sábado, 12 de novembro de 2011

Viver o viver

A vida tem uma origem dual, da qual tudo se deriva: manifestação (Prakriti) e não-manifestação (Purusha), segundo o Sâmkya, escola filosófica hinduísta que apoia conceitualmente a escola do Yoga.

Mas, afinal, o que é o não-manifestado, o não-material, nesse contexto? Não se trata de uma representação divina, pois o sentido dessa dualidade é lógico: observa-se manifestação em relação a algo que não se manifesta. Portanto, o não-manifestado é um referencial em relação a tudo mais que se manifesta e, por isso, é absoluto.

Purusha é esse princípio universal, esse referencial absoluto, em relação ao qual se manifesta Prakriti, a natureza material da vida. Se as nossas individualidades são manifestações de forma singular, então Purusha está em cada um de nós? Claro, pois se é absoluto está em todo lugar e em qualquer lugar.

Mas a cultura indiana cria também uma palavra para se referir a essa individualização de Purusha: Atma. Cuja grafia e pronúncia lembra alma e que, talvez na origem grega da palavra alma (aquele que se liberta da cidade quando morre), poderia ter o mesmo significado simbólico: o absoluto em cada um de nós, liberto das manifestações sociais e outras (e que não precisa morrer para se liberar, pois já o é).

O meditar, o entrar em si, é buscar o referencial, interno. Mas pouco importa se vamos encontrá-lo ou não. O que importa é que quando abrimos mão da iniciativa, do agir e do interferir, e nos propomos a ouvir, a sentir e a receber, reduzimos as manifestações. Assim, vamos nos deixando integrar a um referencial absoluto. Esse é o conceito e o propósito principal. São consequências a tranquilidade, a harmonia e o bem-estar decorrentes do meditar.

Dessa forma, quando falamos em busca de equilíbrio ou busca de harmonia, o sentido é de estarmos em harmonia com o nosso tempo, com o contexto social no qual estamos, mas a sintonia principal é com esse referencial, não-manifestado, mais interno: Atma, o Purusha em cada um de nós.

Praticamos a atenção, a harmonia, o perceber, buscando esse referencial dentro de nós. Esse absoluto fica em nenhum lugar ou em qualquer lugar específico. Onde ele estiver ele vai estar, porque é absoluto.

O exercício é, portanto, buscarmos em nós mesmos esse referencial. Por exemplo, mentalizamos uma luz dourada, expandimos essa luz por todo o universo, até nos sentirmos parte de uma grande unidade... Você está, nem precisa dizer onde, basta dizer que está, ou que você é.

Esse é o movimento, uma tendência, uma orientação. Seria bem pretensioso afirmar: “atingi a iluminação, cheguei ao referencial absoluto”. Tudo bem, mas logo alguém vai te tirar dele, seja por qual for o motivo. Afinal, o estado de equilíbrio é o mais instável que existe. O que há de mais equilibrado é o movimento. A melhor imagem é a da dança: dançar conforme a música, deixar-se levar, surfar cada onda sonora ou do mar. Mas nós não nos deixamos levar apenas, nós vamos junto. Temos a intenção, o propósito de viver. Eis o propósito: viver o viver.

Thadeu Martins

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A água na fonte dos símbolos e na Roda das Reencarnações

Em Yoga, não há qualquer determinação quanto à espiritualidade. O que se verifica é uma compreensão da natureza, da vida, da mente e da sociedade de forma bastante objetiva. Percebe-se também uma reverência de respeito cultural à mitologia indiana e hinduísta.

São inúmeras as divindades na mitologia da Índia. Ao nos referirmos a esses deuses, entramos em outro rumo cultural: aquele que oferece as alegorias que tratam do simbólico. Como diz o historiador norte-americano Joseph Campbell, a humanidade, por diversas razões físicas e culturais, tem necessidade de representar o mistério e, por isso, cria as referências alegóricas para lidar com a sua realidade simbólica.

