quinta-feira, 28 de maio de 2009

Agir ou não agir, eis a questão

O nosso ego deve ser encarado como algo prejudicial à nossa evolução? Vale recordar o que aponta a escritora Hannah Arendt, em A Condição Humana. Segundo ela, há três modos de agir na sociedade: labutar, trabalhar e atuar.

Labutar é o que mais fazemos: comemos, dormimos, cuidamos da nossa sobrevivência: o que é absolutamente fundamental. A segunda atividade é o trabalho, quando transformamos algo material em utilidade, um objeto que não existia. A terceira, a atuação, é o que fazemos o tempo todo, ouvindo uns aos outros, falando, articulando pensamentos, cada um com a sua história de vida pessoal.

Essas três atividades exigem o ego, o eu que faz, o sujeito que age, que atua. Esse sujeito de todos os verbos é imprescindível na vida social. Sem ele, nada se concretiza socialmente, nem individualmente.

E, além do ego da ação, existe alguma outra possibilidade? Sim, para a não-ação, que talvez seja tão importante quanto a ação. No estado de não-ação, o ego não tem espaço, não tem oportunidade de interferir na vida; fica em paz (ou poderia ficar).

Só no mundo da não-ação conseguimos ficar fora do espaço-tempo, desse mundo da produção social, e podemos ter in-sights. Se apenas a ação for vista como necessária, estaremos o tempo todo voltados para o lado de fora, e assim não teremos oportunidade de captar quem somos e o que estamos fazendo aqui. Na perspectiva da não-ação, não-interferência, deixa-se a vida seguir por si, abre-se mão da onipotência, do controle sobre tudo e todos, permite-se a receptividade.

Quando praticamos Yoga e meditação, quando também estamos atentos à vida interior, conseguimos perceber as nossas oportunidades de atuação, de trabalho, de labor com outras perspectivas, por exemplo: a da não-ação.

Viver é passar por essas quatro oportunidades, em alguma ordem, conforme as circunstâncias e as nossas percepções de realidade, de tal modo que possamos ter uma vida plena, em que nos sintamos felizes. Mas é importante, por um lado, ter clareza de que se ficarmos apenas no estado de não-ação, não teremos condições materiais de não-agir por muito tempo. Por outro lado, fixar-se em apenas uma dessas oportunidades é desprezar as outras.

O ego, então, é fundamental! Dessas quatro dimensões, ele atua em três. Só não atua no estado de não-ação. Podemos até, na nossa possibilidade de não-ação, dirigir esse ego para ele não ficar fixado apenas no trabalhar, no laborar ou no atuar, para aproveitarmos a grande amplitude de possibilidades, dentro das quais nos realizemos plenamente. Mas cultivar o ego virtuoso é tão importante quanto dirigir automóvel conforme os princípios de “direção defensiva”, pois é ele (o ego) que está “na rua”.

Nenhum ego nasce virtuoso, dizem há tempos os filósofos; ele tem que ser educado para tornar-se virtuoso. Além das circunstâncias e dos nossos muitos educadores, cada um de nós pode cultivar em si o ego virtuoso, quando se percebe na perspectiva da não-ação, aquela que se pode distanciar das pressões e exigências das ações.

Uma boa oportunidade para praticar a não-ação é no momento em que as condições são favoráveis, com menos pressões, como por exemplo, na hora de dormir. Em Yoga, praticamos o agir para desenvolver o não-agir, por exemplo, finalizamos os exercícios com meditação e relaxamento.

Mas o nosso ímpeto de agir é muito forte. Então, pelo menos na hora de dormir, vale à pena fazer o condicionamento da não-ação. Vamos criando o hábito de fazer o ego relaxar-se, entregar-se.

É como se fôssemos mais de um. Na compreensão hinduísta, que adotamos, nós já temos a dualidade básica da ação e da não-ação presente desde o início. Logo, é de se esperar uma possibilidade muito grande de colaboração entre ambas e de caminharmos em direção à não-ação.

À medida que vamos conhecendo nossos vários egos, chegamos ao ponto da consciência do nosso eu próprio, o si mesmo, o self, apaziguado, que está em paz, que não tem que tomar atitudes de interferência. Esse não age, mas é “respeitado”, é a referência que permanece, é sem ter que agir.

O contraponto ao excesso de ação é o que nos permite, em última instância, estarmos em paz. Podemos, no meio do caminho, perceber como é bom e importante abrir mão desse exagero da ação. Parece muito simples: nos livrarmos de alguns condicionamentos e fazer as coisas no cotidiano de uma forma diferente, mais agradável, melhor, dando uma reduzida na nossa onipotência. Mas não é simples assim! Porque somos formados por hábitos que impedem mudanças. O melhor modo de mudar é iniciar e cultivar um novo hábito na direção e sentido que se pretender.

Iniciar e cultivar a “prática” da não-ação pode ser um bom caminho, se aceitarmos a possibilidade de paz, que a não-ação proporciona, e diariamente, antes de dormir, nos imbuirmos dessa paz, sentirmos essa paz no próprio corpo, deixarmo-nos dormir assim... e, quem sabe, irmos descobrindo outras oportunidades de praticar essa paz interior a cada novo dia, enquanto o nosso ego vai agindo virtuosamente.

Thadeu Martins