sábado, 6 de novembro de 2010

De olhos abertos para dentro

Os exercícios em Yoga e Meditação são oportunidades para praticarmos quatro atitudes: de perceber onde se está, de estar em si mesmo, de desapego e de autoconfiança. O propósito é fazer com que o nosso cotidiano seja agradável, confortável, socialmente razoável e isso nos permitir meditar.

A meditação é a oportunidade que nós criamos para lidar com o nosso mundo interior. No ritmo de cada um, vamos treinando para que isso se torne habitual. O ideal é introduzirmos o hábito de meditar em nossas vidas a ponto de a nossa vida onírica ser tão real quanto a material.

É perfeitamente possível integrarmos a nossa vivência de olhos abertos com a nossa vivência onírica. Assim, exercitamos o estado de não-ação, em que internamente ficamos abertos para deixar manifestações oníricas acontecerem.

A técnica de meditação usa um artifício que é visualizar algo, de olhos abertos ou fechados, até que se dê uma identificação com o objeto. Quando nos habituamos com algo, deixamos de percebê-lo como distinto de nós; ele passa a fazer parte de nós. O que passamos a perceber é algo diferente daquele algo. Nós nos tornamos uno com o objeto da meditação.

Então, a meditação pode reduzir-se a um exercício de visualizar. Logo, podemos apenas ficar vendo, em nossa imaginação, um lugar que gostamos ou uma pessoa que admiramos. O propósito é se identificar com o que é bom, positivo, que propicie um estado agradável para nós. O exercício será tão melhor e mais criador de hábito quanto mais condição tiver de propiciar algo agradável, que nos dê vontade de fazer novamente.

Por exemplo, escolha a imagem de alguém que você gosta muito. Feche os olhos e concentre-se nessa pessoa. Você pode até se imbuir do desejo de incorporar as virtudes dela. Os melhores horários para praticar esse exercício é antes de dormir e quando acordar. Nesses horários há menos interferências e solicitações externas.

O importante é se habituar a meditar, aperfeiçoando-se na medida da sua realidade. Se você está vivendo uma realidade muita intensa, pode fazer uma visualização da realização positiva daquela coisa a qual está envolvido.

À medida que praticamos a meditação, vamos nos habituando a transitar do corpo (campo) físico para o corpo das emoções, dos significados, dos supra-significados culturais, até um estado de transcendência ou liberação. É uma experiência possível só para quem a praticar, praticar, praticar... como puder, quando puder, até tornar-se um hábito regular.

Thadeu Martins

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Aprendendo a viver e a morrer na graça divina

Em Yoga e meditação, cultivamos quatro atitudes essenciais, associadas aos exercícios de postura física: consciência do mundo exterior, percepção do mundo interior, desapego e autoconfiança. Perceber o que é exterior é compreender o ambiente, o que ele exige para se estar ali; enfim, o modo mais adequado de nos comportarmos naquele ambiente.

Em contrapartida, na consciência de si mesmo, cada um se percebe e se referencia a um modelo com o qual se identifica. E isso pode suceder várias vezes ao longo de uma vida, continuamente. Mas com quem mesmo nos percebemos identificados? Que “eu” é esse com o qual cada um se identifica? Seria o “eu mesmo” que vemos no espelho? Seria um personagem que assumimos no cotidiano? Isso pode levar a uma discussão sem fim. Os hinduístas procuram tornar mais objetivo esse processo. Na meditação, por exemplo, podemos nos identificar com o que observarmos atentamente: uma pessoa, uma imagem, um objeto; observar com a intenção de “querer ser” aquilo que observamos. Haverá um momento em que, ao fecharmos os olhos, seremos capazes de ver o que observávamos. Dá-se naturalmente uma identificação. Primeiro nós nos concentramos (Dharana), olhamos fixamente. Depois passamos para o estado de contemplação – Djana (palavra que, por um processo de transição da antiga Índia até o Japão, tornou-se “Zen”). Nesse estado contemplativo, não há mais esforço.

