quinta-feira, 24 de junho de 2010

Estudar é preciso, viver também

Em Yoga, dá-se ênfase ao cultivo de cinco estímulos: da pureza, do contentamento, da tenacidade, do estudo e da humildade - “render-se à vontade divina” (Ischivara pranidana). E por que é tão importante estudar? Para compreendermos o contexto, em que estamos. Para isso, é estimulado o estudo não apenas do momento atual, mas também das “escrituras”, das origens de nossa cultura, para compreendermos como chegamos até hoje e aonde vamos. Isso nos dá uma enorme autonomia.

No contexto da tradição hinduísta, não há qualquer necessidade de intermediação entre o ser individualizado e o não-individualizado; em outras palavras: não há separação entre nós e Deus. Nessa compreensão, todo mundo é simultaneamente matéria e divindade, mundano e sagrado; a vida surge com a dualidade manifestado e não-manifestado, sutil e denso. Não há necessidade de intermediação artificial. E mesmo nessa cultura, que parte do princípio que não há intermediação, há forte estímulo ao estudo, à compreensão, ao aperfeiçoamento de nossa divindade.

Ou seja, cada um de nós nasce Deus, mas a vida nos leva a tantas direções simultaneamente, exige de nós tantas coisas, que acabamos não percebendo que somos divinos e nos tornamos apenas alguém que consegue se articular para sobreviver. Como aquela fábula da águia que vivia no galinheiro desde que nasceu, ciscava como uma galinha, até que um dia percebeu a sua verdadeira natureza e saiu voando.

Então, seja pelo estudo, pela convivência ou pelas oportunidades que nós mesmos nos propiciamos, acabamos desvelando a nossa natureza essencial, que é divina. Quanto mais estudarmos as nossas origens e o que nos cerca, mais ficamos independentes das intermediações equivocadas. Por isso, o sábio Patanjali chama atenção para a importância do estudo. Por meio do estudo, podemos compreender melhor as tendências que adotamos e em que elas estão baseadas.

Nós decidimos a realidade com o que já temos – basicamente a nossa memória, construída no passado. Se a nossa memória está sobre bases equivocadas, podemos tomar decisões absolutamente inadequadas, enfrentando a realidade de um modo que não vai dar certo; os princípios não são adequados a essa realidade. E qual o princípio mais adequado a uma determinada realidade? Podemos descobrir olhando pelo retrovisor, analisando o passado. Mas compreender o que uma tendência de fato revela de significante, para o momento presente, nos exige mais de atenção: percepção do presente e projeção de futuro.

As filosofias, as religiões, as escolas, de modo geral, são muito eficientes em nos oferecer tecnologia de viver em comunidade, de sucesso coletivo, com as quais criamos a possibilidade da nossa individualidade sobreviver no coletivo em que estamos inseridos. Por isso, a prática e o cultivo de Yoga e de meditação estão referidos ao coletivo e ao essencial.

O grande propósito de Yoga é Moksha, liberação – liberar-se do contexto social em que nos encontramos para conseguirmos conviver com ele, sobreviver a ele e contribuir para que ele fique melhor. Da mesma forma, Yoga significa “cessação dos turbilhões da mente”, com o propósito de percebermos melhor onde estamos, com quem estamos interagindo, o nosso papel, as nossas possibilidades e, assim, realizarmos a nossa existência.

Thadeu Martins