terça-feira, 24 de junho de 2008

Viva a sua plenitude

Meditar é concentrar-se em algo até sair do estado de concentração para entrar no estado de contemplação. Nós nos mantemos fixados em algo e daí a pouco, naturalmente, nos esquecemos que estamos fixados naquilo e prosseguimos contemplando.

No estado de contemplação, permanecemos atentos, mas não mais “tensos”, concentrados. O próximo passo, então, é distanciar-se da identificação que surgiu entre nós e o objeto da concentração anterior. Como isso se dá mesmo, ninguém sabe ao certo.

A experiência que vem a seguir da contemplação, o Samadhi, é individual. Cada um vai experimentar de uma forma diferente. Mas todos os relatos apenas dizem que, de repente, vai-se. Alguns passam longo tempo meditando, contemplando, sem que nada ocorra. Até que um dia, de repente, acontece. Com a prática, sentado ou deitado, vai ficando cada vez mais fácil. De início, pode ser melhor meditar deitado, para não sentir desconforto físico.

Depois de relaxarmos, nos concentrarmos, deixarmos os pensamentos, imagens e sensações passarem, chegamos a um estado no qual ficamos abertos a experiências extra-sensoriais, fora da dimensão espaço-tempo. Mas o sábio Patanjali chama atenção, no Yoga Sutra, para não nos encantarmos, nem tentarmos operacionalizar essa experiência, que parece meio mágica. O que ele sugere é que cada um de nós se entregue, consolide as suas experiências, para perceber qual é o seu propósito, o seu caminho; que cada um se entregue às suas experiências meditativas com habitualidade, deixando brotar respostas para as silenciosas perguntas que estão dentro de nós, as quais as palavras não ajudam a dizer.

Então, começaremos a ver o mundo de forma bem diferente. Começará a fazer sentido o que dizem os hinduístas: que a vida é muito mais do que se apresenta; que vivemos relações convencionais; que não é preciso sofrer nem se empolgar tanto. Com essa compreensão, a vida passa a ser muito mais tranqüila. Os aborrecimentos passam a ser vistos como algo insignificante, perto do que a vida é. Passamos a lidar melhor com o cotidiano, e vamos ficando cada vez mais disponíveis para ver a essência das coisas, dos relacionamentos, da realidade.

Um modo de começar a praticar poderia ser o que os yoguis chamam de Yoga Nidrá, a prática do sono/sonho dos yoguis, quando, na hora de dormir, se faz um relaxamento profundo e se tem experiências oníricas, conscientes. Durante o relaxamento, ficamos mentalizando o desejo de ficarmos conscientes durante o sono que virá. Desse modo, quando permanecermos presentes em nossos sonhos, ficaremos nos observando “em ação”, e já estaremos praticando uma forma bem efetiva de meditação.

Esse hábito vai-se consolidando, e vamos incorporando à vida, do mundo material, a dimensão onírica, que é tão ou mais interessante que o videogame ao qual estamos acostumados. Será a continuidade que nos vai possibilitar o aperfeiçoamento. À medida que formos praticando e compreendendo as nossas experiências, estaremos cultivando um estado mais amplo de consciência, aprendendo a lidar mais tranqüilamente com o cotidiano e experimentando um viver cada vez mais próximo da plenitude.

Thadeu Martins