quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ciclo essencial

Se existe algo que determina as condições de vida são os ciclos da natureza. Eles orientam, por exemplo, os ritmos biológicos humanos assim como o da migração dos bichos na direção em que o clima vai favorecer a alimentação e a sobrevivência.
Há uma quantidade extraordinária de ciclos e a determinação dos marcos – começo, meio e fim – dos ciclos é arbitrária. Vide o horário de verão. Trata-se de uma convenção. Mas os ciclos, independentemente das nossas escolhas, continuarão acontecendo.

De todos os ciclos, o mais importante é o da noite e do dia. É o que mais determinou as condições de sobrevivência da vida na Terra. Esse ciclo está na origem remota da vida que somos. O dia permite a fotossíntese, a captação de energia que vai ser comida em toda a cadeia alimentar. A noite possibilita a recuperação, o descanso e até o crescimento (que só acontece nos humanos durante o sono noturno).

Noite e dia, dia e noite, formam o ciclo mais importante e também o mais desrespeitado, na medida em que temos luz à noite, graças à eletricidade. Ficamos acordados e ativos durante grande parte da noite e, assim, bagunçamos nossos ciclos biológicos. Pois, apesar da energia elétrica disponível, nosso organismo continua basicamente controlado pelo relógio dia/noite.

Ao trocarmos a noite pelo dia, ou entrarmos pela noite fazendo tudo que seria normal fazer durante o dia, nossa saúde é seriamente afetada. Evitar essa atividade noturna melhoraria muito a nossa vida. Mas, claro, se alguém estiver habituado a essa troca (embora o organismo jamais se habitue sem prejudicar-se cumulativamente), teria que criar artifícios para poder recuperar o ritmo natural.

A época de mudança do ano, início de um novo ciclo de translação da Terra em volta do Sol, poderia incluir essa vontade de recuperar os ritmos naturais: agendar compromissos e afazeres de modo bem distribuído ao longo da semana e do mês, para evitar acúmulos e “horas extras noturnas”; descansar um pouco antes de dormir; comer pouco e até pelo menos duas horas antes de ir dormir; acordar cedo e logo tomar o “café da manhã” (com bastantes proteínas e carboidratos); caminhar e fazer alguns exercícios leves de respiração depois do desjejum e, só então, arrumar-se e partir para realizar os compromissos externos, com bom-humor e entusiasmo. Afinal, o dia e você merecem.

Thadeu Martins

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vida memorável

No nosso cotidiano, vivenciamos várias dimensões, vários aspectos: emocional, intelectual, comportamental e outros. Os momentos que exigem mais cuidado são quando nos dispersamos demais, nos diluímos, e quando nos concentramos em apenas uma dimensão. Ficar em todas as dimensões ou numa só eventualmente, não há problema. Mas se ficarmos nessas situações extremas, o tempo todo, poderemos nos tornar ausentes ou autistas.

Muitas vezes, ficamos remoendo determinada situação que já passou, que já podia estar superada, mas insistimos naquilo que a situação nos marcou. Isso não resolve, nos faz sofrer e nos impede de seguir adiante. Portanto, é fundamental termos a capacidade de mudar de estação, de sintonia.

Em Yoga, buscamos a cessação dos turbilhões da mente. Isso significa não se dispersar, não deixar que todas as dimensões tenham atenção. E, principalmente, ficar atento para que aquelas dimensões recorrentes sejam controladas.
A dimensão recorrente aparece, principalmente, por um fenômeno mental comum a todos nós: a reminiscência.

Conforme o professor Massaro Emoto, tudo o que é constituído por água tem memória acentuada. Conforme ele demonstra, o princípio ativo do oxigênio e o passivo do hidrogênio formam a capacidade de memorização que permite à vida realizar experiências e prosseguir. Ele comprova que a água é capaz de memorizar imagens e emoções. Como somos constituídos em pelo menos 70%, de água, podemos dizer que somos constituídos de memória.

Toda ação provoca resultado; o resultado é percebido; ao ser percebido, ganha significado e é memorizado, associado a determinadas referências, de tal modo que numa circunstância que precisemos, conseguimos recuperar a conexão das referências e utilizar isso ao nosso favor. Assim, a vida consegue fazer aquilo que é gradual: brotar e crescer. Quando determinada dimensão da vida chega ao limite, continua a crescer em outras dimensões. A potencialidade de crescimento gradual está baseada no princípio de memorização, porque é a partir de uma base que fazemos o momento seguinte. Esse também é o princípio dos fractais. A matéria se auto-organiza, cresce, cria redes a partir de um núcleo e vai crescendo.

Quando nos deixamos levar pelos pensamentos que brotam e começamos a “resolver” situações que já passaram, ficamos fora da realidade, fora do momento presente; nós nos deslocamos para o passado e até podemos nos projetar para o futuro, sofrendo por antecipação. Ficamos, assim, envoltos no turbilhão da mente.

A prática de Yoga nos ajuda a ter mestria de como nos dedicarmos às dimensões da nossa vida de modo adequado a nossa felicidade; crescendo como pessoa, tendo experiências de realização plena, de forma íntegra, socialmente razoável e responsável.

Também podemos nos manter em apenas uma dimensão de forma positiva, meditando. Ao meditar, vamos abrindo mão de quase todas as dimensões sociais. Focalizamos num único ponto para nos abstermos do mundo e isso tem uma grande importância física. As causas de perturbação externas desaparecem, bem como seus efeitos. Ficamos absolutamente sós com a nossa essência de vida. Nesse instante, somos a vida. Nem nome temos. Tudo mais serena.

É como se tivéssemos morrido estando vivos. Toda manifestação social da vida desaparece. Mas estamos mais vivos do que nunca. Somos o ser, em plenitude, em paz com nossa memória.

Thadeu Martins

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O tal do tantrismo

A compreensão da nossa sexualidade está na origem do entendimento de nós mesmos e da vida. Na base da compreensão hinduísta está o óbvio, o visível, o factual: o relacionamento sexual próprio de todas as espécies. Essa base física de observação foi prosseguindo, no tempo, ganhando sofisticação e, por isso, afastando-se da origem, até esta virar simbolismo ou alegoria.

Hoje em dia, o fato primário do surgimento da vida é visto como um fato tão comum, como se esse primário não fosse o fundamental. Cada um de nós dá mais importância àquilo que é mais exigente na sua circunstância, como os cuidados pela sobrevivência, enquanto a vida prossegue com a sua essência original.

