quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No caminho de Samadhi

Em Yoga, há uma ênfase de caráter social, em que desenvolvemos um comportamento tão tranqüilo que conseguimos diminuir bastante as perturbações que o mundo social traz ou que levamos para ele. Ficamos em paz com as pessoas e elas em paz conosco.

O sábio Patanjali, sistematizador do Yoga, afirma que o início do caminho em Yoga se faz com atitudes e ações correspondentes a um código de comportamento social, que prossegue no modo como lidamos com nosso próprio corpo, nossa mente e nosso espírito. Assim, fazemos um reforço: o corpo e a mente, por meio das atitudes e dos exercícios, vão estabelecendo um comportamento de liberdade (Moksha). Estimulamos e preservamos a liberdade nos outros e em nós mesmos.

Os exercícios são chamados de ásanas, posturas (que dão firmeza, estabilidade e conforto) e pranayamas, exercícios respiratórios, de controle da energia. Como a nossa atividade está diretamente associada ao nosso ritmo de respiração, o controle desta traz o controle da energia.

O caminho do Yoga passa, então, pelo comportamento - controles e estímulos - e pelos exercícios - posturas e respiração. Além desses, há outros quatro passos, mais voltados para o nosso interior. O primeiro é o exercício em que dirigimos os sentidos para dentro de nós mesmos. Esse é um dos principais exercícios para recuperarmos o nosso ritmo natural e para o nosso organismo se libertar dos condicionamentos negativos que cada um de nós cria (ninguém está isento disso). É o que os hinduístas chamam de Pratyahara.

Nesse exercício, cobrimos superficialmente os lábios, as narinas, os cílios (cuidado para não machucar os olhos), tampamos os ouvidos e tentamos ouvir o nosso som interior. O objetivo é permitir que o organismo se recupere no seu próprio ritmo, independentemente dos condicionamentos mentais, que até então lhe ficamos impondo.

Os outros três passos formam um conjunto destacado: a meditação. Na compreensão hinduísta, sistematizada na escola do Yoga, a meditação é constituída de três estágios. O primeiro deles é o de concentração (Dharana), em que nos concentramos num objeto ou numa idéia ou num ponto dentro de nós ou na graça divina. No segundo estágio, quando essa concentração é continuada e já não fazemos esforço, atingimos a contemplação (Dhiana). Essa palavra, inclusive, é mais adequada quando nos referimos à meditação, no sentido que se dá em Yoga. A contemplação é um estado de concentração sem esforço; o observador e o objeto começam a ficar em tal harmonia que de repente acontece o terceiro estágio, em que não há mais separação entre ambos. Dá-se, então, um estado de transe, de superação da dualidade, chamado de Samadhi. É uma meta para todo praticante de Yoga.

Então, em Yoga, buscamos desenvolver a habilidade de cultivo da liberdade (Moksha) de tal forma que socialmente sejamos bem aceitos, possamos lidar bem com os outros, estar em paz com o nosso próprio corpo – cuidamos dele de modo a que seja um aliado e não um atrapalhador, que está sempre pedindo atenção exagerada – e no qual nos permitimos ir além da dualidade das coisas, das relações de identificação.

Viver nesse estado zen, de Samadhi, é o ideal de quem pratica Yoga. Claro, não se chega lá de uma hora para outra. Vamos praticando, fazendo tudo com entusiasmo, com respeito a nós mesmos e ao que estamos fazendo, percebendo o caminho de cultivo, de aperfeiçoamento.

Sinteticamente, Patanjali chama atenção para comportamentos social e individual adequados e entusiasmo em tudo o que fazemos, com conforto e respiração.

Essa é a prática de Yoga, que vai muito além de uma coleção de exercícios. O que mais importa é a atitude, a habitualidade, a intenção do que fazemos com a nossa vida.

Thadeu Martins