A identificação, pela simples observação frequente, ocorre conosco todos os dias. Nós nos habituamos ao ambiente e, quando algo muda, percebemos a mudança, pois já estávamos identificados com o ambiente. Também nos identificamos conosco mesmo, com o nome que temos, com os muitos nomes que nos deram e com as várias imagens que vemos continuamente ou várias vezes.

E há um terceiro estágio – Samadhi –, quando abrimos mão da identificação: nós e o que observamos nos transformamos em uma coisa só, formamos um todo para a nossa percepção.

É provável que no cotidiano algumas coisas sejam mais percebidas do que outras; nós nos identificaremos mais com elas. Logo, se fizermos um ritual de meditação com qualquer uma dessas pessoas, qualidades, situações ou coisas poderemos cultivar um estado de Samadhi em relação a elas. Assim, seguimos o passo a passo da meditação (Dharana, Djana, Samadhi) e nos liberamos delas, superamos a identificação. É como se, na vida pessoal, abandonássemos os pronomes possessivos e seus conceitos, nos desapegássemos, nos “desidentificássemos”, e passássemos a lidar naturalmente com a realidade como ela é simplesmente.

Essa desidentificação se dá em relação a um "si mesmo" ilusório, ao qual nos habituamos; assim, não se muda a essência, chega-se a ela.

Podemos, portanto, aperfeiçoar nosso modo de ser, de agir e de reconhecer nossa autoimagem, na medida em que cultivarmos identificações que nos façam pessoas melhores. O melhor é procurarmos nos identificar com algo ou pessoas com os quais tenhamos alguma simpatia, que nos façam bem. Assim, cuidado com o exagero de sua atenção para encrencas, pessoas de baixo astral e ressentimentos.

Então, num propósito operacional, podemos aperfeiçoar quem somos e superar desconfortos. Mas o propósito fundamental, que o mestre Patanjali sugere, é a liberação na vida e a preparação para algo que é inerente a ela: a morte. Morrer também é um processo de desidentificação, semelhante ao de meditação. Quando nos fixamos em uma imagem, abandonamos o corpo físico, as emoções e os significados. Saímos, literalmente, do mundo e passamos a um estado de graça. A prática de meditação nos habitua a um processo controlável de aperfeiçoamento e de abrirmos mão das identificações para nos colocarmos em um estado de liberdade inigualável em termos mundanos: de graça divina.

Thadeu Martins

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O desafio de ser livre

Quando se fala em Yoga, quase sempre as pessoas se referem à prática de duas maneiras: como algo muito esotérico, com figuras que são de outro mundo, vivendo experiências fantásticas de iluminação; ou como algo restrito a pessoas com grande flexibilidade corporal, verdadeiros contorcionistas. Essas imagens são apenas caricaturas. Na verdade, o praticante de Yoga é aquela pessoa que resolveu prestar atenção em si, nos outros, na vida, no mundo, de modo que seja bom para todos e possibilite a ela ir além da mera sobrevivência cotidiana.

O maior desafio mesmo é, ao chegarmos à idade em que chegamos, conseguirmos harmonizar as pressões externas e o nosso bem-estar. Ao longo da vida, vamos nos adaptando ao mundo e criando o nosso próprio esquema de sobrevivência social. Conseguimos ser aceitos socialmente. De algum modo, descobrimos algumas fórmulas que dão certo. Mas isso acaba nos exigindo alguma conformação. Então, cada um de nós expressa essa conformação que adotou. Em alguns casos, ela é perfeita, na medida do bem-estar de cada um. Se houver alguma medida de desconforto, é uma indicação de que algo precisa ser mudado em sua vida. Perceber isso é que é difícil. Não somos ensinados em casa ou na escola a esse respeito.

Às vezes, começamos a perceber intensamente o desconforto e nos exasperamos, queremos mudar. Mas sem precisar chegar a extremos, cada um, dentro da sua realidade pessoal, pode perceber o quanto pode fazer para melhorar.

