sexta-feira, 14 de maio de 2010

Salto vital e fugaz

Todos nós temos necessidade de um sentido de ordenamento, de sequência, de causa e efeito, de propósito. Por isso criamos modelos de compreensão, mas que não são a realidade. O real mesmo é o “aqui e agora”. Fora disso, tudo será representação, alusão, indicação. Estaremos no mapa, não no território.

Isso, de certo modo, ocorre em todas as nuances da vida. Conforme lembrava o historiador Arnold Toynbee, somos seres anfíbios, com os pés na terra e a cabeça no oceano conceitual. Ou seja, vivemos ao mesmo tempo num mundo material, das relações sociais, e num mundo conceitual, que cria ordenamentos e modelos.

Ao expressarmos o nosso modelo de compreensão da realidade, reproduzimos uma mescla do que a natureza ou as circunstâncias nos oferecem ou impõem. É desse modo que a vida nos forma (natureza versus educação). O que cada um de nós fala sobre algo é sempre uma referência, um modelo, uma racionalização da realidade, que pretende substituir o real.

Cada vez que nos referimos à realidade, temos uma experiência concreta. Quando transferimos essa experiência para quem não a viveu, representamos essa experiência para alguém. Esse, por sua vez, conta o que ouviu para outra pessoa. Assim, a mesma história vai sendo contada ao longo do tempo, com algumas alterações, até constituir algo simbólico, que não precisa mais ter nada a ver com o real, com o material que deu origem àquela história. Desse modo, o simbolismo vai sendo construído, lá dentro de cada um de nós, e satisfazendo a nossa necessidade de ordenamento.

Temos, com nossa rede de 15 bilhões de neurônios, nossa própria percepção da realidade. Percebemos, interpretamos, traduzimos e transmitimos essa realidade em todos os momentos. E para tornar a convivência possível com outras pessoas, vamos nos acomodando, criando pactos. Foi dessa forma que a humanidade conseguiu sobreviver num ambiente hostil, cheio de predadores, com um corpo extremamente frágil. Tudo graças a nossa extraordinária capacidade simbólica, de ordenamento e de acomodação social.

Nós temos sequências simbólicas bastante antigas. Por exemplo, todas as comemorações cristãs – Natal, Páscoa, São João e outras - são referências aos cultos pagãos, relacionados aos equinócios e solstícios. Isso tudo tem pelo menos dez mil anos, enquanto os evangelhos foram escritos (na forma hoje conhecida) a partir do séc. IV, segundo valores do Império Romano de Constantino. Foram relatos transmitidos em forma conveniente a uma determinada época. Então, a história que recebemos transcrita nesse exemplo dos cânones da Igreja Católica reproduz uma conveniência circunstancial criada no séc. IV.

Quase tudo com o qual temos contato hoje, como dogma estabelecido, também é circunstancial, surgido num determinado momento da história, num contexto político, social e econômico de poder e linguagem, que permitiu seu surgimento. A partir de princípios como esses, criam-se condicionamentos, estabelecem-se situações de poder e chega-se até nós em configurações de acomodação de sobrevivência, que interessam a quem está vivo.

Vamos vivenciando as experiências possíveis, de acordo com o que a época e as circunstâncias permitem. O grande escritor brasileiro Osman Lins faz uma bela representação da vida como o salto de um peixe. Viver seria o salto do peixe, que tem a experiência que estamos tendo, de individualidade. De repente, do indeterminado, que é o fundo do oceano, surge um peixe, que logo volta para as profundezas das águas. Surge o indivíduo e logo desaparece. Esse indivíduo que surge, teve a experiência da individualidade. E pode acontecer de tudo: raios, tempestades, pássaros que podem comer o peixe; ou não acontecer nada. Cada um de nós, no seu salto do indeterminado até a volta, terá experiência concreta do real.

Também pode ocorrer de um cardume saltar e cada peixe ter a sua experiência de individualidade. Podemos chamar o cardume de um evento de uma mesma geração. Cada geração compartilha modelos de compreensão da realidade, dando o salto do peixe na mesma época. As verdades que compartilhamos são relativas, de acordo com o histórico e a geração de cada um, com o cardume de cada um, com o que nos antecedeu.

Assim, nossas experiências podem ser muito semelhantes e simultaneamente distintas entre si. A vivência de individualidade única está mesclada com o coletivo de cada geração e com a indeterminação que nos veio a anteceder e nos virá a suceder. Para alguns há a possibilidade de se habituar a reduzir os excessos de informação e solicitações sociais e a compreender que os modelos de representação ou compreensão condicionam bastante o que se vive. Para esses yogues urbanos, abre-se a possibilidade de perceber a realidade de modo mais direto e menos confuso. Para esses, não é preciso morrer para que a alma se libere da cidade e do turbilhão social. Para esses, é possível viver de modo socialmente responsável, humanamente feliz, espiritualmente em harmonia... e são pessoas iguais às que você vê no espelho todos os dias.

Thadeu Martins