sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não-agir é agora mesmo

Na filosofia hinduísta, a dualidade do agir e do não-agir é compreendida como algo inicial em nós. O agir é representado pelo nome Prakriti. A característica do não-agir é chamada de Purusha, que no mundo Ocidental é compreendida como alma.

Habitualmente estamos voltados para fora, fazendo atividades que focalizam os outros. Ficamos preocupados com o que pensam de nós: ou porque queremos agradar, ou porque simplesmente não queremos que nos percebam. O fato é que, em todas essas situações, a nossa atenção está voltada para o exterior.

Quem exerce essa atenção é o nosso sujeito das ações. Mas há um sujeito ainda mais anterior, que nem sujeito está a nada: o eu interior, que observa a nós mesmos, que não é o sujeito dos verbos. Podemos dizer que é o sujeito da não-ação.

Ao longo da vida, atuamos, trabalhamos e labutamos. Mas também temos a possibilidade de não-agir, que nada tem a ver com a preguiça. Trata-se de uma disposição de compreender, de não-interferir. Existe aí uma decisão envolvida.

A não-ação significa abrir um pouco mão da nossa onipotência, da nossa capacidade de controlar tudo, e deixar a vida acontecer.

Em resumo, somos vários “eus”, várias personalidades atuando o tempo todo e também um ator ou atriz fundamental, que sequer nome tem e nem precisa ter. Simplesmente é.

Cultivamos a não-ação quando meditamos ou focalizamos a atenção em algo sem ficar julgando, avaliando. Quando isso acontece, somos beneficiados de várias formas. O fato de focalizarmos, de reduzirmos o leque de atenções para um único foco, só isso já exerce um efeito apaziguador e mais ainda, reforçador do sistema imunológico.

O sábio Patanjali sugere como principal opção de meditação que cultivemos o bom humor. Sorrir, lembrar de coisas boas, perceber o que está a nossa disposição. Muitas vezes agimos como aquele que diz: “eu era feliz e não sabia”. Isso acontece demais.

Então, ao cultivarmos o foco de nossa atenção, podemos sorrir, fazendo de nós mesmos a razão de nossa alegria. Isso, socialmente também é muito benéfico. Afinal, quando estamos bem conosco mesmo, é impressionante como todos se aproximam. As pessoas são naturalmente atraídas pelo bom astral. Quem vai querer chegar perto de uma pessoa carrancuda, que trata a todos com patadas?

Não há bem material, status, dinheiro, loteria, nada melhor do que estar bem consigo mesmo, do que estar... normal. Nada é melhor do que estar saudável o tempo todo e cultivar toda potencialidade de felicidade que temos sempre, em vez de ficar adiando a possibilidade de ser feliz para um dia mais especial que hoje (...sobre cuja chegada não temos nenhum controle).

Thadeu Martins