A prática de Yoga está associada a uma palavra que em português se chama meditação. Também poderia ser chamada de contemplação. Meditação e Yoga são quase uma coisa só. Podemos dizer que Yoga é um arcabouço que dá uma compreensão geral. Meditação, por sua vez, é o principal exercício. O propósito é buscar o estado de felicidade, consigo mesmo e com os outros. Em sânscrito, esse propósito tem o nome de Moksha, que significa liberação. Na concepção dos gregos, só a alma (Atma) se liberava do desconforto social. Já na concepção de Yoga, não precisamos morrer para nos liberarmos. A ideia é que levemos a vida de tal modo que consigamos nos sentir livres, vivendo a liberdade de forma que ela esteja compatível, harmoniosa com a exigência social.

A nossa principal tecnologia é social: lidarmos uns com os outros de forma harmoniosa. Então, a primeira atitude que se cultiva em Yoga é perceber o ambiente. Assim, conseguimos harmonizar a nossa liberdade com as restrições que o ambiente impõe. Em seguida vem a atitude de perceber-se, não só fisicamente, mas principalmente perceber com o que ou quem nos identificamos, de modo a cultivarmos virtudes, qualidades e características que nos sejam preciosas. Em contrapartida, vem a terceira atitude, a de desapego, em relação não apenas com o que não mais necessitamos, mas sobretudo com quase tudo com o que nos identificamos, de modo a cultivarmos a maior de todas as liberdades: a de simplesmente viver e morrer. Para tanto, nos valemos de uma quarta atitude, a da autoconfiança, a qual é gradualmente desenvolvida em conjunto com a prática das três anteriores.

Os exercícios de meditação, respiração e as posturas de alongamento associadas constituem oportunidades físicas para praticar introspectivamente essas atitudes e aperfeiçoar as condições da nossa liberação e bem viver. Pratique e prossiga!

Thadeu Martins

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Estudar é preciso, viver também

Em Yoga, dá-se ênfase ao cultivo de cinco estímulos: da pureza, do contentamento, da tenacidade, do estudo e da humildade - “render-se à vontade divina” (Ischivara pranidana). E por que é tão importante estudar? Para compreendermos o contexto, em que estamos. Para isso, é estimulado o estudo não apenas do momento atual, mas também das “escrituras”, das origens de nossa cultura, para compreendermos como chegamos até hoje e aonde vamos. Isso nos dá uma enorme autonomia.

No contexto da tradição hinduísta, não há qualquer necessidade de intermediação entre o ser individualizado e o não-individualizado; em outras palavras: não há separação entre nós e Deus. Nessa compreensão, todo mundo é simultaneamente matéria e divindade, mundano e sagrado; a vida surge com a dualidade manifestado e não-manifestado, sutil e denso. Não há necessidade de intermediação artificial. E mesmo nessa cultura, que parte do princípio que não há intermediação, há forte estímulo ao estudo, à compreensão, ao aperfeiçoamento de nossa divindade.

Ou seja, cada um de nós nasce Deus, mas a vida nos leva a tantas direções simultaneamente, exige de nós tantas coisas, que acabamos não percebendo que somos divinos e nos tornamos apenas alguém que consegue se articular para sobreviver. Como aquela fábula da águia que vivia no galinheiro desde que nasceu, ciscava como uma galinha, até que um dia percebeu a sua verdadeira natureza e saiu voando.

Então, seja pelo estudo, pela convivência ou pelas oportunidades que nós mesmos nos propiciamos, acabamos desvelando a nossa natureza essencial, que é divina. Quanto mais estudarmos as nossas origens e o que nos cerca, mais ficamos independentes das intermediações equivocadas. Por isso, o sábio Patanjali chama atenção para a importância do estudo. Por meio do estudo, podemos compreender melhor as tendências que adotamos e em que elas estão baseadas.

Nós decidimos a realidade com o que já temos – basicamente a nossa memória, construída no passado. Se a nossa memória está sobre bases equivocadas, podemos tomar decisões absolutamente inadequadas, enfrentando a realidade de um modo que não vai dar certo; os princípios não são adequados a essa realidade. E qual o princípio mais adequado a uma determinada realidade? Podemos descobrir olhando pelo retrovisor, analisando o passado. Mas compreender o que uma tendência de fato revela de significante, para o momento presente, nos exige mais de atenção: percepção do presente e projeção de futuro.

