sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

De mente numa boa

Yoga é uma estratégia de vida, um modo de viver. É uma compreensão de que nós somos mentais, de uma forma acentuada; interpretamos a vida e a própria realidade; a nossa vida é mentalizada, é intermediada por um modelo mental.

Então, a proposta do Yoga, e de outras práticas indianas, é de compreensão dessa explicação da vida e do ato de viver, de tal modo que possamos apreender a realidade – mesmo que seja por intermédio da mente, já que para nós não há outra possibilidade -, mas compreendendo melhor, até para saber que estamos diante de uma vida intermediada.

Podemos afirmar que há um objetivo de compreensão da vida, tendo por princípio que somos mentais, e que esta nossa mente tanto pode nos propiciar grandes armadilhas quanto a grande clareza de saber que vemos tudo por intermédio dessa mente e que, portanto, deveríamos ter mais cuidado nessa compreensão.

Ao nos aprofundarmos nos sutras de Patanjali, vamos percebendo que ele sai dessa constatação da intermediação da mente e dos modelos ilusórios, para uma possibilidade de aproximação muito grande da realidade com o mínimo de intermediação. Isso se dará com a mente, em estado de serenidade, que se percebe como intermediadora, quase transparente.

Para exemplificar, é como se, na realidade em que vivemos, pela educação circunstancial que o ambiente no qual fomos criados nos deu, fôssemos formando lentes para perceber a realidade. Com o tempo e alguma dedicação, podemos ir polindo essas lentes grosseiras a ponto de elas se transformarem em quase transparentes, cristalinas. Assim, teremos uma visão da realidade como ela (quase) é para vivê-la como ela (quase) é, em sua plenitude.

Quando o sábio Patanjali afirma que Yoga é controle mental, é a cessação dos turbilhões da mente, ele está indicando uma possibilidade de escolher-se a quantidade de atenção que se quer dar, seja para a “realidade” social, seja para a percepção “plena” da realidade. Ele sugere um modo de viver que considera a condição humana de escolher o modo de dedicar-se às circunstâncias e evitar ser apenas levado pelas circunstâncias.

Esclarece, portanto, a possibilidade de liberdade máxima nesta vida, liberação, “moksha”, por intermédio da nossa mente, em relação às infindáveis, incessantes, solicitações sociais; mesmo aquelas que brotam por si mesmas dentro de nós.

Os gregos contemporâneos de Platão conceberam a alma como aquela que se liberta da cidade, das pressões sociais. Mas não precisamos esperar até a morte para curtir essa possibilidade. A nossa alma já está presente conosco agora. A nossa mente pode ajudar muito a lidar positivamente com a realidade social, de modo que todo mundo nos ache normais, mas com algo mais de tranqüilidade, firmeza, bom astral, presença íntegra, sentindo e transmitindo plenitude.

Thadeu Martins