sexta-feira, 2 de maio de 2008

Yoga em síntese

Yoga, basicamente, é uma das linhas filosóficas hinduístas, sendo que as principais são seis. Essas escolas remontam há milhares de anos e propõem a compreensão da vida de um modo que permanece contemporâneo. Elas espalharam-se pela Índia inteira e fora dela; são bastante parecidas entre si e com o Budismo também (este constitui uma escola não-ortodoxa do Hinduísmo). São mais complementares que antagônicas. Assim como o Budismo, o Yoga, acabou chegando ao Ocidente, mas sem conotação religiosa.

A maneira prática como a tradição hinduísta espalhou-se é muito semelhante à da literatura de cordel. Surgiram e espalharam-se textos cantados e recitados, que iam sendo incorporados às regiões que alcançavam. O principal texto-poema indiano é o Mahabharata (incluindo o famoso Bhagavad Gita, que aqui ganhou música de Raul Seixas e Paulo Coelho).

O principal texto sobre Yoga é o Yoga Sutra (pequenos textos em cordão), escrito pelo lendário sábio Patanjali (no período entre 500 A.C. e 300 D.C.), que reúne apenas 195 versos. Esses versos, ou sutras, estabelecem um roteiro filosófico, que é um modo de viver e de orientar a vida. Essa estratégia de vida tem a seguinte síntese: acalme, domine os seus pensamentos, apazigúe as variações da sua mente e esteja presente.

À medida que ficamos conscientes do que pensamos, que nos mantemos presentes o tempo todo, testemunhas de nós mesmos, enquanto fazemos algo, deixamos de ser apenas a pessoa que faz e passamos a ser também a pessoa que não faz, mas observa, e observa principalmente essa pessoa que faz. Isso ajuda muito.

Patanjali inicia o Yoga Sutra definindo Yoga como a cessação dos turbilhões da mente. Ele praticamente desenvolveu os fundamentos da psicologia, dois mil anos antes de Freud, ao propor as bases da compreensão da mente: como a mente funciona, como podemos interagir com ela e como podemos fazer com que ela seja uma aliada e não um fator de perturbação e ansiedade. O que Patanjali propõe é o viver para a felicidade. Na seqüência, ele nos chama a atenção de estarmos no mundo real. Embora tenhamos um mundo interior muito rico de possibilidades, temos de desenvolver a habilidade de lidarmos simultaneamente com o mundo social e exterior a nós.

Segundo o pensamento hinduísta, nós já surgimos como uma unidade, somos todos uma unidade. Neste mundo material, temos a oportunidade da experiência individualizada, em que ganhamos um nome. Essa variedade de experiências nós as vivenciamos porque abrimos mão da unidade e passamos a viver a dualidade: a unidade em confronto com outras percepções da mesma unidade. Daí surge o mundo social, que é superinteressante por ser propiciador de experiências.

Portanto, na compreensão hinduísta, o sentido da vida é viver por viver. Vivendo, por conseqüência, temos a oportunidade da experiência e da realização da consciência.

Rigorosamente, nós somos unidade. Nós nos materializarmos neste modo em que aqui estamos e podemos viver o mundo dual, no qual a nossa cultura se especializou. Embora a filosofia hinduísta parta desse princípio da unidade, ela de imediato chama atenção para a realidade dual, na qual as aparências se antepõem. Surge então uma complexidade social extraordinária, a ponto de a unidade parecer perder-se. Daí a necessidade de recuperação do sentido da unidade. É como se o viver fosse um pêndulo, em que vamos ora num sentido, ora noutro. Assim vamos percebendo que podemos, simultaneamente, vivenciar a unidade e a multiplicidade.

Aí vem a questão cultural. Desde pequenos, vamos sendo educados, pressionados, estimulados a nos relacionar com os outros. Isso vai ficando cada vez mais acentuado a ponto de nos especializarmos no mundo social. Pode acontecer de essa dimensão social ser tão entusiasmante que não realizamos o sentido da unidade em uma única vida; a nossa consciência pode perder-se nos muitos apelos do mundo social. Na filosofia hinduísta, não há nenhum problema em se perder, pois nela morremos e nascemos de novo, e aí começa tudo outra vez...

Um propósito de viver, portanto, é também o de se libertar dessas múltiplas experiências recursivas. Todas as escolas filosóficas hinduístas afirmam que essa multiplicidade é uma ilusão. Tudo o que está à nossa frente é uma ilusão, uma convenção; nós aprendemos a ver a vida do jeito que vemos. Mas, na realidade, nós vivemos videogames, que são orientados pelo tipo de formação, de referencial, de modelos explicativos que nós tivemos e adotamos.

Ora, à medida que escolhemos os nossos modelos explicativos e percebemos que tudo aquilo que vivenciamos é interpretado por nós segundo esses modelos, tudo pode ficar diferente, pois nós podemos optar por experimentar outros modelos ou abrir mão dos modelos e nos entregarmos à realidade. Nessa entrega, surge a diferença filosófica entre Oriente e Ocidente, logos versus phisis, processo analítico versus processo integrativo da realidade. No segundo caso, temos a percepção direta da realidade como unidade, sem modelo explicativo algum. O fato é, porém, que tanto podemos estar na ilusão desses modelos, quanto na ilusão da percepção direta sem auxílio algum. E então temos um desafio que persiste para os filósofos de todas as tradições.

Não por acaso, a palavra que os indianos mais prezam é liberdade, Moksha. Mas que liberdade é essa? Não é nenhuma liberdade “sem limites”, mas sim de podermos escolher o nosso modelo explicativo, ou ter acesso direto à realidade, ou ainda ver por dentro como a vida é. Segundo os hinduístas, a grande liberdade é a libertação da ignorância de não saber que nós experimentamos o mundo por meio de modelos explicativos; a maior ignorância é esquecer que originalmente nós somos uma unidade, que não temos carência alguma do ponto de vista essencial. As carências que surgem são decorrentes da interação social, que cria uma realidade adicional e que se superpõe à unidade essencial.

Uma das grandes sabedorias dos hinduístas é estimular a realização dessa liberdade maravilhosa que é perceber a unidade divina que constitui cada um de nós, e agir em conformidade com essa compreensão.

Thadeu Martins