Lá no início das civilizações, por exemplo, nas origens do hinduísmo, a representação do início da vida se dá alegoricamente no formato do ovo conceitual. Esse ovo contém, simultaneamente, o princípio da manifestação (Prakriti) e da não-manifestação (Purusha). Essa dualidade é absolutamente uma, essencial e divina, a partir da qual tudo brota. A partir do desdobramento desse conceito, foi concebido o modelo hinduísta de compreensão da vida, que remonta a um tempo muito antigo. Nele ficou bem marcada a origem orgânica, a qual podemos sintetizar na palavra tantra (de tecido, trama, trança) que designa uma tradição de orientar o viver humano no sentido da sua essencialidade: o desenvolvimento do Ser. O tantrismo está relacionado com o princípio essencial e divino que está em nós, que viabiliza a vida, nos faz respirar.

Se podemos criar inúmeros artifícios para nos sentirmos bem e felizes, certamente esses estão relacionados com atividades ou fatores importantes para o nosso processo de vida, como a alimentação, o sono, o descanso, o afeto e os relacionamentos. Em algum momento, chegaremos à sexualidade, à possibilidade da trama dos princípios feminino e masculino em uma unidade que retoma a origem da nossa vida. Esse caminho tântrico, totalmente envolvente, orgânico, fez uma grande mistura cultural. Literalmente, os indianos “tantrizaram” tudo: a compreensão da filosofia, da política, do trabalho, dos relacionamentos sociais e religiosos. Tudo se tornou um amálgama orgânico. Quem percorre a Índia pode perceber isso. Tudo é muito forte, intenso: as cores, os cheiros, nada lá é pouco. A cultura indiana traduz o resultado de uma imensa mistura.

É importante lembrarmos de perceber e reconhecer os apelos dos sentidos, que se manifestam antes da racionalidade e mais próximos de nossa essência de vida. Vale prestar atenção ao que sentimos, deixar brotar o bom humor que permite compreender e curtir as emoções positivas, que nos aproximam organicamente. O que há de maravilhoso no orgânico é que ele brota naturalmente, cria, inspira; dispensa construções complicadas que apenas tentam reproduzir padrões de comportamentos socialmente aceitos, mas nem sempre adequados à felicidade. Não por acaso, a intimidade se afasta dos olhos e apelos sociais, como na prática de meditação, e nos aproxima da intimidade essencial do ser.

Thadeu Martins

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vida tântrica e tranquila

A energia orgânica é essencial no ser humano. Nas raízes do Yoga está a tradição hinduísta, que também é orgânica. A palavra que melhor caracteriza essa tradição é o Tantra (trama, tecido, textura). E o tantrismo é uma tradição orgânica. Está na base do hinduísmo e, portanto, do Yoga. Tem origens intuitivas, suas práticas são alegóricas; estão relacionadas com o tecer, misturar, entreter-se na sexualidade original que produz a vida.

Os antigos templos hinduístas têm altares com o formato da superposição dos órgãos sexuais masculino e feminino conectados: o lingam (pênis) brota a partir da ione (vagina). Exibem a base representativa da religiosidade hinduísta.

variedade de templos alegóricos do simbolismo da energia orgânica e sexual se encontra na cidade de Khajuraho (a uns 500 km a sudoeste de Nova Deli). São dezenas de templos, do período medieval, cujas paredes externas são ornamentadas com relevos esculpidos em tamanho natural de cenas eróticas: as mais imaginativas!

A vida associada à criatividade decorrente da sexualidade é absolutamente evidente. Então, quando os sábios indianos falam da sexualidade, dos chakras e dos exercícios, abordam o assunto tranquilamente, sem pudores ou eufemismos. Afinal, o cuidar da própria energia inclui o cuidar da sexualidade.

Sempre lembramos que energia, na origem grega, significa atividade. Nossa energia corresponde à nossa atividade de viver. Se você se habituar a viver com atenção positiva aos relacionamentos pessoais, à respiração, à alimentação e a sexualidade, vai viver feliz o que tiver que viver. Cultivar o esclarecimento da realidade, sua compreensão, aceitação dos fatos e a capacidade de prosseguir com os seus recursos talvez seja o grande segredo da felicidade.

Aqui vai uma dica de meditação que funciona bastante: quando você ficar de mau humor com algo que lhe incomoda muito, pare e comece a registrar a situação (mentalmente ou escrevendo). Depois, com mais tranquilidade, tente perceber o que aconteceu antes. Você vai perceber que aquela situação ocorre com relativa frequência, em situações bastante semelhantes, que vêm acontecendo há um bom tempo. Você simplesmente está se permitindo cair na mesma armadilha outra vez. Poderia evitar essa armadilha com bastante antecedência.

A melhor hora de fazer esse registro é quando acontecer a sensação de desconforto. Tome alguma providência para registrar aquilo. Alguns sábios sugerem, de outro modo, que, antes de dormir, façamos uma reflexão, passando na memória os principais momentos que vivenciamos naquele dia, para registrar numa folha de papel. Fatos que incomodaram, que deram prazer ou de que não queremos esquecer.

O propósito é tratar esses comportamentos que são padrões, para começar a lidar de forma positiva e muda-los. Se você começar, de fato, a desenvolver esse hábito, de prestar mais atenção positiva ao que está fazendo, terá mais chances de evitar as armadilhas habituais (que atrapalham a felicidade).

Thadeu Martins

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Liberdade em jogo

No hinduísmo, há duas palavras essenciais: Dharma e Karma. Uma é a percepção da ordem e do nosso papel nela; a outra é a noção de causa e consequência, em que uma ação provoca outras – muito do que vivemos é resultado de ações anteriores, por nossa conta ou dos outros. Em ambas, a noção de liberdade (Moksha) está presente.

Quando entendemos o Dharma, a ordem, o que se está fazendo em uma determinada situação ou instituição, tudo vai se revelando. E aí, ao mudarmos o modo como lidamos com o ambiente, fica mais fácil e, às vezes, até agradável e divertido.

O cerne da compreensão das atitudes é se perceber na ordem. A partir daí, vamos vivendo os vários personagens e separando o personagem do ator, em nós mesmos e nos outros. Em determinados momentos, não haverá oportunidade para o ator se manifestar, apenas o personagem é quem irá atuar.

