segunda-feira, 15 de março de 2010

Transtornos urbanos e pessoais simplificáveis

No Brasil, observa-se uma desagregação social como fenômeno, em grande parte, relacionado ao êxodo rural. Cerca de 85% da população brasileira veio a concentrar-se nos grandes centros urbanos. Sobraram apenas 15% no campo. Há 50 anos, a proporção era quase o inverso. Essas pessoas, ao saírem das cidades de origem, perdem os laços com seus familiares, sua cultura e seu ambiente. É nas Igrejas ou nos templos que muitos encontram um código de conduta e se sentem inseridos em comunidades.

As igrejas ou templos, de modo geral, têm um papel de tranquilização social muito importante. De certo modo, complementam a função da família na adequação do indivíduo à sociedade; nos dias de hoje, ajudam a evitar a anomia crescente, ou seja, a perda do significado individual e da referência familiar. Essas duas condições entre outras são propiciadoras de transtornos mentais e comportamentais.

Onde há estrutura familiar forte ou coesa, a quantidade de perturbações e complicações é muito menor. Talvez um dos segredos da longevidade social da Índia seja a densidade religiosa deles. Lá, todo mundo é religioso, até os materialistas! Apesar da miséria, há uma extraordinária integridade social. Com uma população que transborda um bilhão de pessoas - em que pelo menos 700 milhões estão muito abaixo da linha da pobreza -, a Índia tinha tudo para viver em permanente convulsão social. Mas lá, a estrutura familiar e o tecido social são muito fortes. Então, mesmo nas situações inimagináveis de pobreza e miséria, tudo se mantém estruturado. Isso permite que as pessoas sobrevivam e evita que os conflitos se generalizem.

A natureza da vida é de contínua estruturação. Na natureza há uma necessidade extraordinária de organização. A matéria em si mesma traz um ordenamento. Ela se auto-organiza. Então, em termos sociais, quando se bagunça o ordenamento, a sociedade se esvai. Do mesmo modo, quando limpamos a casa, por exemplo, o que fazemos é desestruturar a organização da sujeira para que ela não se estabeleça (evitamos que ela se organize ou reorganize).

Em termos pessoais, precisamos cuidar de nossa organização, desorganizando aquilo que nos prejudica. Quando você percebe que tem um comportamento que está lhe prejudicando, chegou a hora de desestruturá-lo. Se você permitir que ele continue a se estruturar, daqui a pouco você vai virar um mero joguete dele. O que nos faz mal com regularidade está organizado e estruturado.

A melhor maneira de fazer essa desestruturação dos maus hábitos é pela mudança radical. Primeiro pela interrupção, pela restrição; depois pela criação de artifícios de mudança: respirar profundamente algumas vezes, fazer ou pensar outras coisas, ir contando quantas vezes você está respirando até passar de trinta vezes... É preciso impedir o caminho habitual do que nos faz mal (ou pelo qual nos fazemos mal). Assim, o cérebro é levado a focalizar outras emoções, outras opções de comportamento, outras possibilidades de sentimentos e ações correspondentes. E procurar ajuda: as chances de mudança são facilitadas por um ambiente de reforço afetivo: amigos, grupos de apoio, terapeutas, família, círculos religiosos, entre outros.

O mais difícil talvez seja estudar e compreender o problema: a origem do comportamento ruim e recorrente (“afinal, por que eu continuo agindo desta forma?”). Para isso há os psicólogos, os psiquiatras, os mestres espirituais ou as pessoas em quem se confia pela sua sabedoria e bom exemplo.

Cada um sabe de si, mas uma pergunta que também podemos nos fazer: “preciso mesmo disso para viver, para ser feliz?”; pode muitas vezes nos mostrar um caminho de vida mais simples, com menos obrigações insuportáveis, com menos pressões de prazos e tempos mal negociados, com menos expectativas nossas e dos outros sobre nós. Que tal, então, começar hoje mesmo a interromper aquilo que nos prejudica? Quem sabe se pode simplificar mais o modo de levar a vida?

Thadeu Martins