As filosofias, as religiões, as escolas, de modo geral, são muito eficientes em nos oferecer tecnologia de viver em comunidade, de sucesso coletivo, com as quais criamos a possibilidade da nossa individualidade sobreviver no coletivo em que estamos inseridos. Por isso, a prática e o cultivo de Yoga e de meditação estão referidos ao coletivo e ao essencial.

O grande propósito de Yoga é Moksha, liberação – liberar-se do contexto social em que nos encontramos para conseguirmos conviver com ele, sobreviver a ele e contribuir para que ele fique melhor. Da mesma forma, Yoga significa “cessação dos turbilhões da mente”, com o propósito de percebermos melhor onde estamos, com quem estamos interagindo, o nosso papel, as nossas possibilidades e, assim, realizarmos a nossa existência.

Thadeu Martins

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dharma nosso de cada dia

Yoga e Meditação não surgiram do nada; foram constituídos ao longo da formação do Hinduísmo, o qual, como qualquer outro “ismo”, é uma construção histórica, antecedida pelo cotidiano de uma sobrevivência ancestral. No crescimento de uma civilização, é criado um ordenamento que garante a sobrevivência da maioria. São estabelecidas regras, muitas vezes à força, por uma determinação de poder que cria uma ordem de convivência. Vão-se criando histórias, observando princípios e tudo o mais que é ordenador. Com isso, chega-se à sofisticação cultural, social e filosófica, e cristalizam-se modelos explicativos da realidade.

O modelo de explicação chamado – pelos europeus – de Hinduísmo refere-se à civilização surgida na região entre os rios Sarasvati e Indus. Essa cultura estabilizou-se por volta de quatro mil anos A.C., mas surgiu seis mil anos antes. Essa civilização criou uma compreensão da realidade a partir de uma dualidade original, que se manifesta por meio de três qualidades que constituem a expressão da vida: Sattva, Rajas e Tamas – o sutil, o movimento de transformação e a densidade. Com esses elementos iniciais construiu-se uma visão estrutural do universo, a qual está na base das escolas do pensamento constituídas na Índia.

Cada vez que voltamos na história, encontramos modelos explicativos bastante complexos, mas todos eles vão-se acumulando, acrescentando uns aos outros. O que nos garantiu sobreviver como espécie por cem mil anos é a nossa capacidade de criar um sistema de regulação dos comportamentos à moral. Todos nós temos liberdade de fazer o que quisermos, até o limite que a organização social estabelece.

Por isso, em Yoga, o sábio Patanjali enfatiza o controle do comportamento social, por meio de restrições (yamas) e de não restrições (niyamas). Por um lado, os yamas: evitar o ofender, evitar o mentir, evitar a dispersão do ser (que alguns traduzem de forma equivocada como “evitar o abuso da sexualidade”), evitar o roubar, evitar o cobiçar. Por outro lado, os niyamas: cultivar a pureza, cultivar o contentamento, cultivar a tenacidade, cultivar o estudo, e render-se à vontade divina (Ishivara Pranidana).

Socialmente, temos que estar bem resolvidos. Por isso, Patanjali reforça que fazer Yoga e Meditação é praticar atitudes. E a primeira delas é compreender a ordem, o Dharma - ou seja, saber onde estamos pisando. Precisamos treinar para adquirir essa percepção. Depois vem a atenção para o corpo, com atitudes de autopreservação, cuidado e cura. Em seguida, o cuidado com a energia, com a atividade, que deve ser adequada a cada momento. Então chegamos à mente.

Na compreensão hinduísta, a nossa mente cria realidade; percebe e registra – cria memória; as memórias se conectam e criam noções de tempo e espaço. Com isso, podemos viver o tempo todo no presente, projetando o futuro, rememorando o passado e agregando essas três possibilidades. Patanjali sugere a prática do controle mental: perceber o que é passado, presente, futuro e o que é adequado ao momento. Isso também exige bastante treino.