Nas organizações, quase sempre isso está presente. Nós ficamos imbuídos de uma certa aura das organizações. As pessoas que não estão amarradas ao ritual nos ajudam a perceber que a aura do ambiente é apenas uma aura. Nós é que acabamos entrando ou não no jogo do ambiente. Vamos perceber quem são aqueles que não conseguem ser ator, com os quais só vamos conseguir lidar de personagem para personagem. Outros são sempre o ator das ações. E nós, dentro das instituições? O quanto estamos só de ator ou só de personagem e em que momento conseguimos sair do personagem e entrar no ator? Esse é um grande desafio.

Ao percebermos o jogo, podemos optar por continuar ou sair dele. Se sairmos, já não haverá necessidade de prestar atenção nele. Se entrarmos, vamos jogar. E isso exclui ficar brigando contra o jogo. Vamos usar as regras, o território, o blefe. Afinal, praticamente todas as atividades humanas são um jogo. Ao percebermos que estamos jogando, a sensação de liberdade aumenta; nesse caso, cabe a nós perceber, de modo cada vez melhor, o jogo e os jogadores. Assim, podemos até nos divertir. Ganhar ou perder é apenas circunstancial. O mais importante é a interação.

No Karma, a liberdade está inteiramente associada à ação, que por sua vez faz parte de uma ordem (Dharma). Ora, como posso trazer o conceito de liberdade para a minha ação? Dizem os sábios que a liberdade na ação é quando a nossa ação independe do quanto vamos nos aproveitar dos resultados dela. Ou seja, é a ação desinteressada. Fazemos porque temos que fazer, porque queremos, porque é válido ou legítimo fazer. E se é para fazer, fazemos bem feito, com dedicação, de verdade. O propósito é a ação em si mesma.

Na compreensão budista, o trabalho teria três utilidades: dar oportunidade de cada um de nós realizar algo em conjunto com outras pessoas, permitir o desenvolvimento e a aplicação de nossas capacidades e obter meios de sobrevivência. A sequência é essa, uma inversão bastante grande daquilo que se vê propalado atualmente, fora do contexto budista. Isso tem muito a ver com Dharma e Karma, principalmente com Karma. Muda por completo o que estamos fazendo. Nessas três perspectivas, aquele que realiza a ação sempre se dará muito bem. Age desinteressado da ação, sem ficar obcecado pelos resultados; mas, ao mesmo tempo, beneficia-se dela.

Essas duas características, sintetizadas pelo Dharma e Karma, são dicas para cada um de nós cultivar a liberdade no cotidiano. Assim, não ficaremos restritos à oportunidade de liberdade apenas em situações especiais, porque estas ocorrem poucas vezes. Afinal, na maior parte do nosso tempo, estamos em ação: jogando o jogo chamado viver (a nossa liberdade).

Thadeu Martins

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Esse desejante objeto do viver

Qual é o propósito da vida? E afinal, há algum propósito em viver? Esse é um tema desafiador. Para alguns, viver está associado a uma missão. Outros usam a palavra propósito. A cada dia me convenço mais que viver é criar oportunidades de realização das motivações.

Para o físico e pesquisador Fritjof Capra, a vida pode ser descrita como um sistema aberto, que faz trocas com o meio ambiente. Essas trocas se destinariam à sobrevivência e ao crescimento do sistema. Aparentemente, o sistema em si não teria propósito nenhum, além da própria sobrevivência.

Ainda segundo essa compreensão, todo sistema vivo caracteriza-se por três aspectos: estrutura física, que constitui os elementos vivos; organização, que relaciona as partes da estrutura; e processo, que faz com que a estrutura realize algo. Viver seria um estado permanente de desequilíbrio, de trocas realizadas por esse sistema.

A vida poderia ser vista sem nenhuma valoração teológica ou teleológica. Não haveria propósito ou motivação para viver, nem viver em si teria qualquer motivação ou propósito.

Se ampliarmos um pouco mais e olharmos para nós mesmos, observaremos várias inquietudes, muitas decorrentes do meio externo. Mas há aquelas que não estão associadas a nada que está acontecendo fora de nós. São inquietudes que brotam. O desejo é a principal categoria dessas inquietudes.

A vida é algo desejante, é desejar. E aqui precisamos diferenciar desejo de vontade. Vontade é uma reação a algo externo; já o desejo apenas brota a partir de nós mesmos. O marqueteiro estimula vontades, provoca reações; a vida faz brotar desejos e iniciativas de seu interior.

Dentro de nós surgem vários desejos. À medida que as circunstâncias permitem, vamos atrás da realização. Claro, o desejar nem sempre é o suficiente. É preciso ter as condições (ou obtê-las). Mas o fato de termos a motivação pode nos levar a fazer. O desejo é a fonte da motivação. E para realizar, temos que viver.

Então, viver é uma disponibilidade que criamos a partir do nosso desejo. É um desejo indeterminado. Não é um desejo de viver. São os desejos que brotam, sejam quais forem, com que propósito, objetivo ou iscas tenham se manifestado. O caminho se faz ao caminhar. A vida segue o desejar!

Daí a importância da não-ação, para refrear o exagero da ação voltada para o mundo exterior. É esse exagero que acaba impedindo o brotar dos desejos, a vida interior. Se ficarmos apenas voltados para fora, para o que está exterior a nós, não daremos espaço para os desejos surgirem; não haverá vida disponível para eles.

Ao abrirmos mão de nossa onipotência, de exagerar no fazer, e à medida que cultivamos a não-ação, entramos num estado ideal para que os desejos brotem de dentro de nós, do nosso íntimo.

O meio externo é uma situação que está absolutamente determinada por um modelo. Mas dentro dele existem várias possibilidades de realização que nada tem a ver com o modelo e que são perfeitamente capazes de brotar. No meio ambiente, por mais consolidado, pode surgir algo imprevisível para a ideologia dominante, para a limitação da época, e que irá surpreender a todos.

Sortudo é quem consegue perceber esses caminhos e curtir.


Thadeu Martins

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O ser e o sono

Muitas pessoas reclamam que têm dificuldade para dormir. Acordam no meio da noite e não conseguem mais cair no sono. No outro dia pela manhã, acordam estressadas e cansadas. A causa da insônia geralmente é a mesma: estão preocupadas, tentando resolver problemas na hora errada.