Então, essa capacidade de nomear deuses, mitos, símbolos, arquétipos, responde às representações desse simbólico que está dentro da nossa vida. Quando falamos de alegoria – seja religiosa ou mitológica – nós estamos fazendo uma representação que nesta época, com estes recursos e com esta linguagem serve para indicar algo mais profundo que existe ou se manifesta em nossa essência. E essa essência não foi criada há dez, cem ou mil anos. Foi formada há milhões de anos, porque antes de surgir o ser humano na Terra, muitas outras formas de vida nos antecederam, além do fato de o nosso corpo constituir-se de muitas formas de vidas consorciadas (algumas visíveis só por microscópios).

Esse mistério cujos símbolos são continuamente representados por nós, por estórias, desenhos, imagens, vem reproduzindo alguns padrões ao longo da história da humanidade. Haveria padrões originais?

Talvez a água os contenha, talvez... pois, até onde se sabe, a vida surge com a água e com uma primitiva forma de pré-bactéria, que se desenvolve com a água. Nós humanos ainda somos constituídos de água em grande parte, cerca de 70% do nosso corpo é formado por água: algo que se emociona, como já se sabe. O emocional nos constituiu desde o princípio. Água é emoção, água determina a vida, emoção determina a vida, e nós somos emocionais.

Esta nossa essência emocional, no entanto, caracteriza tudo aquilo que chamamos de formação cultural. Essa interação com algum outro princípio de vida, uma pré-bactéria ou pré-molécula qualquer, constituiu a vida. À medida que foram se agregando, acabou levando a esta variedade extraordinária de organismos vivos que vemos hoje.

De fato, os cientistas, os biólogos, que estudam a origem da vida na Terra, com profundidade, quando vão às origens, encontram apenas isso. Não se fala em espírito ou alma, mas em algo que se emociona e que forma vida. Assim, os mitos, os arquétipos, poderiam ser compreendidos, em sua origem, como produto do relacionamento emocional da vida com o ambiente no qual a vida está inserida. A vida se emociona no ambiente em que se encontra e vai exibindo os seus padrões emocionais, que são até fotografáveis, conforme comprovou o professor Masaru Emoto, com o reconhecimento da comunidade científica atual.

O Dr. Emoto conseguiu registrar alterações em cristalizações de água, a partir de emoções que são oferecidas à água, por meio de diversas representações (sons, imagens, palavras etc.). Seja porque se escreveu uma palavra no rótulo do recipiente da água, seja porque se disse algo, porque se colocou uma música ou se fez uma reza, a água muda o formato dos cristais. Quando expomos a água a uma emoção, ela se transforma.

Se a água estabelece padrões (formas das cristalizações) que são reconhecíveis, de acordo com determinado tipo de emoção, isso é muito significativo, pois a água está na origem e no prosseguimento da vida; ela caracteriza padrões relacionados à emoção. Podemos dar nome a cada um desses padrões. Ou seja, estabelecer o modelo primitivo de cada uma dessas emoções. E podemos chamar isso como quisermos: de arquétipos, deuses, entidades, alegorias.

Denominar significa estabelecer nome, código, padrão de representação. O que hoje chamamos de arquétipos são padrões. Existem desde quando? Quanto mais no tempo poderíamos recuar, ou ir às origens, para encontrar esses padrões, esses arquétipos? De onde eles vêm? Se dissermos, hoje, que isso vem das partículas de água que nos constituem desde o início dos tempos, a mesma água da origem da vida na Terra, estaríamos coerentes com tudo o que se diz que se sabe.

Às vezes, a linguagem estritamente científica pode estar falando a mesma coisa que a linguagem estritamente religiosa, já que ambas tratam de representações da realidade para lidarem com a realidade. Na busca da origem, cada um pega um desvio do caminho, mas podem acabar chegando a um mesmo ponto, embora com distintas denominações. Diz o Budismo: nome e forma (nama, rupa), tudo ilusão.

Quando em Yoga falamos de um princípio ordenador, estamos nos referindo a um princípio social, que lida basicamente com a produção cultural. Alguém pergunta: “Existe mesmo a Roda das Reencarnações?” A resposta é sim, culturalmente existe, porque reproduzimos um comportamento a partir das gerações anteriores. A roda está rodando. Mas não estamos falando da mesma pessoa, reencarnada ao longo da história. Há quem afirme que sim. Mas seja o indivíduo ou não que reencarne, isso é irrelevante. Independentemente de haver a reedição do mesmo indivíduo, com certeza existe a transmissão de cada contemporaneidade: de cada época para a seguinte. Isso é indiscutível.