Na medida em que praticamos essa atenção e compreensão, criamos condições de ir além do que é apenas dado pela herança genética ou pela complexidade social. Abrimos possibilidades que não são dadas pelo cotidiano e que cada um de nós pode descobrir. Podemos assim ter acesso até ao que está além do espaço-tempo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Todo dia é dia de Yoga

Em Yoga e meditação, o importante é criar condições para praticar diariamente. Basicamente há dois momentos: um, que tem a dimensão que você quiser, de preferência o dia inteiro, pois, no fundo, estamos falando de um modo de viver, sem estresse; o outro momento inclui aqueles em que somos tomados por uma determinada situação, por sentimentos intensos, positivos ou negativos. Esses momentos extremos são os mais exigentes, pois neles podemos nos perder. E não há sábio que não esteja vulnerável a uma situação dessas.

Por isso, a sugestão é treinar, condicionar-se, exercitar a capacidade de concentrar-se, de respirar corretamente, de lidar com a realidade de uma forma adequada. Assim, vamos aumentando a nossa capacidade de manter a tranquilidade e o autocontrole diante das situações mais difíceis.

Não basta fazer um exercício apenas, por mais maravilhoso que seja, num período curto, determinado. Afinal, temos uma vida inteira de desafios. Essa “vida inteira” exige saber lidar com os desafios, ser feliz, curtir, deixar passar, ser maleável. O grande propósito de viver é simplesmente continuar vivendo. O momento que deixamos de viver está absolutamente fora do nosso controle. Se tudo é passageiro mesmo, vamos lidar com essas circunstâncias do melhor modo possível.

No cotidiano, podemos nos habituar a nos sentirmos um yogue, ou uma yoguine, praticando o estado de tranquilidade, evitando exageros. Podemos também reservar alguns minutos do dia para lembrar que o nosso corpo e a nossa respiração existem. O mais difícil é ficar sem fazer absolutamente nada. Não somos incentivados a isso, de forma alguma. Viver é realizar, mas também é “não agir”, deixar que a vida prossiga. Essa capacidade de deixar a vida seguir nos dá a consciência de que tudo é impermanente, transitório. Claro, haverá algumas tarefas que teremos de fazer. Faça e pronto, acabou. Dê chance a outra pessoa fazer também. De insubstituíveis, o cemitério está cheio.

Somos importantíssimos para quem nos ama, para nós mesmos e para a vida. Tanto é que estamos vivos. Isso já é muito bom.

Então, crie uma disciplina de praticar minimamente os exercícios de Yoga. Durante todos os outros horários da vida, mantenha essa consciência, com a capacidade de fazer e ser testemunha do que faz, e vá praticando o seu trabalho, as suas atividades. Preste atenção em você mesmo.

Pratique Yoga todos os dias, e sem estresse, sendo testemunha de si mesmo. Só o fato de estar prestando atenção em si, já é ótimo. Perceba que você é uma pessoa livre, que tudo passa, que nada é tão importante assim. Em geral, a felicidade é feita de pequenas coisas. Saboreie!

Thadeu Martins

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Salto vital e fugaz

Todos nós temos necessidade de um sentido de ordenamento, de sequência, de causa e efeito, de propósito. Por isso criamos modelos de compreensão, mas que não são a realidade. O real mesmo é o “aqui e agora”. Fora disso, tudo será representação, alusão, indicação. Estaremos no mapa, não no território.

Isso, de certo modo, ocorre em todas as nuances da vida. Conforme lembrava o historiador Arnold Toynbee, somos seres anfíbios, com os pés na terra e a cabeça no oceano conceitual. Ou seja, vivemos ao mesmo tempo num mundo material, das relações sociais, e num mundo conceitual, que cria ordenamentos e modelos.

Ao expressarmos o nosso modelo de compreensão da realidade, reproduzimos uma mescla do que a natureza ou as circunstâncias nos oferecem ou impõem. É desse modo que a vida nos forma (natureza versus educação). O que cada um de nós fala sobre algo é sempre uma referência, um modelo, uma racionalização da realidade, que pretende substituir o real.