Aqui vai uma boa notícia para os insones: segundo os hinduístas, não é sempre necessário dormir para descansar (tirar o cansaço). Se por alguma razão você acordar e não conseguir mais dormir, pode manter-se consciente e condicionar-se a não agir. Por exemplo, pode praticar o oposto do agir, do dirigir-se para fora, que é a receptividade, o receber, o sentir.

Se por algum motivo você não consegue mais dormir, que tal permanecer consciente e dedicar-se a simplesmente sentir o próprio corpo? Se você estiver acordado no “horário oficial da insônia”, entre 2h e 6h da madrugada, experimente, durante essas quatro horas, ficar no melhor repouso que alguém pode ter. Você estará consciente, sentindo o próprio corpo, plenamente relaxado, entregue, sem pré-ocupação.

Sentir, nesse caso, é uma forma de meditar. Você pode até se programar para não dormir e ter uma noite ainda mais revigorante: meditando. Ao deitar-se, vá sentindo o seu corpo, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça. Vá “mapeando” mentalmente todo o seu corpo pelo sentimento, percebendo cada parte do seu corpo, inclusive os espaços interiores. Perceba o seu coração, começando pela pulsação, na ponta dos dedos, ou diretamente nos pulsos.

O propósito é a mudança de hábito. Afinal, não mudamos hábitos com facilidade. Mudar de hábito é a coisa mais difícil. Nós só mudamos, de fato, se criarmos um novo hábito e cultivá-lo. Não basta apenas iniciar ou compreender, é preciso também cultivar. O que sugerimos é um novo hábito: não agir, em condições bem favoráveis, na hora em que ninguém está agindo, na hora de dormir.

Com o tempo, vamos desenvolvendo esse novo hábito (do sentir como essência) do não agir, por meio da prática da observação. Vamos abrindo mão da onipotência, do ter que agir. Afinal, não necessitamos de ficar no controle o tempo todo.

Muitos acham que a sua própria existência só é justificada se estiver sempre fazendo algo. Mas e quando não tiver o que fazer? Aí vêm a depressão e a ansiedade. É aquilo que comumente se chama de “vazio interior”. Ora, se alguém sentisse de verdade o vazio, estaria no céu! O que elas sentem é a falta do que fazer. Habituaram-se a ter que fazer algo, como se apenas fazer fosse existir. Atuar é apenas uma parte do viver, não é a principal. Todo fazer é transitório. O não fazer, o ser, é que é permanente. E é isso o que buscamos em Yoga e na meditação.

A notícia ruim desse novo hábito é que você pode perder a oportunidade maravilhosa de se sentir, de meditar, e acabar... dormindo!

Thadeu Martins

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não-agir é agora mesmo

Na filosofia hinduísta, a dualidade do agir e do não-agir é compreendida como algo inicial em nós. O agir é representado pelo nome Prakriti. A característica do não-agir é chamada de Purusha, que no mundo Ocidental é compreendida como alma.

Habitualmente estamos voltados para fora, fazendo atividades que focalizam os outros. Ficamos preocupados com o que pensam de nós: ou porque queremos agradar, ou porque simplesmente não queremos que nos percebam. O fato é que, em todas essas situações, a nossa atenção está voltada para o exterior.

Quem exerce essa atenção é o nosso sujeito das ações. Mas há um sujeito ainda mais anterior, que nem sujeito está a nada: o eu interior, que observa a nós mesmos, que não é o sujeito dos verbos. Podemos dizer que é o sujeito da não-ação.

Ao longo da vida, atuamos, trabalhamos e labutamos. Mas também temos a possibilidade de não-agir, que nada tem a ver com a preguiça. Trata-se de uma disposição de compreender, de não-interferir. Existe aí uma decisão envolvida.

A não-ação significa abrir um pouco mão da nossa onipotência, da nossa capacidade de controlar tudo, e deixar a vida acontecer.

Em resumo, somos vários “eus”, várias personalidades atuando o tempo todo e também um ator ou atriz fundamental, que sequer nome tem e nem precisa ter. Simplesmente é.

Cultivamos a não-ação quando meditamos ou focalizamos a atenção em algo sem ficar julgando, avaliando. Quando isso acontece, somos beneficiados de várias formas. O fato de focalizarmos, de reduzirmos o leque de atenções para um único foco, só isso já exerce um efeito apaziguador e mais ainda, reforçador do sistema imunológico.

O sábio Patanjali sugere como principal opção de meditação que cultivemos o bom humor. Sorrir, lembrar de coisas boas, perceber o que está a nossa disposição. Muitas vezes agimos como aquele que diz: “eu era feliz e não sabia”. Isso acontece demais.

Então, ao cultivarmos o foco de nossa atenção, podemos sorrir, fazendo de nós mesmos a razão de nossa alegria. Isso, socialmente também é muito benéfico. Afinal, quando estamos bem conosco mesmo, é impressionante como todos se aproximam. As pessoas são naturalmente atraídas pelo bom astral. Quem vai querer chegar perto de uma pessoa carrancuda, que trata a todos com patadas?

Não há bem material, status, dinheiro, loteria, nada melhor do que estar bem consigo mesmo, do que estar... normal. Nada é melhor do que estar saudável o tempo todo e cultivar toda potencialidade de felicidade que temos sempre, em vez de ficar adiando a possibilidade de ser feliz para um dia mais especial que hoje (...sobre cuja chegada não temos nenhum controle).

Thadeu Martins

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Agir ou não agir, eis a questão

O nosso ego deve ser encarado como algo prejudicial à nossa evolução? Vale recordar o que aponta a escritora Hannah Arendt, em A Condição Humana. Segundo ela, há três modos de agir na sociedade: labutar, trabalhar e atuar.

Labutar é o que mais fazemos: comemos, dormimos, cuidamos da nossa sobrevivência: o que é absolutamente fundamental. A segunda atividade é o trabalho, quando transformamos algo material em utilidade, um objeto que não existia. A terceira, a atuação, é o que fazemos o tempo todo, ouvindo uns aos outros, falando, articulando pensamentos, cada um com a sua história de vida pessoal.

Essas três atividades exigem o ego, o eu que faz, o sujeito que age, que atua. Esse sujeito de todos os verbos é imprescindível na vida social. Sem ele, nada se concretiza socialmente, nem individualmente.

E, além do ego da ação, existe alguma outra possibilidade? Sim, para a não-ação, que talvez seja tão importante quanto a ação. No estado de não-ação, o ego não tem espaço, não tem oportunidade de interferir na vida; fica em paz (ou poderia ficar).