Somos, assim, herdeiros de várias tradições culturais que incorporam os simbolismos originais e os representam e os incutem em nossos relacionamentos e comportamentos sociais. Cada pessoa, dentro dos limites que os seus contemporâneos aceitem, poderia criar algo novo ou escolher qual das possibilidades herdadas seria melhor para si mesma (filosofia, religião, comportamento político).

O Yoga é um exemplo desse tipo de composição de tradições culturais, no contexto indiano de seu surgimento, quando o sábio Patânjali acrescenta um ser especial à sua sistematização (o Yoga Sutra), para atender ao imaginário, místico, heróico dos hinduístas. Essa personagem é Ishivara, que representa o princípio divino da vida. Embora tal personagem não tenha nenhuma aparência corpórea ou figura a si associada.

Ao praticarmos Ishivara Pranidhana, estamos exercendo a atitude de nos entregarmos à vontade divina. Trata-se de um dos cinco principais comportamentos estimulados em Yoga (Nyamas): cultivar a pureza, o contentamento, o esforço de realização, o estudo, e o render-se à vontade divina (literalmente “deixar fluir”). Ishivara é o ser divino, a representação de uma divindade, de um princípio divino que permite o fluir da vida. Assim, o divino, para Patanjali, não é um velho barbudo, é sim um princípio emocional, que está na origem de tudo.

Pode-se observar que essa orientação cultural deriva da compreensão do princípio físico do fluido da vida: a água. Não por acaso, a origem lendária diz que o deus Shiva transmitiu os ensinamentos originais do Yoga a um peixe (Matsia) que observava os diálogos entre o deus e sua parceira feminina Shakti.

Ao mesmo tempo e à mesma época, a escola gêmea do Yoga, o Sâmkya, é isenta de alusão a divindades. Trata-se de uma epistemologia classificatória, uma visão estruturalista da realidade, na qual não há lugar para uma representação divina. Embora esteja totalmente integrada ao hinduísmo, como uma de suas principais escolas de pensamento. Nela há um apenas um princípio dualista, do qual tudo se deriva: manifestação (Prakriti) e não-manifestação (Purusha). Enquanto o Sámkhya sistematiza a compreensão da natureza estrutural da vida, o Yoga sistematiza a compreensão dos comportamentos social e individual, da mente, da vida.

Thadeu Martins

domingo, 17 de julho de 2011

Emoção, razão e desapego

O viver é um permanente registro de emoções e significados do resultado das ações nossas ou de outros. Ao longo da nossa vida, prossegue o processo de memorização dos significados e emoções. Isso não para.

Algumas experiências de vida foram tão significativas para nós - ou por terem sido muito boas ou muito ruins -, que elas estão sempre voltando em nossa mente. São reminiscências, cujas repetições podem nos atrapalhar no cotidiano. E às vezes essa coisa que ficou dentro de nós não é nem uma emoção boa ou ruim, é apenas uma imagem idealizada de nós mesmos. Quantos de nós, até inconscientemente, trazemos essa autoimagem idealizada e cismamos em ser do jeito dela; o que foi até útil em determinadas situações, mas nem sempre é o mais adequado.

Assim, a trajetória de cada um de nós vai-se constituindo de experiências que permanecem, de aprendizado. No entanto, há sempre a possibilidade do erro ou do acerto, porque a nova realidade não é necessariamente igual à anterior. Mas muitas das vezes, o apegar-se ao que já deu certo pode nos fazer fracassar na nova situação. Se de fato ela for nova, a ela não se aplica nada de velho. Na prática, uma experiência totalmente nova é rara. Como vivemos realidades muito repetitivas, as novas situações não são tão novas. Então, quase sempre nosso comportamento dá certo, o que faz reforçar esse modo nosso de ser sempre do mesmo jeito, quase inconscientemente.

