quarta-feira, 1 de abril de 2009

Meditação e nossos cinco corpos

Os modelos explicativos da realidade, como o Yoga, nos trazem paz e segurança. Na medida em que compreendemos um certo ordenamento, conseguimos nos localizar. Essa é uma característica humana desde muito tempo.

O tempo todo nós usamos modelos explicativos da realidade. Em Yoga, adotamos o modelo hinduísta, segundo o qual somos constituídos por cinco corpos: de matéria, de emoções, de significados, de supra-significados e um corpo divino, que está além dos significados. Trata-se de uma compreensão não propriamente de um corpo determinado, mas de um campo que é indeterminado visualmente, como é, por exemplo, o campo gravitacional.

Essa forma de visualização, de compreensão de como nos comportamos, que mistura matéria propriamente dita e aquilo que não é matéria, faz parte de uma antiga discussão da humanidade. Até hoje, de certo modo, procuram-se as substâncias primárias, as partículas fundamentais. Quanto mais se aprofunda a procura dessas partículas, mais se percebe que elas se desdobram.

O modelo explicativo de que temos vários corpos, desde o mais denso até o mais sutil, nos ajuda muito a compreender o exercício de meditação. E como, de certo modo, praticar Yoga é praticar meditação, o modelo acaba sendo muito útil. Mas como é mesmo o processo de meditação? A meditação se realiza em três etapas: concentração, contemplação e transcendência em relação àquilo em que nos concentramos.

O propósito de concentrar-se é desenvolver a dupla capacidade de focalizar algo e simultaneamente testemunhar a si mesmo, de estar pleno na realidade, estar presente, no espaço e no tempo. Pela natureza humana, ao nos concentrarmos em algo, nós desenvolvemos uma identificação com o objeto de nossa concentração. Os físicos também ajudaram a mostrar que não há independência do observado em relação ao observador.

À medida que continuamos nos concentrando, a identificação com a realidade continua, mas depois de certo tempo, ela desaparece. Essa é a chave da meditação, quando nem precisamos mais nos esforçar para concentrar ou contemplar, não há mais dualidade entre nós mesmos e o objeto de observação. O observador e o objeto passam a formar uma coisa só. Percebemos a mudança em nós mesmos. É o chamado estado de Samadhi, de transcendência da dualidade. Claro que estou falando de um modo bastante alegórico para cada um transformar isso na sua própria percepção.

E qual é a relação dos cinco corpos com a meditação? Vamos antes lá para o Livro Tibetano dos Mortos. Pois o processo de meditar tem suas semelhanças com o de morrer. Segundo esse livro, ao morrermos, passamos por cinco estágios: negamos a realidade, percebemos que é real, começamos a nos adaptar à realidade, aceitamos e prosseguimos com ela. Há, inclusive, inúmeros relatos de pessoas que passaram por experiências de quase-morte que correspondem aos cinco estágios do Livro Tibetano dos Mortos. Primeiramente, passa-se um filme mental, em alta velocidade, com cada etapa da nossa vida, que é uma forma de transição para uma próxima etapa.

E aí entram os cinco campos, os cinco corpos. No primeiro momento do morrer, assim como no primeiro momento da meditação, vamos nos afastando do corpo-matéria, do corpo feito de comida. O emocional continua acontecendo durante algum tempo após a morte, segundo os tibetanos. Sentimos emoções, sentimentos confusos, segundo relatos. Apaziguados os sentimentos, permanece a compreensão daquilo que está acontecendo, da transição. Estamos no corpo/campo dos significados. Quando saímos da dimensão espaço-tempo, o acesso aos significados torna-se completamente diferente. Já não faz mais sentido o tempo, a compreensão linear do universo, da vida. Passamos aos supra-significados, das imagens ancestrais e arquétipos, que formam a nossa cultura. E o que acontece depois? Aí nem mais identidade há. Desaguamos num campo absolutamente espiritual, indeterminado, do supra-sutil.

Quando finalmente chegamos a esse campo, passamos a compreender os significados, os meta-significados, os códigos e o princípio divino.

Os cinco corpo/campos e a técnica de meditação fazem parte de um modelo explicativo que indica a possibilidade de nos descolarmos um pouco de condicionamentos muito fortes para passarmos a ver a realidade de uma forma menos restritiva, na qual até mesmo o espaço-tempo seja percebido de uma forma relativista. Assim, cada um de nós vai desenvolvendo a habilidade de transcender à dimensão do espaço-tempo, de lidar com o mundo que não é determinado por relações sociais para ir mais perto da essência que não se modifica, a qual os hinduístas chamam de Purusha e que está em todos nós. Não precisamos esperar morrer para nos libertarmos, como a alma que se liberta da cidade (na compreensão original dos gregos antigos).

Meditar é cultivar a possibilidade expressa pela palavra indiana: Moksha. Significa libertação em Sânscrito. É libertação, agora em vida, desta teia de conceitos culturais que tornam a vida muito limitada. Não há por que se fixar em circunstâncias, preocupar-se demais com algo, por muito tempo, pois tudo é transitório, tudo passa; em geral com velocidades distintas para cada um, em função da sua história pessoal.

A possibilidade de aproveitar a idéia de praticar meditação e o exercício de identificar-se com cada um dos cinco corpos, por meio de objetos (materiais, ou representativos de emoções, ou de conceitos atuais, ou de conceitos antigos, ou de inspiração espiritual) pode trazer uma nova e mais agradável maneira de cultivar a felicidade. Isso nem depende de muito poder aquisitivo ou de tecnologias complicadas, mas, em algum momento, vale começar... e prosseguir.

Thadeu Martins