Só no mundo da não-ação conseguimos ficar fora do espaço-tempo, desse mundo da produção social, e podemos ter in-sights. Se apenas a ação for vista como necessária, estaremos o tempo todo voltados para o lado de fora, e assim não teremos oportunidade de captar quem somos e o que estamos fazendo aqui. Na perspectiva da não-ação, não-interferência, deixa-se a vida seguir por si, abre-se mão da onipotência, do controle sobre tudo e todos, permite-se a receptividade.

Quando praticamos Yoga e meditação, quando também estamos atentos à vida interior, conseguimos perceber as nossas oportunidades de atuação, de trabalho, de labor com outras perspectivas, por exemplo: a da não-ação.

Viver é passar por essas quatro oportunidades, em alguma ordem, conforme as circunstâncias e as nossas percepções de realidade, de tal modo que possamos ter uma vida plena, em que nos sintamos felizes. Mas é importante, por um lado, ter clareza de que se ficarmos apenas no estado de não-ação, não teremos condições materiais de não-agir por muito tempo. Por outro lado, fixar-se em apenas uma dessas oportunidades é desprezar as outras.

O ego, então, é fundamental! Dessas quatro dimensões, ele atua em três. Só não atua no estado de não-ação. Podemos até, na nossa possibilidade de não-ação, dirigir esse ego para ele não ficar fixado apenas no trabalhar, no laborar ou no atuar, para aproveitarmos a grande amplitude de possibilidades, dentro das quais nos realizemos plenamente. Mas cultivar o ego virtuoso é tão importante quanto dirigir automóvel conforme os princípios de “direção defensiva”, pois é ele (o ego) que está “na rua”.

Nenhum ego nasce virtuoso, dizem há tempos os filósofos; ele tem que ser educado para tornar-se virtuoso. Além das circunstâncias e dos nossos muitos educadores, cada um de nós pode cultivar em si o ego virtuoso, quando se percebe na perspectiva da não-ação, aquela que se pode distanciar das pressões e exigências das ações.

Uma boa oportunidade para praticar a não-ação é no momento em que as condições são favoráveis, com menos pressões, como por exemplo, na hora de dormir. Em Yoga, praticamos o agir para desenvolver o não-agir, por exemplo, finalizamos os exercícios com meditação e relaxamento.

Mas o nosso ímpeto de agir é muito forte. Então, pelo menos na hora de dormir, vale à pena fazer o condicionamento da não-ação. Vamos criando o hábito de fazer o ego relaxar-se, entregar-se.

É como se fôssemos mais de um. Na compreensão hinduísta, que adotamos, nós já temos a dualidade básica da ação e da não-ação presente desde o início. Logo, é de se esperar uma possibilidade muito grande de colaboração entre ambas e de caminharmos em direção à não-ação.

À medida que vamos conhecendo nossos vários egos, chegamos ao ponto da consciência do nosso eu próprio, o si mesmo, o self, apaziguado, que está em paz, que não tem que tomar atitudes de interferência. Esse não age, mas é “respeitado”, é a referência que permanece, é sem ter que agir.

O contraponto ao excesso de ação é o que nos permite, em última instância, estarmos em paz. Podemos, no meio do caminho, perceber como é bom e importante abrir mão desse exagero da ação. Parece muito simples: nos livrarmos de alguns condicionamentos e fazer as coisas no cotidiano de uma forma diferente, mais agradável, melhor, dando uma reduzida na nossa onipotência. Mas não é simples assim! Porque somos formados por hábitos que impedem mudanças. O melhor modo de mudar é iniciar e cultivar um novo hábito na direção e sentido que se pretender.

Iniciar e cultivar a “prática” da não-ação pode ser um bom caminho, se aceitarmos a possibilidade de paz, que a não-ação proporciona, e diariamente, antes de dormir, nos imbuirmos dessa paz, sentirmos essa paz no próprio corpo, deixarmo-nos dormir assim... e, quem sabe, irmos descobrindo outras oportunidades de praticar essa paz interior a cada novo dia, enquanto o nosso ego vai agindo virtuosamente.

Thadeu Martins

terça-feira, 21 de abril de 2009

No ritmo da respiração

No livro Yoga Sutra, Patanjali não fala em exercícios ou qualquer atividade física. O que ele sugere mesmo é prestarmos atenção na vida, termos um comportamento social adequado, de modo a sermos incluídos. Se ficarmos à margem, se formos excluídos por alguma razão, enfrentaremos as maiores dificuldades, pois estaremos sozinhos.

Patanjali nos chama atenção que o nosso comportamento social deve ser adequado para que gastemos o mínimo de energia possível. Assim, seremos aceitos e poderemos nos realizar. Se você não tiver um comportamento social adequado, não terá paz, a sua mente não terá sossego, ficará o tempo todo tendo que resolver conflitos.

Mas resolver-se externamente não basta, é preciso se resolver socialmente do lado de dentro, na maneira como lidamos com nossas emoções. Sentimentos negativos, como inveja e cobiça, são absolutamente nefastos do ponto de vista social. Mas só quem pode controlar esses sentimentos é cada um de nós.

Outra atenção importante é a nossa dedicação ao que é necessário, justo, válido. Nós mesmos é que decidimos o quanto e como nos dedicamos ao cultivo da nossa essência, do nosso ser, de relações sociais agradáveis, do bom astral.

Esses são os ensinamentos básicos de Patanjali, de ordem bastante comportamental. O propósito é acalmar a mente. Conforme afirma o lendário sábio indiano, “Yoga é a cessação dos turbilhões da mente”. Ou seja, é aprender a lidar com esses muitos turbilhões. O foco é a mente.

Mas ele explica também que nem só da mente vive o homem. Ele fala sobre a importância do controle da energia. O que fazemos socialmente deve estar baseado nesse controle. Externamente, damos atenção ao modo como atuamos no cotidiano e internamente, ao modo como respiramos.

Patanjali dá um salto do social para a energia, destacando que a atenção deve ir além da economia na comida e na atividade. Afinal, o alimento mais importante para o ser humano é o oxigênio, sem o qual não sobrevivemos além de alguns minutos. Patanjali afirma que o ritmo da nossa respiração é o ritmo da nossa atividade.

A dica é prestar atenção na respiração; respirar de modo silencioso, tranqüilo, adequado à atividade que fazemos; perceber a inspiração, a expiração e adequar a respiração ao ritmo do que estamos fazendo.