De certo modo, vamos nos apegando a certas práticas, certas atitudes, certos costumes, embora nem sempre deem certo. Como precisamos abrir mão de algumas dessas habitualidades para criar e lidar com algo novo que surgir, valeria cultivar a capacidade do desapego, para ficarmos aptos a vivenciar novidades.

Daí porque nos últimos encontros frisamos a importância da racionalização das emoções que ficam nos monopolizando, como uma forma de nos distanciarmos delas para podermos tratá-las. Só depois, então, vamos meditar, quando já estivermos mais apaziguados dessas emoções, que estavam muito fortes e recursivas, para permitir que novos insights e emoções mais suaves brotem.

E aqui vale chamar a atenção para o seguinte aspecto: não estamos nos referindo ao controle das emoções, mas à compreensão delas, para não ficarmos reféns das emoções exageradas. Afinal, podemos até não controlá-las, mas em grande parte elas nos controlam. Se as emoções não estão tratadas de algum modo, elas ficam mais fortes do que nós. Daí “fazem o que querem” de nós, pois nos tomam, nos possuem.

Mas, claro, que temos de vivenciar as emoções, senti-las, percebê-las, até sem preocupação de racionalidade. Se por um lado é importante registrar a emoção, analisá-la para nos libertarmos de uma compulsão, obsessão, por outro lado é essencial desenvolver a capacidade intuitiva de nos percebermos. Na prática de Yoga se estimula tanto a apreensão direta (physis) como a racionalização (logos) do que foi apreendido. São dois caminhos que se complementam e que estão ao nosso alcance, desde quando o ser humano começou a pensar.

Podemos aproveitar o melhor de cada uma dessas direções: apreensão direta da realidade, em que não precisamos sequer traduzir em palavras para compreender o que se passa; e racionalização, na qual utilizamos as palavras para esclarecer o que sentimos, com o propósito de afastamento, de compreensão e de autodomínio.

A natureza primordial de todos nós é emocional. Por mais que alguém pretenda conseguir o controle da emoção, só obterá vitórias parciais e instáveis. Em algum momento, quando se estiver com a guarda baixa, a emoção se manifestará. A emoção é essencial, ela sempre irá aparecer, dará um jeito de se manifestar. Melhor aceitá-la, vivenciá-la, tentar esclarecê-la até que se apazigúe, para que se possa, então, meditar e integrar-se emocionalmente.

Thadeu Martins

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Meditando as emoções

No momento de crise, de sofrimento, de tristeza, dificilmente conseguimos meditar. É mais fácil desviar a atenção para uma solicitação maior. Desviar o foco pode aliviar o sofrimento, mas quase sempre é paliativo demais. O melhor é observar esse sentimento recorrente.

Podemos nos questionar sobre esse sentimento e responder a nós mesmos por escrito ou oralmente. O importante é registrar, porque à medida que tentamos reconhecer essa sensação, conseguimos nos aproximar mais de nós mesmos, além de esclarecer do que se trata. E assim vamos nos distanciando daquilo, do objeto. Tornamos o sentimento algo objetivo.

O ideal é registrar, escrever, questionar-se: O que estou sentindo de verdade? Qual é a situação que me está provocando isso? Qual é o sentimento mesmo que estou tendo? É a primeira vez que sinto isso? Se não, quando aconteceu pela última vez? Com certeza reconheceremos um padrão, que é nosso. Temos uma certa tendência a reproduzir os nossos próprios comportamentos, afinal, somos coerentes conosco mesmos. Esse padrão pode ser uma pista sobre como devemos agir ao lidar com a tal situação que sempre provoca esse tipo de emoção.

A ajuda externa é quase sempre limitada. Um amigo pode auxiliar, se gostarmos muito dele e se ele souber falar conosco. Porém, o resultado será muito mais efetivo se cuidarmos de nós mesmos, por meio de uma autoanálise.

O que chamamos atenção, aqui, é para a importância de primeiro equacionar esse sentimento, essa situação recorrente, para depois meditar. Após nos sentirmos e nos ouvirmos, provavelmente estaremos mais tranquilos. E durante a meditação, pode surgir um insight de como lidar com aquela situação. Podem ser medidas simples, pois nem sempre se tratará de uma solução espetacular.