Cada vez que nos referimos à realidade, temos uma experiência concreta. Quando transferimos essa experiência para quem não a viveu, representamos essa experiência para alguém. Esse, por sua vez, conta o que ouviu para outra pessoa. Assim, a mesma história vai sendo contada ao longo do tempo, com algumas alterações, até constituir algo simbólico, que não precisa mais ter nada a ver com o real, com o material que deu origem àquela história. Desse modo, o simbolismo vai sendo construído, lá dentro de cada um de nós, e satisfazendo a nossa necessidade de ordenamento.

Temos, com nossa rede de 15 bilhões de neurônios, nossa própria percepção da realidade. Percebemos, interpretamos, traduzimos e transmitimos essa realidade em todos os momentos. E para tornar a convivência possível com outras pessoas, vamos nos acomodando, criando pactos. Foi dessa forma que a humanidade conseguiu sobreviver num ambiente hostil, cheio de predadores, com um corpo extremamente frágil. Tudo graças a nossa extraordinária capacidade simbólica, de ordenamento e de acomodação social.

Nós temos sequências simbólicas bastante antigas. Por exemplo, todas as comemorações cristãs – Natal, Páscoa, São João e outras - são referências aos cultos pagãos, relacionados aos equinócios e solstícios. Isso tudo tem pelo menos dez mil anos, enquanto os evangelhos foram escritos (na forma hoje conhecida) a partir do séc. IV, segundo valores do Império Romano de Constantino. Foram relatos transmitidos em forma conveniente a uma determinada época. Então, a história que recebemos transcrita nesse exemplo dos cânones da Igreja Católica reproduz uma conveniência circunstancial criada no séc. IV.

Quase tudo com o qual temos contato hoje, como dogma estabelecido, também é circunstancial, surgido num determinado momento da história, num contexto político, social e econômico de poder e linguagem, que permitiu seu surgimento. A partir de princípios como esses, criam-se condicionamentos, estabelecem-se situações de poder e chega-se até nós em configurações de acomodação de sobrevivência, que interessam a quem está vivo.

Vamos vivenciando as experiências possíveis, de acordo com o que a época e as circunstâncias permitem. O grande escritor brasileiro Osman Lins faz uma bela representação da vida como o salto de um peixe. Viver seria o salto do peixe, que tem a experiência que estamos tendo, de individualidade. De repente, do indeterminado, que é o fundo do oceano, surge um peixe, que logo volta para as profundezas das águas. Surge o indivíduo e logo desaparece. Esse indivíduo que surge, teve a experiência da individualidade. E pode acontecer de tudo: raios, tempestades, pássaros que podem comer o peixe; ou não acontecer nada. Cada um de nós, no seu salto do indeterminado até a volta, terá experiência concreta do real.

Também pode ocorrer de um cardume saltar e cada peixe ter a sua experiência de individualidade. Podemos chamar o cardume de um evento de uma mesma geração. Cada geração compartilha modelos de compreensão da realidade, dando o salto do peixe na mesma época. As verdades que compartilhamos são relativas, de acordo com o histórico e a geração de cada um, com o cardume de cada um, com o que nos antecedeu.

Assim, nossas experiências podem ser muito semelhantes e simultaneamente distintas entre si. A vivência de individualidade única está mesclada com o coletivo de cada geração e com a indeterminação que nos veio a anteceder e nos virá a suceder. Para alguns há a possibilidade de se habituar a reduzir os excessos de informação e solicitações sociais e a compreender que os modelos de representação ou compreensão condicionam bastante o que se vive. Para esses yogues urbanos, abre-se a possibilidade de perceber a realidade de modo mais direto e menos confuso. Para esses, não é preciso morrer para que a alma se libere da cidade e do turbilhão social. Para esses, é possível viver de modo socialmente responsável, humanamente feliz, espiritualmente em harmonia... e são pessoas iguais às que você vê no espelho todos os dias.