Podemos também controlar o nosso corpo para permitir essa situação de calma, de mente tranqüila. A única postura que Patanjali ensinou é esta: fique de modo estável e confortável. E com que propósito? Controlar a mente. Esse é o quarto controle, que vem depois dos controles social, energético (respiração) e do corpo.

E como podemos adquirir esses controles? Por meio da prática, do convencimento de que é importante para a nossa vida a tal ponto de fazermos disso uma estratégia de vida. Muitos artifícios foram criados com esse propósito, entre eles, os exercícios de Hatha Yoga: aquelas posturas, em que sentimos estabilidade, firmeza, conforto; nos quais percebemos nossa respiração tranqüila e a mente calma. Também os exercícios de meditação, em que concentramos a atenção em algo (ou em nós mesmos) e assim permanecemos por algum tempo, apenas atentos e respirando, sem julgar ou analisar os fatos, as coisas, os sentimentos... cada vez mais tranqüilos.

Você pode seguir essas dicas e “inventar” seus próprios exercícios. O principal critério é “sentir-se bem, sem fazer mal a ninguém”: simples assim. Também pode seguir a orientação de um instrutor que lhe transmita confiança, e continuar seguindo o mesmo critério do bem-estar consigo e com os outros. Como se você fosse uma terceira pessoa que se observa em cada ação ou não-ação, em cada situação da vida, e vai sugerindo a si mesma a melhor opção para: a sua alma, sua mente, sua energia, o seu corpo, os seus relacionamentos, os outros mais próximos, e até os mais distantes... A vida vira um jogo bem mais interessante.

Thadeu Martins

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Meditação e nossos cinco corpos

Os modelos explicativos da realidade, como o Yoga, nos trazem paz e segurança. Na medida em que compreendemos um certo ordenamento, conseguimos nos localizar. Essa é uma característica humana desde muito tempo.

O tempo todo nós usamos modelos explicativos da realidade. Em Yoga, adotamos o modelo hinduísta, segundo o qual somos constituídos por cinco corpos: de matéria, de emoções, de significados, de supra-significados e um corpo divino, que está além dos significados. Trata-se de uma compreensão não propriamente de um corpo determinado, mas de um campo que é indeterminado visualmente, como é, por exemplo, o campo gravitacional.

Essa forma de visualização, de compreensão de como nos comportamos, que mistura matéria propriamente dita e aquilo que não é matéria, faz parte de uma antiga discussão da humanidade. Até hoje, de certo modo, procuram-se as substâncias primárias, as partículas fundamentais. Quanto mais se aprofunda a procura dessas partículas, mais se percebe que elas se desdobram.

O modelo explicativo de que temos vários corpos, desde o mais denso até o mais sutil, nos ajuda muito a compreender o exercício de meditação. E como, de certo modo, praticar Yoga é praticar meditação, o modelo acaba sendo muito útil. Mas como é mesmo o processo de meditação? A meditação se realiza em três etapas: concentração, contemplação e transcendência em relação àquilo em que nos concentramos.

O propósito de concentrar-se é desenvolver a dupla capacidade de focalizar algo e simultaneamente testemunhar a si mesmo, de estar pleno na realidade, estar presente, no espaço e no tempo. Pela natureza humana, ao nos concentrarmos em algo, nós desenvolvemos uma identificação com o objeto de nossa concentração. Os físicos também ajudaram a mostrar que não há independência do observado em relação ao observador.

À medida que continuamos nos concentrando, a identificação com a realidade continua, mas depois de certo tempo, ela desaparece. Essa é a chave da meditação, quando nem precisamos mais nos esforçar para concentrar ou contemplar, não há mais dualidade entre nós mesmos e o objeto de observação. O observador e o objeto passam a formar uma coisa só. Percebemos a mudança em nós mesmos. É o chamado estado de Samadhi, de transcendência da dualidade. Claro que estou falando de um modo bastante alegórico para cada um transformar isso na sua própria percepção.

E qual é a relação dos cinco corpos com a meditação? Vamos antes lá para o Livro Tibetano dos Mortos. Pois o processo de meditar tem suas semelhanças com o de morrer. Segundo esse livro, ao morrermos, passamos por cinco estágios: negamos a realidade, percebemos que é real, começamos a nos adaptar à realidade, aceitamos e prosseguimos com ela. Há, inclusive, inúmeros relatos de pessoas que passaram por experiências de quase-morte que correspondem aos cinco estágios do Livro Tibetano dos Mortos. Primeiramente, passa-se um filme mental, em alta velocidade, com cada etapa da nossa vida, que é uma forma de transição para uma próxima etapa.

E aí entram os cinco campos, os cinco corpos. No primeiro momento do morrer, assim como no primeiro momento da meditação, vamos nos afastando do corpo-matéria, do corpo feito de comida. O emocional continua acontecendo durante algum tempo após a morte, segundo os tibetanos. Sentimos emoções, sentimentos confusos, segundo relatos. Apaziguados os sentimentos, permanece a compreensão daquilo que está acontecendo, da transição. Estamos no corpo/campo dos significados. Quando saímos da dimensão espaço-tempo, o acesso aos significados torna-se completamente diferente. Já não faz mais sentido o tempo, a compreensão linear do universo, da vida. Passamos aos supra-significados, das imagens ancestrais e arquétipos, que formam a nossa cultura. E o que acontece depois? Aí nem mais identidade há. Desaguamos num campo absolutamente espiritual, indeterminado, do supra-sutil.

Quando finalmente chegamos a esse campo, passamos a compreender os significados, os meta-significados, os códigos e o princípio divino.

Os cinco corpo/campos e a técnica de meditação fazem parte de um modelo explicativo que indica a possibilidade de nos descolarmos um pouco de condicionamentos muito fortes para passarmos a ver a realidade de uma forma menos restritiva, na qual até mesmo o espaço-tempo seja percebido de uma forma relativista. Assim, cada um de nós vai desenvolvendo a habilidade de transcender à dimensão do espaço-tempo, de lidar com o mundo que não é determinado por relações sociais para ir mais perto da essência que não se modifica, a qual os hinduístas chamam de Purusha e que está em todos nós. Não precisamos esperar morrer para nos libertarmos, como a alma que se liberta da cidade (na compreensão original dos gregos antigos).

