sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Simplesmente Yoga

O Hatha Yoga surge ali pelo século XIV, por um texto que lhe tem por título (Hatha Yoga Pradipika) e um presumido autor, Svatmarana. Propõe um caminho de desenvolvimento espiritual e prática integradora de posturas, controles de energia e respiração, que seriam propiciadores da realização espiritual pelo esforço físico acentuado: tem raízes tântricas (como quase toda a espiritualidade hinduísta). Veio a tornar-se bem popular, talvez pela ênfase corpórea, menos reflexiva, menos cognitiva, mais acessível em geral.

Com exceção das linhas de Yoga devocional (Hare Krishna, Sida Yoga...) quase todas as "escolas" de Yoga atuais ensinam alguma forma simplificada de Hatha Yoga (pois as práticas originais são tão exigentes, que raríssimos conseguiriam realizá-las). Essas escolas vão acrescentando algumas características próprias, seja pela tradição que as originou, seja pela inserção cultural ou mercadológica em que se instalam, ou por outras possibilidades de diferenciação mais eventuais. Mas a ênfase é, de modo geral, o esforço físico, disciplinado, com intenção de alcance de condições superiores de saúde física (e eventualmente em termos espirituais, com a amplitude que essa palavra pode contemplar).

O Yoga Clássico seria mais originalmente referido apenas como Yoga. Surge em torno do início da era cristã (entre os séculos IV a.C. e IV d.C.), o chamado período axial da humanidade (diria o historiador Toynbee). O texto que lhe marca a origem é o Yoga Sutra, do legendário (porque também se marca pela indeterminação histórica) Patanjali (se diz patânjali), que o escreve em aforismos, 195 deles, e expressa o que, à sua época, era tido como "o conhecimento de Yoga". Portanto, mesmo sem ser originário, marca um início que resume a tradição e assim passa a ser denominado "clássico".

Não traz nenhuma ênfase física, trata da compreensão da mente e suas manifestações, do lidar com ela para viver plenamente, do lidar com o mundo social para libertar-se dele, nele vivendo. Portanto, trata da alma ("aquela que se liberta da cidade", diria Platão, potencial contemporâneo de Patanjali).

Indica para "exercício", um código de comportamento, atitudes e posturas que acentuam a atenção e consciência, controles de energia (por via da respiração) que acentuam a atenção e consciência, introspecção, concentração, contemplação e transcendência das dualidades.

A transmissão do Yoga, na forma clássica, veio a incluir textos de comentaristas tão legendários como o autor citado, e que acrescentaram interpretações facilitadoras e ampliadoras para a compreensão do texto original. Eles foram fazendo uma síntese das seis principais escolas ortodoxas hinduístas (Yoga sendo uma delas), de modo a referenciar cada aforismo de Patanjali ao conhecimento tradicional, e viabilizar sua aceitação, prática e inserção cultural.

Fez parte dessa inserção a inclusão de "exercícios físicos", cujo surgimento foi cronológico e em parte se confunde com a prática simplificada dos exercícios de Hatha Yoga, porém, com ênfase na estabilidade, no conforto, na aceitação gradual dos próprios limites dos praticantes, de modo que os exercícios propiciem: desenvolvimento de atitudes, plena atenção, consciência no viver no mundo com os outros.

Há quem prefira, na mesma Índia, denominar isso tudo como Raja Yoga (raja querendo dizer real, transformador, superior, verdadeiro). As iniciais denominações: Raja Yoga, Bakti Yoga, Karma Yoga, Jñaña Yoga (a real, a devocional, a da ação, a do conhecimento). Essas vêm ganhando inúmeras co-denominações, entre elas a generalizadora Yoga Clássica. Mas talvez já se esteja passando da saturação nominativa. Melhor talvez seria dizer como o Marcos Shultz (de Florianópolis): "simplesmente Yoga".

Devo dizer que a tradição, à qual tive acesso inicialmente, do The Yoga Institute, do saudosamente respeitado em toda a Índia Shri Yogendra, de Mumbay, enfatizava o estudo e a prática do Raja Yoga, bem como a aplicação simplificada do Hatha Yoga. O que bem caracteriza a atualidade do Yoga Clássico. A fundação do The Yoga Institute em 1918, marca o que se chamou na Índia de o renascimento do Yoga, em completa inserção com o movimento de recuperação cultural, que veio a resultar na independência e no reconhecimento internacional indiano.

Para mim, foi uma grande sorte ter conhecido aquele sábio e o PhD. Jayadeva Yogendra, filho caçula do velho mestre, prosseguidor de seu trabalho fundador e que me orientou no Yoga Clássico.

