terça-feira, 15 de setembro de 2009

Liberdade em jogo

No hinduísmo, há duas palavras essenciais: Dharma e Karma. Uma é a percepção da ordem e do nosso papel nela; a outra é a noção de causa e consequência, em que uma ação provoca outras – muito do que vivemos é resultado de ações anteriores, por nossa conta ou dos outros. Em ambas, a noção de liberdade (Moksha) está presente.

Quando entendemos o Dharma, a ordem, o que se está fazendo em uma determinada situação ou instituição, tudo vai se revelando. E aí, ao mudarmos o modo como lidamos com o ambiente, fica mais fácil e, às vezes, até agradável e divertido.

O cerne da compreensão das atitudes é se perceber na ordem. A partir daí, vamos vivendo os vários personagens e separando o personagem do ator, em nós mesmos e nos outros. Em determinados momentos, não haverá oportunidade para o ator se manifestar, apenas o personagem é quem irá atuar.

Nas organizações, quase sempre isso está presente. Nós ficamos imbuídos de uma certa aura das organizações. As pessoas que não estão amarradas ao ritual nos ajudam a perceber que a aura do ambiente é apenas uma aura. Nós é que acabamos entrando ou não no jogo do ambiente. Vamos perceber quem são aqueles que não conseguem ser ator, com os quais só vamos conseguir lidar de personagem para personagem. Outros são sempre o ator das ações. E nós, dentro das instituições? O quanto estamos só de ator ou só de personagem e em que momento conseguimos sair do personagem e entrar no ator? Esse é um grande desafio.

Ao percebermos o jogo, podemos optar por continuar ou sair dele. Se sairmos, já não haverá necessidade de prestar atenção nele. Se entrarmos, vamos jogar. E isso exclui ficar brigando contra o jogo. Vamos usar as regras, o território, o blefe. Afinal, praticamente todas as atividades humanas são um jogo. Ao percebermos que estamos jogando, a sensação de liberdade aumenta; nesse caso, cabe a nós perceber, de modo cada vez melhor, o jogo e os jogadores. Assim, podemos até nos divertir. Ganhar ou perder é apenas circunstancial. O mais importante é a interação.

No Karma, a liberdade está inteiramente associada à ação, que por sua vez faz parte de uma ordem (Dharma). Ora, como posso trazer o conceito de liberdade para a minha ação? Dizem os sábios que a liberdade na ação é quando a nossa ação independe do quanto vamos nos aproveitar dos resultados dela. Ou seja, é a ação desinteressada. Fazemos porque temos que fazer, porque queremos, porque é válido ou legítimo fazer. E se é para fazer, fazemos bem feito, com dedicação, de verdade. O propósito é a ação em si mesma.

Na compreensão budista, o trabalho teria três utilidades: dar oportunidade de cada um de nós realizar algo em conjunto com outras pessoas, permitir o desenvolvimento e a aplicação de nossas capacidades e obter meios de sobrevivência. A sequência é essa, uma inversão bastante grande daquilo que se vê propalado atualmente, fora do contexto budista. Isso tem muito a ver com Dharma e Karma, principalmente com Karma. Muda por completo o que estamos fazendo. Nessas três perspectivas, aquele que realiza a ação sempre se dará muito bem. Age desinteressado da ação, sem ficar obcecado pelos resultados; mas, ao mesmo tempo, beneficia-se dela.

Essas duas características, sintetizadas pelo Dharma e Karma, são dicas para cada um de nós cultivar a liberdade no cotidiano. Assim, não ficaremos restritos à oportunidade de liberdade apenas em situações especiais, porque estas ocorrem poucas vezes. Afinal, na maior parte do nosso tempo, estamos em ação: jogando o jogo chamado viver (a nossa liberdade).

Thadeu Martins