Meditar é cultivar a possibilidade expressa pela palavra indiana: Moksha. Significa libertação em Sânscrito. É libertação, agora em vida, desta teia de conceitos culturais que tornam a vida muito limitada. Não há por que se fixar em circunstâncias, preocupar-se demais com algo, por muito tempo, pois tudo é transitório, tudo passa; em geral com velocidades distintas para cada um, em função da sua história pessoal.

A possibilidade de aproveitar a idéia de praticar meditação e o exercício de identificar-se com cada um dos cinco corpos, por meio de objetos (materiais, ou representativos de emoções, ou de conceitos atuais, ou de conceitos antigos, ou de inspiração espiritual) pode trazer uma nova e mais agradável maneira de cultivar a felicidade. Isso nem depende de muito poder aquisitivo ou de tecnologias complicadas, mas, em algum momento, vale começar... e prosseguir.

Thadeu Martins

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

De mente numa boa

Yoga é uma estratégia de vida, um modo de viver. É uma compreensão de que nós somos mentais, de uma forma acentuada; interpretamos a vida e a própria realidade; a nossa vida é mentalizada, é intermediada por um modelo mental.

Então, a proposta do Yoga, e de outras práticas indianas, é de compreensão dessa explicação da vida e do ato de viver, de tal modo que possamos apreender a realidade – mesmo que seja por intermédio da mente, já que para nós não há outra possibilidade -, mas compreendendo melhor, até para saber que estamos diante de uma vida intermediada.

Podemos afirmar que há um objetivo de compreensão da vida, tendo por princípio que somos mentais, e que esta nossa mente tanto pode nos propiciar grandes armadilhas quanto a grande clareza de saber que vemos tudo por intermédio dessa mente e que, portanto, deveríamos ter mais cuidado nessa compreensão.

Ao nos aprofundarmos nos sutras de Patanjali, vamos percebendo que ele sai dessa constatação da intermediação da mente e dos modelos ilusórios, para uma possibilidade de aproximação muito grande da realidade com o mínimo de intermediação. Isso se dará com a mente, em estado de serenidade, que se percebe como intermediadora, quase transparente.

Para exemplificar, é como se, na realidade em que vivemos, pela educação circunstancial que o ambiente no qual fomos criados nos deu, fôssemos formando lentes para perceber a realidade. Com o tempo e alguma dedicação, podemos ir polindo essas lentes grosseiras a ponto de elas se transformarem em quase transparentes, cristalinas. Assim, teremos uma visão da realidade como ela (quase) é para vivê-la como ela (quase) é, em sua plenitude.

Quando o sábio Patanjali afirma que Yoga é controle mental, é a cessação dos turbilhões da mente, ele está indicando uma possibilidade de escolher-se a quantidade de atenção que se quer dar, seja para a “realidade” social, seja para a percepção “plena” da realidade. Ele sugere um modo de viver que considera a condição humana de escolher o modo de dedicar-se às circunstâncias e evitar ser apenas levado pelas circunstâncias.

Esclarece, portanto, a possibilidade de liberdade máxima nesta vida, liberação, “moksha”, por intermédio da nossa mente, em relação às infindáveis, incessantes, solicitações sociais; mesmo aquelas que brotam por si mesmas dentro de nós.

Os gregos contemporâneos de Platão conceberam a alma como aquela que se liberta da cidade, das pressões sociais. Mas não precisamos esperar até a morte para curtir essa possibilidade. A nossa alma já está presente conosco agora. A nossa mente pode ajudar muito a lidar positivamente com a realidade social, de modo que todo mundo nos ache normais, mas com algo mais de tranqüilidade, firmeza, bom astral, presença íntegra, sentindo e transmitindo plenitude.

Thadeu Martins

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Simplesmente Yoga

O Hatha Yoga surge ali pelo século XIV, por um texto que lhe tem por título (Hatha Yoga Pradipika) e um presumido autor, Svatmarana. Propõe um caminho de desenvolvimento espiritual e prática integradora de posturas, controles de energia e respiração, que seriam propiciadores da realização espiritual pelo esforço físico acentuado: tem raízes tântricas (como quase toda a espiritualidade hinduísta). Veio a tornar-se bem popular, talvez pela ênfase corpórea, menos reflexiva, menos cognitiva, mais acessível em geral.

Com exceção das linhas de Yoga devocional (Hare Krishna, Sida Yoga...) quase todas as "escolas" de Yoga atuais ensinam alguma forma simplificada de Hatha Yoga (pois as práticas originais são tão exigentes, que raríssimos conseguiriam realizá-las). Essas escolas vão acrescentando algumas características próprias, seja pela tradição que as originou, seja pela inserção cultural ou mercadológica em que se instalam, ou por outras possibilidades de diferenciação mais eventuais. Mas a ênfase é, de modo geral, o esforço físico, disciplinado, com intenção de alcance de condições superiores de saúde física (e eventualmente em termos espirituais, com a amplitude que essa palavra pode contemplar).

O Yoga Clássico seria mais originalmente referido apenas como Yoga. Surge em torno do início da era cristã (entre os séculos IV a.C. e IV d.C.), o chamado período axial da humanidade (diria o historiador Toynbee). O texto que lhe marca a origem é o Yoga Sutra, do legendário (porque também se marca pela indeterminação histórica) Patanjali (se diz patânjali), que o escreve em aforismos, 195 deles, e expressa o que, à sua época, era tido como "o conhecimento de Yoga". Portanto, mesmo sem ser originário, marca um início que resume a tradição e assim passa a ser denominado "clássico".

Não traz nenhuma ênfase física, trata da compreensão da mente e suas manifestações, do lidar com ela para viver plenamente, do lidar com o mundo social para libertar-se dele, nele vivendo. Portanto, trata da alma ("aquela que se liberta da cidade", diria Platão, potencial contemporâneo de Patanjali).

Indica para "exercício", um código de comportamento, atitudes e posturas que acentuam a atenção e consciência, controles de energia (por via da respiração) que acentuam a atenção e consciência, introspecção, concentração, contemplação e transcendência das dualidades.

A transmissão do Yoga, na forma clássica, veio a incluir textos de comentaristas tão legendários como o autor citado, e que acrescentaram interpretações facilitadoras e ampliadoras para a compreensão do texto original. Eles foram fazendo uma síntese das seis principais escolas ortodoxas hinduístas (Yoga sendo uma delas), de modo a referenciar cada aforismo de Patanjali ao conhecimento tradicional, e viabilizar sua aceitação, prática e inserção cultural.

