quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mestres de nós mesmos

O Yoga Sutra de Patanjali, em seus 195 verbetes, faz uma verdadeira síntese de algo que já vinha sendo construído há pelo menos uns quatro mil anos antes dele. A cultura hinduísta surge praticamente junto com a descoberta da agricultura, há pelo menos dez mil anos a.C. Os registros dessa cultura vieram sendo transmitidos oralmente, em formato poético, como o foram os ensinamentos de Yoga e vários outros, pois assim eram mais facilmente decorados e passados para as pessoas. Seu idioma, o Sânscrito, é visto como origem de muitos dos idiomas conhecidos.

As escolas hinduístas do pensamento são surpreendentes. Produziram uma concepção ampla do que é a vida e o universo, integrados ao cotidiano, à produção social: agricultura, comércio, relações políticas, etc. Todo esse conhecimento foi transmitido em versos, até tornarem-se textos de formatos atuais. O maior poema escrito em todos os tempos é o Mahabharata (a grande Índia), com uns cem mil versos! Nele há um capítulo chamado “O canto do ser divino”, o Bhagavad Gita, uma história muito ilustrativa dos conflitos do ser humano diante da vida. Chama atenção para estarmos presentes e assumirmos mesmo a nossa vida.

O sábio Patanjali surge numa data indeterminada (entre os séc. V a.C. e V d.C.). Ele é o responsável por sintetizar todo esse conhecimento e colocá-lo de uma maneira didática. O Yoga Sutra (cordão do Yoga) inclui até um código de comportamento. Fundamentalmente, fala de atitudes que reforçamos em nós mesmos para conduzirmos a nossa vida de modo que seja bom para nós e para os outros. Também dá as dicas para lidarmos com aqueles momentos em que nos fazemos perguntas essenciais, do tipo “o que estou fazendo aqui?”, "para que eu nasci?”.

Patanjali reforça que cada um de nós tem todo o instrumental, todas as condições para perceber as respostas aos nossos questionamentos mais profundos. Claro que podemos conversar e pedir ajuda a amigos e especialistas, afinal, nós interagimos o tempo todo. E é bom que seja assim, pois, na maior parte das vezes, é por meio do outro que cada um de nós passa a se conhecer. A presença do outro é fundamental. Mas temos, dentro de nós, todas as respostas que precisamos. Elas surgirão na medida em que as busquemos.

Para encontrá-las, vale tudo: conversar, meditar, ler, etc. Patanjali sugere a prática da humildade, do bom humor e do esforço orientado. A humildade é essencial para percebermos que todo mundo pode ser um grande mestre para nós. Todas as pessoas têm muito a ensinar, a explicar e a dizer, desde que tenhamos a disposição de percebê-las como mestres. Se estivermos dispostos a aprender e perseverarmos nisso, faremos com que a nossa vida seja uma contínua oportunidade de desenvolvimento.

A maior fonte de prazer do ser humano é a curiosidade. A descoberta de algo, no mínimo de uma nova possibilidade, é o que nos encanta. Então, quando nos entregamos e nos aprofundamos no estudo, na descoberta, já estamos cultivando essa característica da felicidade humana tão preciosa que é a satisfação da curiosidade. Como o brotar de desejos é infindável, podemos criar uma espécie de "moto contínuo" de autêntica felicidade. O melhor é que nem precisamos comprar isso em lugar nenhum, pois já está disponível em cada um de nós. Custa só um pouco mais caro que sorrir à toa.

Thadeu Martins