quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O ser e o sono

Muitas pessoas reclamam que têm dificuldade para dormir. Acordam no meio da noite e não conseguem mais cair no sono. No outro dia pela manhã, acordam estressadas e cansadas. A causa da insônia geralmente é a mesma: estão preocupadas, tentando resolver problemas na hora errada.

Aqui vai uma boa notícia para os insones: segundo os hinduístas, não é sempre necessário dormir para descansar (tirar o cansaço). Se por alguma razão você acordar e não conseguir mais dormir, pode manter-se consciente e condicionar-se a não agir. Por exemplo, pode praticar o oposto do agir, do dirigir-se para fora, que é a receptividade, o receber, o sentir.

Se por algum motivo você não consegue mais dormir, que tal permanecer consciente e dedicar-se a simplesmente sentir o próprio corpo? Se você estiver acordado no “horário oficial da insônia”, entre 2h e 6h da madrugada, experimente, durante essas quatro horas, ficar no melhor repouso que alguém pode ter. Você estará consciente, sentindo o próprio corpo, plenamente relaxado, entregue, sem pré-ocupação.

Sentir, nesse caso, é uma forma de meditar. Você pode até se programar para não dormir e ter uma noite ainda mais revigorante: meditando. Ao deitar-se, vá sentindo o seu corpo, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça. Vá “mapeando” mentalmente todo o seu corpo pelo sentimento, percebendo cada parte do seu corpo, inclusive os espaços interiores. Perceba o seu coração, começando pela pulsação, na ponta dos dedos, ou diretamente nos pulsos.

O propósito é a mudança de hábito. Afinal, não mudamos hábitos com facilidade. Mudar de hábito é a coisa mais difícil. Nós só mudamos, de fato, se criarmos um novo hábito e cultivá-lo. Não basta apenas iniciar ou compreender, é preciso também cultivar. O que sugerimos é um novo hábito: não agir, em condições bem favoráveis, na hora em que ninguém está agindo, na hora de dormir.

Com o tempo, vamos desenvolvendo esse novo hábito (do sentir como essência) do não agir, por meio da prática da observação. Vamos abrindo mão da onipotência, do ter que agir. Afinal, não necessitamos de ficar no controle o tempo todo.

Muitos acham que a sua própria existência só é justificada se estiver sempre fazendo algo. Mas e quando não tiver o que fazer? Aí vêm a depressão e a ansiedade. É aquilo que comumente se chama de “vazio interior”. Ora, se alguém sentisse de verdade o vazio, estaria no céu! O que elas sentem é a falta do que fazer. Habituaram-se a ter que fazer algo, como se apenas fazer fosse existir. Atuar é apenas uma parte do viver, não é a principal. Todo fazer é transitório. O não fazer, o ser, é que é permanente. E é isso o que buscamos em Yoga e na meditação.

A notícia ruim desse novo hábito é que você pode perder a oportunidade maravilhosa de se sentir, de meditar, e acabar... dormindo!

Thadeu Martins