sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dharma nosso de cada dia

Yoga e Meditação não surgiram do nada; foram constituídos ao longo da formação do Hinduísmo, o qual, como qualquer outro “ismo”, é uma construção histórica, antecedida pelo cotidiano de uma sobrevivência ancestral. No crescimento de uma civilização, é criado um ordenamento que garante a sobrevivência da maioria. São estabelecidas regras, muitas vezes à força, por uma determinação de poder que cria uma ordem de convivência. Vão-se criando histórias, observando princípios e tudo o mais que é ordenador. Com isso, chega-se à sofisticação cultural, social e filosófica, e cristalizam-se modelos explicativos da realidade.

O modelo de explicação chamado – pelos europeus – de Hinduísmo refere-se à civilização surgida na região entre os rios Sarasvati e Indus. Essa cultura estabilizou-se por volta de quatro mil anos A.C., mas surgiu seis mil anos antes. Essa civilização criou uma compreensão da realidade a partir de uma dualidade original, que se manifesta por meio de três qualidades que constituem a expressão da vida: Sattva, Rajas e Tamas – o sutil, o movimento de transformação e a densidade. Com esses elementos iniciais construiu-se uma visão estrutural do universo, a qual está na base das escolas do pensamento constituídas na Índia.

Cada vez que voltamos na história, encontramos modelos explicativos bastante complexos, mas todos eles vão-se acumulando, acrescentando uns aos outros. O que nos garantiu sobreviver como espécie por cem mil anos é a nossa capacidade de criar um sistema de regulação dos comportamentos à moral. Todos nós temos liberdade de fazer o que quisermos, até o limite que a organização social estabelece.

Por isso, em Yoga, o sábio Patanjali enfatiza o controle do comportamento social, por meio de restrições (yamas) e de não restrições (niyamas). Por um lado, os yamas: evitar o ofender, evitar o mentir, evitar a dispersão do ser (que alguns traduzem de forma equivocada como “evitar o abuso da sexualidade”), evitar o roubar, evitar o cobiçar. Por outro lado, os niyamas: cultivar a pureza, cultivar o contentamento, cultivar a tenacidade, cultivar o estudo, e render-se à vontade divina (Ishivara Pranidana).

Socialmente, temos que estar bem resolvidos. Por isso, Patanjali reforça que fazer Yoga e Meditação é praticar atitudes. E a primeira delas é compreender a ordem, o Dharma - ou seja, saber onde estamos pisando. Precisamos treinar para adquirir essa percepção. Depois vem a atenção para o corpo, com atitudes de autopreservação, cuidado e cura. Em seguida, o cuidado com a energia, com a atividade, que deve ser adequada a cada momento. Então chegamos à mente.

Na compreensão hinduísta, a nossa mente cria realidade; percebe e registra – cria memória; as memórias se conectam e criam noções de tempo e espaço. Com isso, podemos viver o tempo todo no presente, projetando o futuro, rememorando o passado e agregando essas três possibilidades. Patanjali sugere a prática do controle mental: perceber o que é passado, presente, futuro e o que é adequado ao momento. Isso também exige bastante treino.

Na medida em que praticamos essa atenção e compreensão, criamos condições de ir além do que é apenas dado pela herança genética ou pela complexidade social. Abrimos possibilidades que não são dadas pelo cotidiano e que cada um de nós pode descobrir. Podemos assim ter acesso até ao que está além do espaço-tempo.