terça-feira, 22 de abril de 2008

Universo de possibilidades

O Yoga e outras filosofias, bem como as ciências, de modo geral, oferecem modelos explicativos da realidade. O compartilhamento desses modelos nos permitiu comunicar e assim evoluir como espécie. Os modelos serão tão bons quanto quisermos que sejam, conforme a capacidade de aplicação que tiverem.

A origem remota de quase todos esses modelos é muito semelhante. Eles surgem em uma época muito anterior à escrita, mas na qual as pessoas já conversavam. Das muitas observações que foram feitas por nossos ancestrais, a mais importante talvez tenha sido a que permitiu o surgimento da agricultura, há cerca de dez mil anos. Ela foi viabilizada porque se conseguiu determinar com precisão o movimento relativo do sol, por meio da marcação dos equinócios da primavera e do outono, bem como dos solstícios do inverno e do verão. A marcação era feita com pedras gigantescas, para ninguém as tirar do lugar. Ocorreu, assim, a primeira divisão do tempo nas estações de preparar a plantação, plantar, fazer o cultivo e realizar a colheita.

O céu passou a ser um verdadeiro quadro-negro, cheio de informações. Além do sol e da lua, que determinavam os ciclos do tempo, as estrelas também começaram a ser úteis para se determinar as principais direções. Começamos a fazer conexões de estações não só com o sol e a lua, mas também com as constelações. Fomos usando imagens que nos eram familiares para identificar o céu. Passamos a chamar grupos de estrelas de escorpião, touro, virgem, e assim por diante. Essas figuras foram sendo associadas aos ciclos do tempo.

De tanto observar os fenômenos agrícolas, fomos nomeando as constelações conforme a sua aparição no ciclo da agricultura. Assim, por exemplo, a colheita foi associada ao signo de Virgem; a semeadura, à previsão do local de plantação, foi relacionada a Capricórnio; a manutenção da colheita associou-se a Touro, que puxava o arado; e assim por diante. Não deve ter demorado muito para se associarem as características das atividades humanas nessas estações às pessoas que estivessem ligadas a elas. E assim fomos criando maneiras de explicar ou tentar compreender a realidade com a qual lidávamos.

O que nos interessa nessa história é o compartilhamento de experiências, que são objeto de conversas e registros, para que se tenha fácil acesso e recuperação. Além do céu, que todos vêem, sempre houve um ambiente no qual compartilhamos, registramos e acessamos experiências, até que elas se tornem cultura. Quanto mais grupos humanos distantes, mais variedade de formas de explicação, de registro, de modelos. Ao longo da história, os grupos vão-se aproximando e compartilhando possibilidades e estabelecimento de comunicação. Isso faz parte do nosso viver cultural.

No entanto, tudo parece diferente quando um modelo explicativo da realidade mostra as coisas de outra maneira. Por exemplo, se passarmos a perceber o ser humano como uma unidade divina, a nossa visão de mundo será muito diferente daquela que pressupõe uma separação entre um ser divino e um humano. A compreensão dependerá do modelo que escolhermos para direcionar a nossa visão da vida.

Entre as muitas possibilidades, o modelo filosófico hinduísta tem como conceito primordial a unidade de um princípio divino de inúmeras possibilidades de manifestação e também de não-manifestação. Dessa unidade decorre a dupla disposição de manifestar-se ou não. Surge toda uma cultura que incorpora o divino em si, em que o mundo da não-ação material e o mundo denso das ações têm a mesma legitimidade; são igualmente verdadeiros; vive-se em ambos os modos o tempo todo.

Tanto em um modelo como em outro, surgem mediadores para propiciar as relações entre o divino e o humano. No de separação, para intermediar as relações. No de unidade, para desenvolver as relações. Os resultados que se observam podem ser muito diferentes.

Mas, no modelo “ocidental”, no qual fomos criados, a atenção está mais voltada para que possamos lidar com a produção material e suas conseqüências nas relações sociais. Ele estabelece as relações que são exteriores a nós e que também nos afastam da nossa convivência interior. Mas a vida não é bem assim, pois o mundo que podemos vivenciar internamente tem uma realidade extraordinária. Para percebermos isso, temos que superar o envolvimento social, para deixarmos brotar o que está dentro de nós (des-envolver a alma).

Independentemente de qual seja o melhor modelo, o importante é que tenhamos clareza de que não estamos falando da realidade, mas sim de modelos explicativos da realidade. Conforme o modelo que adotarmos e praticarmos, a realidade pode se tornar muito diferente. O modelo do Yoga, que estamos aqui acrescentando, privilegia a divindade com a mesma intensidade com que se privilegia a matéria densa, percebe divindade em tudo. A premissa é a não-separação.

Se você, nos exercícios de total não-ação (meditativos, por exemplo), de alguma ação (respiratórios) ou de bastante ação (ásanas), em qualquer dessas situações, estiver ligado que você é um todo (divino e humano), a sua vida pode se tornar muito diferente... e talvez melhor.

Thadeu Martins