Fez parte dessa inserção a inclusão de "exercícios físicos", cujo surgimento foi cronológico e em parte se confunde com a prática simplificada dos exercícios de Hatha Yoga, porém, com ênfase na estabilidade, no conforto, na aceitação gradual dos próprios limites dos praticantes, de modo que os exercícios propiciem: desenvolvimento de atitudes, plena atenção, consciência no viver no mundo com os outros.

Há quem prefira, na mesma Índia, denominar isso tudo como Raja Yoga (raja querendo dizer real, transformador, superior, verdadeiro). As iniciais denominações: Raja Yoga, Bakti Yoga, Karma Yoga, Jñaña Yoga (a real, a devocional, a da ação, a do conhecimento). Essas vêm ganhando inúmeras co-denominações, entre elas a generalizadora Yoga Clássica. Mas talvez já se esteja passando da saturação nominativa. Melhor talvez seria dizer como o Marcos Shultz (de Florianópolis): "simplesmente Yoga".

Devo dizer que a tradição, à qual tive acesso inicialmente, do The Yoga Institute, do saudosamente respeitado em toda a Índia Shri Yogendra, de Mumbay, enfatizava o estudo e a prática do Raja Yoga, bem como a aplicação simplificada do Hatha Yoga. O que bem caracteriza a atualidade do Yoga Clássico. A fundação do The Yoga Institute em 1918, marca o que se chamou na Índia de o renascimento do Yoga, em completa inserção com o movimento de recuperação cultural, que veio a resultar na independência e no reconhecimento internacional indiano.

Para mim, foi uma grande sorte ter conhecido aquele sábio e o PhD. Jayadeva Yogendra, filho caçula do velho mestre, prosseguidor de seu trabalho fundador e que me orientou no Yoga Clássico.

Thadeu Martins

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O som primordial

Na tradição hinduísta, OM significa literalmente o nome de Deus. Mas há uma enorme diferença na concepção do que é divino ou humano entre o hinduísmo e as tradições ocidentais. Nestas últimas, há uma separação entre a divindade e os seres humanos. No hinduísmo, não há essa separação entre o divino e qualquer outro entendimento que se tenha daquilo que existe.

Na compreensão hinduísta, tudo o que existe é divino, a existência é um atributo da divindade. Isso cria uma diferença extraordinária no modo de perceber a vida. Não há, por exemplo, pecado original; se existe algum paraíso, a Terra Prometida, o Jardim do Éden, ele está dentro de nós mesmos.

Para representar o som primordial, a divindade que há em nós, os hinduístas conceberam o OM. Som que condensa todos os sons, desde o emitido com a boca mais aberta, “A”, àquele com a boca fechada, “M”. O todo que é tudo e tudo determina, que é a divindade, é assim representado com um som que abrange todo o espectro sonoro. A modularização do som aberto para o fechado é feita com a letra “U”. A emissão desses sons ao mesmo tempo, resulta “AUM”, que soa como “OM”, em que o som vai-se nasalando, ao sair apenas pelo nariz.

A origem dessa compreensão se dá na Índia milenar, na região do extinto rio Sarasvati, quando se estabelecem os primeiros registros de textos mais famosos, considerados sagrados no hinduísmo, os Vedas, considerados a expressão dos deuses.

Então, o OM está associado a uma linguagem, a um sistema de valores, de compreensão do mundo, da vida e de tudo. Nessa compreensão, há um princípio divino (Purusha), que tudo determina e está presente em tudo. Não há separação entre manifestação e não-manifestação. Tudo tem natureza divina, que não é personificada – embora a natureza humana personifique tudo, inclusive na Índia (mas não há representação da totalidade divina).

Basicamente, OM é divindade e uma forma de mantra, pois é um som repetido de modo regular para criar uma sintonia, uma harmonização. É um mantra primordial, o primeiro de todos, pois com ele se busca a harmonização de você com o você essencial. O propósito é a sua harmonização, você estar em si. Quanto mais você se torna autêntico, mais vive a sua vida com autenticidade, muito mais terá a dar, mais será original a sua contribuição ao viver.

Então, o OM é um dos exercícios de aproximação de nós conosco mesmos, de prestar-se atenção em si, no corpo, nos sentimentos e até no que é anterior aos sentimentos. Enquanto o OM estiver vibrando dentro de nós, no nosso íntimo, estaremos com a atenção próxima da divindade, desse algo tão sutil que nem precisa materializar-se para ser percebido.

Essa compreensão do hinduísmo tornou-se bastante complexa. Os hinduístas e mais tarde os taoístas perceberam que há vários caminhos sutis, dentro de nós, pelos quais a energia flui e se manifesta. São chamados de Nadis. A tradição ocidental, desde os gregos, refere-se ao sistema nervoso. A medicina chinesa, por sua vez, compreende pelo menos 14 caminhos (meridianos) de circulação de energia. Os precursores perceberam também que dentro de nós existem locais onde essas energias se concentram para se espalharem. São como anéis rodoviários, anéis circulares, os Chakras (círculos) dos indianos.

Perceberam-se pelo menos sete Chakras. O primeiro distribui energia para o sistema estrutural (ósseo), fica na base da coluna (região do períneo); o segundo está associado à capacidade de concepção, das funções sexuais (fica abaixo dos rins), o terceiro é relativo às funções digestivas (na altura do umbigo). Esses três Chakras estão associados a uma manifestação mais substantiva, mais densa, da energia, à matéria propriamente dita. O quarto Chakra é de transformação do material no sutil, que é o Chakra do coração, que é considerado a sede da emoção com significado. O quinto está associado à garganta, à expressão desse sentimento com significado. O sexto Chakra fica localizado na região do cérebro (altura das sobrancelhas), sede dos significados e dos supra-significados. Já o sétimo Chakra estaria além do corpo, logo acima, é o corpo divino, o sutil, o espiritual. É chamado de Chakra das Mil Pétalas. Está na transição do mental para o espiritual.

A idéia de emitir o mantra OM por sete vezes, um OM para cada um desses sete Chakras, tem o propósito de nos manter íntegros, numa sintonia plena, numa totalidade para nos harmonizarmos e assim nos prepararmos para atuar na vida social. Vibramos com o som primordial OM para provocar uma dança interna e deixar os bilhões de células em harmonia divina. Passamos a perceber a realidade em uma dimensão mais apropriada. Em que tudo é bem mais simplesmente extraordinário e transitório... como deve mesmo ser.

Thadeu Martins