quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Livre para ser

Uma das palavras mais importantes, na escola Yoga, é Moksha, que significa literalmente libertação, mas num sentido bastante amplo. Talvez o principal foco dessa liberdade seja percebermos o quanto podemos nos desapegar de amarras, convenções, complicações, que não são tão importantes assim, mas que se transformam numa rede que nos prende.

A primeira percepção dessa liberdade é diferenciar aquilo que é mutável e aquilo que é permanente na nossa vida. As circunstâncias em que vivemos, mesmo alguns valores, vão mudando ao longo da nossa existência, enquanto mantemos a mesma identidade e compreensão de nós mesmos como uma mesma pessoa. Além das convenções sociais, também vamos percebendo que a nossa compreensão da vida é dada por uma certa construção mental, que fazemos e que está associada também à nossa formação. Esse modelo mental muda o significado da realidade, a nossa própria apreensão da realidade.

Tudo o que percebemos como realidade é absolutamente mutável. Então, não haveria por que nos apegarmos com tanta intensidade, se tudo é passageiro. Perceber essas nossas amarras talvez seja o principal foco do conceito de Moksha. É a libertação, liberação deste mundo ilusório, ao qual na maior parte das vezes estamos demasiadamente apegados, mas que é apenas uma forma de percepção, mesmo que compartilhada por muitas pessoas.

Essa compreensão de liberdade, na prática de Yoga, é bastante radical, porque vai se contrapor à origem das noções, muito arraigadas em nós, do que é real, concreto, permanente. Mas, se por um lado a filosofia Yoga faz essa contestação radical, por outro ela nos oferece uma compreensão prática de como lidar com a realidade percebida.

Ela propõe que cada um de nós adote limites e assim os perceba. Esses limites, obviamente, restringirão nossos movimentos, mas liberdade, em Yoga, não significa falta de comprometimento em relação a tudo. Os limites que são sugeridos, pela compreensão do Yoga, têm o objetivo de nos ajudar a lidar com a ilusão social. Na verdade, são bem menos limites e bem mais orientadores para lidar com o mundo fantasioso, de tal modo que não sejamos atrapalhados pelas armadilhas de comportamentos socialmente negativos, e possamos ter condições mais favoráveis de cultivar a nossa liberdade e bem-estar.

Patanjali, o guru histórico das escolas de Yoga, enfatiza um código básico de comportamento, conjuntos de restrições e de estímulos. São cinco restrições e cinco estímulos de direcionamento da liberdade. O sentido não é de proibição, mas de atenção e controle. Em Yoga, a sugestão é que, conscientes do nosso movimento, das nossas potencialidades, da nossa liberdade, possamos controlar punções, impulsos, movimentos para os quais, socialmente, somos empurrados e aos quais vale à pena dar atenção para não ofender os outros e nós mesmos.

As restrições básicas em Yoga são as seguintes: controle/atenção à ofensa (violência), à mentira, ao roubo, à prática exagerada do sexo (que anula o “ser”) e o respeito às condições objetivas dos outros (cobiça ou inveja).
Essas restrições têm por propósito o cultivo da liberdade. Importante frisar que não se trata de “pecados”, crimes ou punições. Trata-se de temas sociais que afetam a todos nós, humanos. Em nossa formação, temos inúmeras ocasiões de lidar com esses cinco aspectos da vida social, e elas poderiam se dar de modo tranqüilo.

Se por um lado em Yoga, há um foco no controle, por outro há os estímulos, que, no ambiente social, aparecem de forma meio velada; percebemos pelos exemplos de pessoas próximas (pai, tio, professor, amigo etc), mas nem sempre são estimulados explicitamente.

Tais estímulos também são cinco: pureza, contentamento, esforço (perseverança), estudo (hermenêutico e auto-estudo) e aceitação do princípio divino da vida. Esses cinco estímulos nos levam a um comportamento positivo. Como os sistemas sociais de controle são muito presentes, em geral, talvez seja mais efetivo cultivarmos com ênfase os cinco estímulos, pois assim, não daremos muita oportunidade para situações em que os controles tenham que ser exercidos.

Uma pessoa que segue esses estímulos, que vive desse modo, provavelmente vai se envolver muito pouco em situações que lhe exijam o exercício de controles. Não estamos falando de um comportamento ingênuo, bobinho, de não ver o que existe de esquisito na vida, no mundo. Ao contrário, só somos capazes de cultivar a alegria porque percebemos a tristeza, de estudarmos porque percebemos a ignorância, e assim por diante.

Esses, digamos, “10 mandamentos”, são lembranças, pontos de atenção que formam uma base simples, mas muito densa, para a prática da liberdade (Moksha), que em Yoga tanto cultivamos.

Podemos dizer que Yoga é Moksha, libertação – e não “salvação”. Em Yoga, não faz sentido “salvar” alguém, não se trata de um resgate! Trata-se de um modo preventivo de viver bem, e não de livrar alguém de culpas ou pecados já cometidos.

Em Yoga, como na natureza, não há pecado nem perdão. Moksha é o comportamento de escolha de atitudes e conseqüências que evitam o aprisionamento cultural, que nos ameaça, a cada vez, em que nos permitimos ou nos submetemos, de um modo aparentemente natural, a maltratarmos os outros e a nós mesmos, mesmo que a pretexto de sermos incluídos e podermos continuar vivendo na sociedade.

Thadeu Martins