sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O tal do tantrismo

A compreensão da nossa sexualidade está na origem do entendimento de nós mesmos e da vida. Na base da compreensão hinduísta está o óbvio, o visível, o factual: o relacionamento sexual próprio de todas as espécies. Essa base física de observação foi prosseguindo, no tempo, ganhando sofisticação e, por isso, afastando-se da origem, até esta virar simbolismo ou alegoria.

Hoje em dia, o fato primário do surgimento da vida é visto como um fato tão comum, como se esse primário não fosse o fundamental. Cada um de nós dá mais importância àquilo que é mais exigente na sua circunstância, como os cuidados pela sobrevivência, enquanto a vida prossegue com a sua essência original.

Lá no início das civilizações, por exemplo, nas origens do hinduísmo, a representação do início da vida se dá alegoricamente no formato do ovo conceitual. Esse ovo contém, simultaneamente, o princípio da manifestação (Prakriti) e da não-manifestação (Purusha). Essa dualidade é absolutamente uma, essencial e divina, a partir da qual tudo brota. A partir do desdobramento desse conceito, foi concebido o modelo hinduísta de compreensão da vida, que remonta a um tempo muito antigo. Nele ficou bem marcada a origem orgânica, a qual podemos sintetizar na palavra tantra (de tecido, trama, trança) que designa uma tradição de orientar o viver humano no sentido da sua essencialidade: o desenvolvimento do Ser. O tantrismo está relacionado com o princípio essencial e divino que está em nós, que viabiliza a vida, nos faz respirar.

Se podemos criar inúmeros artifícios para nos sentirmos bem e felizes, certamente esses estão relacionados com atividades ou fatores importantes para o nosso processo de vida, como a alimentação, o sono, o descanso, o afeto e os relacionamentos. Em algum momento, chegaremos à sexualidade, à possibilidade da trama dos princípios feminino e masculino em uma unidade que retoma a origem da nossa vida. Esse caminho tântrico, totalmente envolvente, orgânico, fez uma grande mistura cultural. Literalmente, os indianos “tantrizaram” tudo: a compreensão da filosofia, da política, do trabalho, dos relacionamentos sociais e religiosos. Tudo se tornou um amálgama orgânico. Quem percorre a Índia pode perceber isso. Tudo é muito forte, intenso: as cores, os cheiros, nada lá é pouco. A cultura indiana traduz o resultado de uma imensa mistura.

É importante lembrarmos de perceber e reconhecer os apelos dos sentidos, que se manifestam antes da racionalidade e mais próximos de nossa essência de vida. Vale prestar atenção ao que sentimos, deixar brotar o bom humor que permite compreender e curtir as emoções positivas, que nos aproximam organicamente. O que há de maravilhoso no orgânico é que ele brota naturalmente, cria, inspira; dispensa construções complicadas que apenas tentam reproduzir padrões de comportamentos socialmente aceitos, mas nem sempre adequados à felicidade. Não por acaso, a intimidade se afasta dos olhos e apelos sociais, como na prática de meditação, e nos aproxima da intimidade essencial do ser.

Thadeu Martins