, mas provavelmente quem está sofrendo deve ter vivenciado uma confusão entre ter e ser.

Ter capacidade, ter bens, ter família, fazer coisas, isso tudo é conseqüência. O importante é viver. Do mesmo modo, sofre quem está o tempo todo em busca de alegrias, fugindo das tristezas, e não percebendo que essas emoções são passageiras. Nós viveremos melhor se percebermos os sentimentos negativos ou positivos e seguirmos adiante.

Por isso, em Yoga, praticamos a auto-observação, de modo que possamos nos ver enquanto estamos fazendo algo. Dessa forma, o viver passa a ser um estado permanente de testemunho e decisão: estamos o tempo todo observando a vida e a nós mesmos vivendo conforme as nossas decisões diante do que “vemos”.

O propósito em Yoga é nos aproximarmos, cada vez mais, do nosso eu interior de modo que possamos ver a vida como ela é para “ele” (o eu interior... talvez o Ishvara). Assim, as coisas perdem a importância exagerada que lhe atribuímos. O importante mesmo está lá dentro do que percebermos, observarmos. Assim, passamos a ter a consciência de que tudo é passageiro, mutável. Só o que não passa é esse nosso eu interior, esse ser especial, Ishvara.

Por isso saudamos uns aos outros dizendo Namastê: o eu que está aqui dentro cumprimenta o eu que está aí dentro, a divindade que há em mim saúda a divindade que há em você.

Somos todos iguais: divinos e eternos!


Thadeu Martins