quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O desafio de ser livre

Quando se fala em Yoga, quase sempre as pessoas se referem à prática de duas maneiras: como algo muito esotérico, com figuras que são de outro mundo, vivendo experiências fantásticas de iluminação; ou como algo restrito a pessoas com grande flexibilidade corporal, verdadeiros contorcionistas. Essas imagens são apenas caricaturas. Na verdade, o praticante de Yoga é aquela pessoa que resolveu prestar atenção em si, nos outros, na vida, no mundo, de modo que seja bom para todos e possibilite a ela ir além da mera sobrevivência cotidiana.

O maior desafio mesmo é, ao chegarmos à idade em que chegamos, conseguirmos harmonizar as pressões externas e o nosso bem-estar. Ao longo da vida, vamos nos adaptando ao mundo e criando o nosso próprio esquema de sobrevivência social. Conseguimos ser aceitos socialmente. De algum modo, descobrimos algumas fórmulas que dão certo. Mas isso acaba nos exigindo alguma conformação. Então, cada um de nós expressa essa conformação que adotou. Em alguns casos, ela é perfeita, na medida do bem-estar de cada um. Se houver alguma medida de desconforto, é uma indicação de que algo precisa ser mudado em sua vida. Perceber isso é que é difícil. Não somos ensinados em casa ou na escola a esse respeito.

Às vezes, começamos a perceber intensamente o desconforto e nos exasperamos, queremos mudar. Mas sem precisar chegar a extremos, cada um, dentro da sua realidade pessoal, pode perceber o quanto pode fazer para melhorar.

A prática de Yoga está associada a uma palavra que em português se chama meditação. Também poderia ser chamada de contemplação. Meditação e Yoga são quase uma coisa só. Podemos dizer que Yoga é um arcabouço que dá uma compreensão geral. Meditação, por sua vez, é o principal exercício. O propósito é buscar o estado de felicidade, consigo mesmo e com os outros. Em sânscrito, esse propósito tem o nome de Moksha, que significa liberação. Na concepção dos gregos, só a alma (Atma) se liberava do desconforto social. Já na concepção de Yoga, não precisamos morrer para nos liberarmos. A ideia é que levemos a vida de tal modo que consigamos nos sentir livres, vivendo a liberdade de forma que ela esteja compatível, harmoniosa com a exigência social.

A nossa principal tecnologia é social: lidarmos uns com os outros de forma harmoniosa. Então, a primeira atitude que se cultiva em Yoga é perceber o ambiente. Assim, conseguimos harmonizar a nossa liberdade com as restrições que o ambiente impõe. Em seguida vem a atitude de perceber-se, não só fisicamente, mas principalmente perceber com o que ou quem nos identificamos, de modo a cultivarmos virtudes, qualidades e características que nos sejam preciosas. Em contrapartida, vem a terceira atitude, a de desapego, em relação não apenas com o que não mais necessitamos, mas sobretudo com quase tudo com o que nos identificamos, de modo a cultivarmos a maior de todas as liberdades: a de simplesmente viver e morrer. Para tanto, nos valemos de uma quarta atitude, a da autoconfiança, a qual é gradualmente desenvolvida em conjunto com a prática das três anteriores.

Os exercícios de meditação, respiração e as posturas de alongamento associadas constituem oportunidades físicas para praticar introspectivamente essas atitudes e aperfeiçoar as condições da nossa liberação e bem viver. Pratique e prossiga!

Thadeu Martins