terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Memória e estresse

No nosso cotidiano, vamos disfarçando o estresse, porque somos muito educados socialmente. Mas o estresse continua, numa camada muito profunda. Nós trazemos o acúmulo de estresse desde a infância e mesmo de períodos anteriores, da era das cavernas. Quando à noite ficamos acordados, resolvendo os problemas do mundo, o que fazemos é reavivar memórias muito antigas, cuja mensagem para o nosso corpo é de ameaça. Diante das ameaças, o nosso organismo se estressa, é levado a limites para os quais teria que tomar uma atitude e agir.

Se ficarmos acordados à noite, assistindo pela TV às desgraças do dia, nosso corpo é levado a reagir. Mas nós não saímos para combater os incêndios do mundo. Em vez disso, vamos para cama, depois de nos submetermos a todas as mensagens de ação. O resultado é que não conseguimos dormir, pois a mensagem acumulada, há milhares de anos de existência, é que temos que agir diante das situações de ameaça (ou pelo menos ficar bem preocupados).

Ao longo do dia, podemos passar por várias situações desse tipo. Somos ou nos percebemos ameaçados, mas a condição educacional que temos – que é um privilégio, pois nos permite conviver socialmente – cobra de nós um preço alto, que são os acúmulos internos de tensão, com os quais de algum modo vamos ter que lidar. A dica é trabalharmos essa emoção, perceber que situações são essas, que chamam a nossa atenção profunda de forma tão exigente, para passarmos a evitar esses tipos de situação no cotidiano. Assim, não nos sentiremos tão ameaçados, estressados.

Na compreensão da prática de Yoga, o sábio Patanjali afirma que o nosso modo de ser, a nossa memória, tem um processo muito prático de se constituir. Temos alguma ação ou reação que provocam um resultado. Este é percebido, compreendido e traduzido num significado, com uma emoção associada, que fica registrada na memória e vira registro. No cotidiano, acontecem as manifestações involuntárias das memórias. Os hinduístas dão o nome para essas manifestações da memória de Sanskaras. Vêm então os pensamentos e nós tomamos decisões, em função de uma memória que ressurgiu. A ação provoca um resultado e novamente vivenciamos o resultado, com significado e emoção, e registramos uma nova memória. Então, esse processo não tem fim, é permanente.

O processo de formação de memória se dá nestas quatro etapas: ação, resultado, percepção do resultado e memória. E assim prossegue o tempo todo. Então, nós temos esses impulsos, memórias recorrentes: estímulos que brotam sem sabermos bem por quê. De repente, começam a vir lembranças de algo, e em função disso somos envolvidos por essa lembrança, positiva ou negativa e, daí a pouco, ficamos eufóricos ou raivosos, sem nem saber bem por quê. A origem foi alguma coisa ou fato que nem existe mais, cujo registro é da memória de alguns anos passados; ou quem sabe até uma memória ancestral, que nem nos pertence verdadeiramente, mas que vem porque está no nosso repositório inicial, no banco de dados que herdamos de nossos ancestrais.

Ao praticarmos Yoga, uma das intenções é deixar tudo passar como é. Evitamos julgar ou analisar os pensamentos, imagens ou sensações que passam. Assim vamos nos habituando a desligar o formador de memórias e a não darmos muita atenção às reminiscências que a memória fica mandando. Para resumir Yoga numa frase bem simples: é a cessação das manifestações da mente; essas manifestações que não têm uma conexão direta com a realidade presente. Claro que quando estamos lidando com a realidade objetiva, não faz sentido ignorarmos a nossa mente. Mas se não estamos nessa situação, tudo o mais que brota na mente é reminiscência, não tem nada a ver com o presente; ou é projeção de futuro ou é passado.

Então, praticar Yoga é lidarmos com a realidade estando aqui, em vez de não estar nem aí, perdidos nas armadilhas das memórias mal resolvidas. A memória talvez seja a mais difícil de lidar, dentre as manifestações da mente, que deveríamos controlar na prática de Yoga e da vida. Ela talvez seja a fonte mais abundante das cinco causas principais para o sofrimento mental: a ignorância, o egotismo exagerado, a aversão ao que não gostamos, o apego ao prazer e o medo da morte. Esses fatores poderiam ser reduzidos, se ficássemos mais atentos com a formação e o tratamento das nossas memórias de vida, as quais se associam ao estresse.

Mas, enquanto a gente ainda vai engatinhando no lidar com a memória, que tal programar a televisão para gravar o seu noticiário noturno, e se habituar a dormir mais cedo e em paz? Essa seria uma das várias pequenas mudanças possíveis que diminuiriam a exposição a situações estressantes. Experimente fazer uma listinha dessas possíveis melhorias na sua vida. Escolha algumas das mais fáceis para começar novos hábitos favoráveis a você.

Thadeu Martins