Thadeu Martins

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O som primordial

Na tradição hinduísta, OM significa literalmente o nome de Deus. Mas há uma enorme diferença na concepção do que é divino ou humano entre o hinduísmo e as tradições ocidentais. Nestas últimas, há uma separação entre a divindade e os seres humanos. No hinduísmo, não há essa separação entre o divino e qualquer outro entendimento que se tenha daquilo que existe.

Na compreensão hinduísta, tudo o que existe é divino, a existência é um atributo da divindade. Isso cria uma diferença extraordinária no modo de perceber a vida. Não há, por exemplo, pecado original; se existe algum paraíso, a Terra Prometida, o Jardim do Éden, ele está dentro de nós mesmos.

Para representar o som primordial, a divindade que há em nós, os hinduístas conceberam o OM. Som que condensa todos os sons, desde o emitido com a boca mais aberta, “A”, àquele com a boca fechada, “M”. O todo que é tudo e tudo determina, que é a divindade, é assim representado com um som que abrange todo o espectro sonoro. A modularização do som aberto para o fechado é feita com a letra “U”. A emissão desses sons ao mesmo tempo, resulta “AUM”, que soa como “OM”, em que o som vai-se nasalando, ao sair apenas pelo nariz.

A origem dessa compreensão se dá na Índia milenar, na região do extinto rio Sarasvati, quando se estabelecem os primeiros registros de textos mais famosos, considerados sagrados no hinduísmo, os Vedas, considerados a expressão dos deuses.

Então, o OM está associado a uma linguagem, a um sistema de valores, de compreensão do mundo, da vida e de tudo. Nessa compreensão, há um princípio divino (Purusha), que tudo determina e está presente em tudo. Não há separação entre manifestação e não-manifestação. Tudo tem natureza divina, que não é personificada – embora a natureza humana personifique tudo, inclusive na Índia (mas não há representação da totalidade divina).

Basicamente, OM é divindade e uma forma de mantra, pois é um som repetido de modo regular para criar uma sintonia, uma harmonização. É um mantra primordial, o primeiro de todos, pois com ele se busca a harmonização de você com o você essencial. O propósito é a sua harmonização, você estar em si. Quanto mais você se torna autêntico, mais vive a sua vida com autenticidade, muito mais terá a dar, mais será original a sua contribuição ao viver.

Então, o OM é um dos exercícios de aproximação de nós conosco mesmos, de prestar-se atenção em si, no corpo, nos sentimentos e até no que é anterior aos sentimentos. Enquanto o OM estiver vibrando dentro de nós, no nosso íntimo, estaremos com a atenção próxima da divindade, desse algo tão sutil que nem precisa materializar-se para ser percebido.

Essa compreensão do hinduísmo tornou-se bastante complexa. Os hinduístas e mais tarde os taoístas perceberam que há vários caminhos sutis, dentro de nós, pelos quais a energia flui e se manifesta. São chamados de Nadis. A tradição ocidental, desde os gregos, refere-se ao sistema nervoso. A medicina chinesa, por sua vez, compreende pelo menos 14 caminhos (meridianos) de circulação de energia. Os precursores perceberam também que dentro de nós existem locais onde essas energias se concentram para se espalharem. São como anéis rodoviários, anéis circulares, os Chakras (círculos) dos indianos.

Perceberam-se pelo menos sete Chakras. O primeiro distribui energia para o sistema estrutural (ósseo), fica na base da coluna (região do períneo); o segundo está associado à capacidade de concepção, das funções sexuais (fica abaixo dos rins), o terceiro é relativo às funções digestivas (na altura do umbigo). Esses três Chakras estão associados a uma manifestação mais substantiva, mais densa, da energia, à matéria propriamente dita. O quarto Chakra é de transformação do material no sutil, que é o Chakra do coração, que é considerado a sede da emoção com significado. O quinto está associado à garganta, à expressão desse sentimento com significado. O sexto Chakra fica localizado na região do cérebro (altura das sobrancelhas), sede dos significados e dos supra-significados. Já o sétimo Chakra estaria além do corpo, logo acima, é o corpo divino, o sutil, o espiritual. É chamado de Chakra das Mil Pétalas. Está na transição do mental para o espiritual.

A idéia de emitir o mantra OM por sete vezes, um OM para cada um desses sete Chakras, tem o propósito de nos manter íntegros, numa sintonia plena, numa totalidade para nos harmonizarmos e assim nos prepararmos para atuar na vida social. Vibramos com o som primordial OM para provocar uma dança interna e deixar os bilhões de células em harmonia divina. Passamos a perceber a realidade em uma dimensão mais apropriada. Em que tudo é bem mais simplesmente extraordinário e transitório... como deve mesmo ser.

Thadeu Martins