quinta-feira, 10 de abril de 2008

Yogues urbanos

Hoje quero comentar um pouco o filme “Samsara”. Aliás, dá para conversar bastante sobre esse belo filme! Vou me concentrar no aspecto que considero essencial, que é o desafio de viver o nosso tempo. Os hinduístas sugerem que podemos desenvolver a sabedoria se passarmos por quatro estágios da vida: o tempo de estudante, o de realização material, o de retiro e o de retribuição com a sabedoria adquirida; se vivermos integralmente tudo isso, sem pular etapas. Vamos aprendendo com a própria experiência e, em algumas vezes, também aprendemos, antes de errar, por observar e aprender com os erros dos outros.

Nós todos somos deuses anônimos, todos temos esta realidade extraordinária que é a vida conosco e temos a oportunidade, se quisermos, de viver com essa intensidade entusiamada. No entanto, por mais “iluminado” que alguém possa ser, continuamos no mundo social e vivenciamos isso. A questão é o grau de importância que damos ao viver social na circunstância em que estamos. Esse é o ponto. Haverá circunstâncias em que daremos prioridade máxima a essa dimensão, mas haverá muitas outras em que teremos oportunidade de olhar a vida social com uma prioridade muito menor. Entre a muita ou nenhuma atenção, estaremos presentes. Cada um de nós é quem estará lá (na situação objetiva), e é isso que pode mudar tudo, quando se considera que é “você” quem dá prioridade, quem dá atenção, e não o seu personagem de plantão ou o que está envolvido na situação.

O desafio do yogue urbano, ao adotar o caminho filosófico dessa escola hinduísta, é conciliar o que o Yoga adiciona de compreensão da vida a toda uma cultura que já está impregnada em nós (que não crescemos na Índia). Haverá acréscimos e diferenças em algo muito forte, muito enraizado e estabelecido em comportamentos e atitudes habituais.

Não por acaso, acho muito melhor viver Yoga no Ocidente, ser um yogue urbano, do que praticar Yoga no Tibet, ou na Índia do citado “Samsara”. O filme acentua que os monges lá não têm muita escolha, já crescem num contexto que elimina inúmeras condições dos desafios de viver. E, volta e meia, as coisas se complicam mais do que se aprendeu no monastério. Creio, por um lado, que é muito mais desafiador ser um yogue em uma cidade normal, do que ser yogue em Rishikeshi (a “capital” do Yoga), por exemplo; por outro lado, as virtudes que se desenvolvem aqui poderão ficar mais consistentes, porque serão mais colocadas em teste.

Claro que aqui no Ocidente, para praticarmos Yoga, temos que fazer uma redução cultural muito grande. Há uma mudança de conceitos do que significa a vida. Portanto, vamos praticar Yoga com a nossa formação: cristã, espírita, umbandista, judaica, evangélica, e todas mais que fazem parte da nossa cultura. Vamos adaptar o hinduísmo à nossa compreensão, para fazer esse essencial que é a realização da consciência, estar presente, perceber-se, tornar a vida algo agradável, consciente, bonito, e feliz.

Curioso que, para os gregos antigos, a felicidade seria algo impossível, pois estaríamos sempre desejando algo que não temos (conforme Platão). Seria a contínua insatisfação, o reino infernal para o marketing eterno. Eles não sacaram que se pode desejar o que se tem, o que é real, o que está aqui e agora. No filme “Samsara”, e em seu contexto, um monge escreve para outro e pergunta: “entre satisfazer mil desejos e dominar apenas um, o que será mais importante?” Ora, jamais satisfaremos os infinitos e brotantes desejos. Viver inclui desejar. Não há nenhum problema em ser uma criatura desejante. Essa é uma condição essencial. Mas se vivemos como meros realizadores de desejos, operacionalizamos a consciência e perdemos essa pré-condição do ser.

O desejar não tem fim. Portanto, desenvolve-se a técnica do domínio de pelo menos um desejo, aquele que será a nossa fonte de segurança, a nossa afirmação da consciência. Vamos perceber os nossos desejos; nos entregaremos a alguns; seremos arrastados por outros; satisfaremos outros ainda e, ao mesmo tempo, estaremos praticando o domínio do desejo. É como se percebêssemos assim: estou desejando, e agora? Entrego-me ou não? Vou ou não vou? Decido! A partir daí entra a prática da vontade. Estaremos íntegros, atuando conscientes na vida.

Nosso tempo de vida nos oferece as circunstâncias de aprendizado, realização, desapego e aplicação da sabedoria. Já valeria viver só por isso, e seria um desperdício abandonar a consciência nos turbilhões dos desejos ou condená-la na negação deles. Cada circunstância, de cada estágio da vida (aprendizagem, experiência, renúncia e sabedoria), é determinada com a perspectiva pela qual participamos em nossa época e lugar,e vivenciamos nossos desejos e seus desafios de satisfação ou domínio. Tudo será passageiro, mas o percurso fará toda a diferença.

Thadeu Martins