quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Aprendendo a viver e a morrer na graça divina

Em Yoga e meditação, cultivamos quatro atitudes essenciais, associadas aos exercícios de postura física: consciência do mundo exterior, percepção do mundo interior, desapego e autoconfiança. Perceber o que é exterior é compreender o ambiente, o que ele exige para se estar ali; enfim, o modo mais adequado de nos comportarmos naquele ambiente.

Em contrapartida, na consciência de si mesmo, cada um se percebe e se referencia a um modelo com o qual se identifica. E isso pode suceder várias vezes ao longo de uma vida, continuamente. Mas com quem mesmo nos percebemos identificados? Que “eu” é esse com o qual cada um se identifica? Seria o “eu mesmo” que vemos no espelho? Seria um personagem que assumimos no cotidiano? Isso pode levar a uma discussão sem fim. Os hinduístas procuram tornar mais objetivo esse processo. Na meditação, por exemplo, podemos nos identificar com o que observarmos atentamente: uma pessoa, uma imagem, um objeto; observar com a intenção de “querer ser” aquilo que observamos. Haverá um momento em que, ao fecharmos os olhos, seremos capazes de ver o que observávamos. Dá-se naturalmente uma identificação. Primeiro nós nos concentramos (Dharana), olhamos fixamente. Depois passamos para o estado de contemplação – Djana (palavra que, por um processo de transição da antiga Índia até o Japão, tornou-se “Zen”). Nesse estado contemplativo, não há mais esforço.

A identificação, pela simples observação frequente, ocorre conosco todos os dias. Nós nos habituamos ao ambiente e, quando algo muda, percebemos a mudança, pois já estávamos identificados com o ambiente. Também nos identificamos conosco mesmo, com o nome que temos, com os muitos nomes que nos deram e com as várias imagens que vemos continuamente ou várias vezes.

E há um terceiro estágio – Samadhi –, quando abrimos mão da identificação: nós e o que observamos nos transformamos em uma coisa só, formamos um todo para a nossa percepção.

É provável que no cotidiano algumas coisas sejam mais percebidas do que outras; nós nos identificaremos mais com elas. Logo, se fizermos um ritual de meditação com qualquer uma dessas pessoas, qualidades, situações ou coisas poderemos cultivar um estado de Samadhi em relação a elas. Assim, seguimos o passo a passo da meditação (Dharana, Djana, Samadhi) e nos liberamos delas, superamos a identificação. É como se, na vida pessoal, abandonássemos os pronomes possessivos e seus conceitos, nos desapegássemos, nos “desidentificássemos”, e passássemos a lidar naturalmente com a realidade como ela é simplesmente.

Essa desidentificação se dá em relação a um "si mesmo" ilusório, ao qual nos habituamos; assim, não se muda a essência, chega-se a ela.

Podemos, portanto, aperfeiçoar nosso modo de ser, de agir e de reconhecer nossa autoimagem, na medida em que cultivarmos identificações que nos façam pessoas melhores. O melhor é procurarmos nos identificar com algo ou pessoas com os quais tenhamos alguma simpatia, que nos façam bem. Assim, cuidado com o exagero de sua atenção para encrencas, pessoas de baixo astral e ressentimentos.

Então, num propósito operacional, podemos aperfeiçoar quem somos e superar desconfortos. Mas o propósito fundamental, que o mestre Patanjali sugere, é a liberação na vida e a preparação para algo que é inerente a ela: a morte. Morrer também é um processo de desidentificação, semelhante ao de meditação. Quando nos fixamos em uma imagem, abandonamos o corpo físico, as emoções e os significados. Saímos, literalmente, do mundo e passamos a um estado de graça. A prática de meditação nos habitua a um processo controlável de aperfeiçoamento e de abrirmos mão das identificações para nos colocarmos em um estado de liberdade inigualável em termos mundanos: de graça divina.

Thadeu Martins