Thadeu Martins

segunda-feira, 15 de março de 2010

Transtornos urbanos e pessoais simplificáveis

No Brasil, observa-se uma desagregação social como fenômeno, em grande parte, relacionado ao êxodo rural. Cerca de 85% da população brasileira veio a concentrar-se nos grandes centros urbanos. Sobraram apenas 15% no campo. Há 50 anos, a proporção era quase o inverso. Essas pessoas, ao saírem das cidades de origem, perdem os laços com seus familiares, sua cultura e seu ambiente. É nas Igrejas ou nos templos que muitos encontram um código de conduta e se sentem inseridos em comunidades.

As igrejas ou templos, de modo geral, têm um papel de tranquilização social muito importante. De certo modo, complementam a função da família na adequação do indivíduo à sociedade; nos dias de hoje, ajudam a evitar a anomia crescente, ou seja, a perda do significado individual e da referência familiar. Essas duas condições entre outras são propiciadoras de transtornos mentais e comportamentais.

Onde há estrutura familiar forte ou coesa, a quantidade de perturbações e complicações é muito menor. Talvez um dos segredos da longevidade social da Índia seja a densidade religiosa deles. Lá, todo mundo é religioso, até os materialistas! Apesar da miséria, há uma extraordinária integridade social. Com uma população que transborda um bilhão de pessoas - em que pelo menos 700 milhões estão muito abaixo da linha da pobreza -, a Índia tinha tudo para viver em permanente convulsão social. Mas lá, a estrutura familiar e o tecido social são muito fortes. Então, mesmo nas situações inimagináveis de pobreza e miséria, tudo se mantém estruturado. Isso permite que as pessoas sobrevivam e evita que os conflitos se generalizem.

A natureza da vida é de contínua estruturação. Na natureza há uma necessidade extraordinária de organização. A matéria em si mesma traz um ordenamento. Ela se auto-organiza. Então, em termos sociais, quando se bagunça o ordenamento, a sociedade se esvai. Do mesmo modo, quando limpamos a casa, por exemplo, o que fazemos é desestruturar a organização da sujeira para que ela não se estabeleça (evitamos que ela se organize ou reorganize).

Em termos pessoais, precisamos cuidar de nossa organização, desorganizando aquilo que nos prejudica. Quando você percebe que tem um comportamento que está lhe prejudicando, chegou a hora de desestruturá-lo. Se você permitir que ele continue a se estruturar, daqui a pouco você vai virar um mero joguete dele. O que nos faz mal com regularidade está organizado e estruturado.

A melhor maneira de fazer essa desestruturação dos maus hábitos é pela mudança radical. Primeiro pela interrupção, pela restrição; depois pela criação de artifícios de mudança: respirar profundamente algumas vezes, fazer ou pensar outras coisas, ir contando quantas vezes você está respirando até passar de trinta vezes... É preciso impedir o caminho habitual do que nos faz mal (ou pelo qual nos fazemos mal). Assim, o cérebro é levado a focalizar outras emoções, outras opções de comportamento, outras possibilidades de sentimentos e ações correspondentes. E procurar ajuda: as chances de mudança são facilitadas por um ambiente de reforço afetivo: amigos, grupos de apoio, terapeutas, família, círculos religiosos, entre outros.

O mais difícil talvez seja estudar e compreender o problema: a origem do comportamento ruim e recorrente (“afinal, por que eu continuo agindo desta forma?”). Para isso há os psicólogos, os psiquiatras, os mestres espirituais ou as pessoas em quem se confia pela sua sabedoria e bom exemplo.

Cada um sabe de si, mas uma pergunta que também podemos nos fazer: “preciso mesmo disso para viver, para ser feliz?”; pode muitas vezes nos mostrar um caminho de vida mais simples, com menos obrigações insuportáveis, com menos pressões de prazos e tempos mal negociados, com menos expectativas nossas e dos outros sobre nós. Que tal, então, começar hoje mesmo a interromper aquilo que nos prejudica? Quem sabe se pode simplificar mais o modo de levar a vida?

Thadeu Martins