quinta-feira, 13 de março de 2008

Emoções sem perder de vista

Hoje quero comentar um pouco sobre a questão da perda e do desapego na perspectiva do Yoga. Inicialmente, o que me ocorre é que quando vamos a um velório de alguém conhecido, em geral o que fazemos mesmo é tentar consolar os amigos. Esse exercício de apoiar o outro, de consolar, podemos trazer cada vez mais para perto de cada um de nós, até a situação em que o outro a apoiar é a própria pessoa.

No referencial do Yoga, temos a grande vantagem de podermos nos ver também como o outro, pois se acredita haver em tudo e todos uma dualidade básica: uma de natureza não-manifestada e outra que se manifesta. Essas duas entidades formam uma dualidade essencial: Purusha e Prákriti. Nessa concepção filosófica, o material e o não-material surgem simultaneamente, e embora não faça sentido uma separação, podemos vê-los como “um” e “outro”.

A primeira manifestação de Prákriti é a mental, o código. Nós surgimos a partir de uma definição codificada, o DNA, que dá a conformação que cada um de nós tem. Esse código é imaterial, está mais perto de Purusha do que de Prákriti – embora, no fundo, tudo seja uma coisa só.

Nessa seqüência do código mental, a primeira manifestação é de natureza intuitiva, Mahat; sente-se mesmo sem pensar. As reações intuitivas que temos são absolutamente emocionais, não passam por nenhum processo de racionalidade. Já a manifestação seguinte é intelectual, Budhi, e tem por base a racionalidade. A terceira manifestação mental é Ahankara, o ego. São os personagens que adotamos, que exercemos, o eu que atua. Esse eu é antecedido por dois condicionantes mentais: um de racionalidade e outro de intuição/emoção.

Quando observamos a nós mesmos, verificamos que assumimos vários personagens. Passamos a ser “outros”, mesmo que personagens de nós mesmos. Um dos propósitos da prática de Yoga e meditação é nos observarmos, nos aproximarmos do eu profundo que observa os vários “eus-personagens”.

Podemos aproveitar esse referencial para usarmos na alegoria, no caso, o velório de um amigo ou uma amiga. Todos que estão lá atuam tentando consolar outras pessoas. Há um ritual de apoio, de sustentação aos outros que ali ficaram, sentido a perda de alguém muito próximo. Nessa situação, atuamos também como um personagem: o eu que perdeu alguém. Podemos observar esse personagem, que somos nós e outro ao mesmo tempo. Assim fica mais fácil. É claro que esse outro vai se emocionar. A perda de alguém querido mexe com valores enraizados em nós. É uma dor muito forte, não há quem não se emocione. Não há como lidar com uma emoção muito grande, a não ser emocionando-se.

Mas, ao mesmo tempo em que vivenciamos essa forte emoção, somos obrigados a tomar várias decisões, a realizar várias ações de natureza prática e que nos serão cobradas. Dependendo de quanto conseguimos nos manter inteiros, vamos fazer essas ações. No mínimo, vamos ter que providenciar o ritual de despedida daquela pessoa. Enfim, vamos ter que dedicar energia a isso. Então, mesmo quando estamos tomados pela emoção de uma grande dor, temos que divergir dessa emoção concentrada para dedicarmos atenção aos outros personagens que nos são exigidos.

Somos vários personagens, que estão sempre lidando com aspectos diferentes da realidade, sob diferentes pontos de vista. Também somos o observador privilegiado, que está dentro de nós, que antecede a nossa racionalidade e a nossa emoção (o Purusha), e que é capaz de nos ver em cada um desses “eus” que assumimos em situações que nos exigem envolvimento e dedicação.

O que buscamos em Yoga é nos habituarmos a nos observar em ação, a perceber os vários personagens que assumimos no dia-a-dia. O olhar é de compreensão para nós mesmos, não de condenação, até para apoiarmos o eu que observamos, para deixarmos a emoção abrir espaço e assim sairmos de uma eventual sintonia negativa.

Este é um aspecto importante: precisamos ter cuidado para não deixarmos o eu entregue à própria sorte. A maneira mais fácil de abandonarmos o eu que está numa situação complicada é ficarmos totalmente dedicados a ele. Por exemplo, se nos deixarmos levar pela tristeza, acabamos por sucumbir, ficamos doentes. Aí vamos precisar da ajuda de alguém para sairmos dessa sintonia. O ser humano passa o dia inteiro sintonizando em várias situações. Isso acontece o tempo todo. A nossa emoção é distribuída nessas várias possibilidades que temos. Quando nos abandonamos, deixamos a nossa emoção concentrar-se em apenas uma determinada sintonia, e assim não conseguimos recuperar sozinhos o distanciamento, necessário para sair daquela sintonia emocional.

Quanto mais nos habituarmos a nos distanciar para nos observarmos, mais esse hábito vai se afirmar, mesmo nos momentos mais difíceis. Daí a importância da formação desse hábito. Só conseguimos tomar uma ação para sair de um estado emocional intenso se tivermos o hábito de nos observar. Até mesmo num estado alterado de consciência, esse hábito se afirmará.

No seu cotidiano, adquira esse hábito, porque até nas situações de perdas terríveis (inclusive de você mesmo!) será de grande valia. Medite um pouco todos os dias. Lembre-se do que você fez, do seu comportamento, das suas atitudes. Avalie-se nessas situações ocorridas. Habitue-se a rever o seu dia. Os seus encontros com outras pessoas. Você teria agido de modo diferente? Como você acha que as situações poderiam ter sido melhores, se você tivesse agido de outra maneira?

Existe dentro de você o ser inabalável, que é a sua essência divina. Você não precisa esperar uma grande perda para se colocar nesse ponto de vista. Você pode (talvez devesse) praticar todos os dias, olhar para o seu “eu circunstancial” com o propósito de ajudá-lo a lidar positivamente com as suas emoções e desapegar-se delas.

Thadeu Martins