sexta-feira, 13 de junho de 2008

Testemunhas de nossa atenção e respiração

Em Yoga Clássico, os exercícios físicos só fazem sentido se nos estimularem a praticar algumas atitudes de vida. O exercício é muito bom sob vários aspectos, mas será ainda melhor se, ao fazermos, nos concentrarmos na atitude que este propicia.

São quatro as atitudes que cultivamos em Yoga: desapego, autoconfiança, tomada de posição e tomada de consciência.

Cada atitude está associada a um tipo de movimento. Por exemplo, a atitude de desapego, de entrega, está associada aos exercícios em que nos curvamos para frente. Já quando nos curvamos para trás, abrimos o peito, cultivamos a autoconfiança. Nas posições, em que nos colocamos aprumados na vertical, estimulamos a atitude de tomada de posição, percebendo tudo o que está à nossa volta, a ordem na qual estamos inseridos (e verificar se não estamos sendo alguém estranho no ninho).

A tomada de consciência está relacionada às posições que propiciam a meditação, a contemplação; ficamos muito mais focados na não-ação, quando não precisamos agir. Percebemos que quem de fato vê e percebe é alguém muito anterior em nós. É o ser consciente que nos constitui de origem, embora nos dispersemos dele cada vez que assumimos uma personalidade, uma máscara ou personagem, para atuarmos num contexto circunstancial qualquer.

Então, essas quatro atitudes é que são o foco de exercício da prática de Yoga. Fazemos isso de corpo presente, plenamente, com toda a nossa consciência.

Nas várias posições (ásanas), nós nos concentramos na respiração: quando nos alongamos, na vertical, vamos inspirando e voltamos expirando; quando nos curvamos para a frente, vamos expirando e voltamos inspirando. O foco na respiração facilita a concentração na atitude correspondente ao exercício.

Quando respiramos, nos sincronizamos com o principal ritmo da nossa vida. O ritmo da nossa energia, da nossa atividade, é o ritmo da nossa respiração. Daí a importância de respirar bem, profundamente. Ao nos concentrarmos na nossa respiração, deixamos de dar atenção exagerada ao mundo exterior e nos voltamos para nós mesmos, para o nosso processo consciente mais vital.
Em Yoga e em várias tradições, energia e respiração são absolutamente associadas, há uma congruência entre as duas. Vamos respirando conforme o ritmo da nossa atividade e a principal ênfase é em deixar o ar fluir. Não há preocupação em respirar muito, até porque é mais funcional expirar do que inspirar. O ar entra, o difícil é sair. O ideal é caprichar em expirar, encolhendo o abdômen; e para inspirar, basta liberá-lo.

Vamos percebendo a nossa respiração de acordo com o que estamos fazendo, de modo a nos sentirmos bem. Quanto mais profunda, silenciosa e contínua for a nossa respiração, melhor.

Ao prestarmos atenção na inspiração e na expiração, conseguimos ficar em dois lugares ao mesmo tempo. No que estamos fazendo, e em nós mesmos. Seremos testemunhas de nossa atitude e do que estamos fazendo. Essa é a situação ideal, porque estaremos em plena consciência; tão conscientes que seremos capazes de perceber o ritmo da nossa respiração. A nossa tranqüilidade será muito maior. Haverá plenitude. Passamos a lidar com as situações das mais desafiadoras de um modo extraordinário: ao mesmo tempo com proximidade e distanciamento.
Thadeu Martins