quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Esse desejante objeto do viver

Qual é o propósito da vida? E afinal, há algum propósito em viver? Esse é um tema desafiador. Para alguns, viver está associado a uma missão. Outros usam a palavra propósito. A cada dia me convenço mais que viver é criar oportunidades de realização das motivações.

Para o físico e pesquisador Fritjof Capra, a vida pode ser descrita como um sistema aberto, que faz trocas com o meio ambiente. Essas trocas se destinariam à sobrevivência e ao crescimento do sistema. Aparentemente, o sistema em si não teria propósito nenhum, além da própria sobrevivência.

Ainda segundo essa compreensão, todo sistema vivo caracteriza-se por três aspectos: estrutura física, que constitui os elementos vivos; organização, que relaciona as partes da estrutura; e processo, que faz com que a estrutura realize algo. Viver seria um estado permanente de desequilíbrio, de trocas realizadas por esse sistema.

A vida poderia ser vista sem nenhuma valoração teológica ou teleológica. Não haveria propósito ou motivação para viver, nem viver em si teria qualquer motivação ou propósito.

Se ampliarmos um pouco mais e olharmos para nós mesmos, observaremos várias inquietudes, muitas decorrentes do meio externo. Mas há aquelas que não estão associadas a nada que está acontecendo fora de nós. São inquietudes que brotam. O desejo é a principal categoria dessas inquietudes.

A vida é algo desejante, é desejar. E aqui precisamos diferenciar desejo de vontade. Vontade é uma reação a algo externo; já o desejo apenas brota a partir de nós mesmos. O marqueteiro estimula vontades, provoca reações; a vida faz brotar desejos e iniciativas de seu interior.

Dentro de nós surgem vários desejos. À medida que as circunstâncias permitem, vamos atrás da realização. Claro, o desejar nem sempre é o suficiente. É preciso ter as condições (ou obtê-las). Mas o fato de termos a motivação pode nos levar a fazer. O desejo é a fonte da motivação. E para realizar, temos que viver.

Então, viver é uma disponibilidade que criamos a partir do nosso desejo. É um desejo indeterminado. Não é um desejo de viver. São os desejos que brotam, sejam quais forem, com que propósito, objetivo ou iscas tenham se manifestado. O caminho se faz ao caminhar. A vida segue o desejar!

Daí a importância da não-ação, para refrear o exagero da ação voltada para o mundo exterior. É esse exagero que acaba impedindo o brotar dos desejos, a vida interior. Se ficarmos apenas voltados para fora, para o que está exterior a nós, não daremos espaço para os desejos surgirem; não haverá vida disponível para eles.

Ao abrirmos mão de nossa onipotência, de exagerar no fazer, e à medida que cultivamos a não-ação, entramos num estado ideal para que os desejos brotem de dentro de nós, do nosso íntimo.

O meio externo é uma situação que está absolutamente determinada por um modelo. Mas dentro dele existem várias possibilidades de realização que nada tem a ver com o modelo e que são perfeitamente capazes de brotar. No meio ambiente, por mais consolidado, pode surgir algo imprevisível para a ideologia dominante, para a limitação da época, e que irá surpreender a todos.

Sortudo é quem consegue perceber esses caminhos e curtir.


Thadeu Martins