No entanto, sempre valerá meditar para cultivar-se um estado de não-ação, em que os insights se manifestam. Os indianos chamam esse estado de Ananda, “a graça divina de Brahma”. Cada um de nós pode cultivar esse estado com a habitualidade de meditar diariamente.

Thadeu Martins

terça-feira, 14 de junho de 2011

Vamos nos transformando no que praticamos

Uma das grandes dificuldades das pessoas para meditar é que, sempre que param as atividades do cotidiano, a cabeça não para, pois está tomada pelas reminiscências, pelos pensamentos. Ficam dispersas e não conseguem meditar; e assim a vida se restringe a lidar com os problemas ou com as dispersões mentais que acontecem.

Nessas situações, as pessoas estão voltadas para o exterior, fora do seu próprio controle; estão simplesmente sendo reativas às solicitações que são feitas: do trabalho, da labuta ou das reminiscências mentais.

Uma oportunidade que a meditação e a prática de Yoga nos dão é a de agir, não apenas reagir. E agir num sentido: de nos percebermos, de percebermos onde estamos e de nos desapegarmos de tudo isso que nos solicita para podermos ficar inteiros e exercermos a nossa autoconfiança; enfim, de vivermos plenamente.

O foco é prestar atenção em quem de fato somos e em nossos sentimentos. Uma boa maneira é conhecer por contraste, por exemplo, a partir das emoções que sentimos. Ao meditar, podemos deixar que as emoções e sensações apareçam para que possamos reconhecê-las, analisá-las e tratá-las. Podemos sentir e registrar essas emoções que surgem. Será duplamente bom: ao registrarmos, nós nos afastamos da emoção, não somos mais o objeto daquela emoção, mas o sujeito; além disso, podemos nos tratar para sermos quem de fato somos. À medida que vamos retirando emoções desnecessárias do passado, idealizações e projeções, mais nos aproximamos de nossa essência.

O essencial é a constância, fundamental é garantir um horário. A disciplina só existe se estiver marcada no tempo e no espaço. O primeiro passo é marcar no tempo, ter um horário que seja seu, aquele que tem menos chance de ser sabotado; esse tempo passa a ser sagrado, é todo seu, à prova de interrupções. Em geral, antes do amanhecer e antes da meia-noite são horários muito bons (há menos possibilidade de interferências). E também não podemos nos esquecer de tomar cuidados com o espaço, de criar as condições de isolamento e conforto. É prático ter ao seu lado um caderno e uma caneta, ou um gravador, para registrar os insights que ocorrerem durante a meditação.

A prática diária é fundamental, independentemente de qualquer propósito específico. O atleta que treina regularmente está sempre preparado para um desafio eventual. Assim também, a pessoa que medita regularmente está sempre num estado de potencial tranquilidade para lidar, do melhor modo, com as situações. É nas muitas circunstâncias diferentes que demonstramos a prática de nossas virtudes. Se praticarmos com frequência as nossas virtudes, na hora em que surgir a circunstância, a virtude adequada brotará.

O exercício de Yoga, assim como qualquer outro, tem por característica nos deixar aptos a improvisar diante dos acontecimentos. Incorporamos de tanto praticar.

Mas, então, surge aquilo que não está tratado, o idealizado que ficou da infância e que há muito tempo nos prejudica (inconscientemente). São imagens distorcidas de nós mesmos às quais nos apegamos. Acreditamos nelas a ponto de as consideramos como virtudes, como partes verdadeiras de nós mesmos. Há vezes em que nos damos conta disso: porque percebemos, de alguma forma, ou porque alguém nos diz. A questão é saber se seremos capazes de considerar o que nos dizem e o que passamos a perceber em nós mesmos. Como é difícil perceber quem de fato estamos sendo!

Como disse a escritora Joanne Rowling, pelas palavras da personagem do diretor do colégio de bruxos do Harry Potter: “A pessoa mais feliz do mundo se olha no espelho e vê quem realmente ela é”. Felicidade é ser mesmo quem de fato somos. Ora, isso depende exclusivamente de nós mesmos. Nós estamos no comando desse processo. E, por isso mesmo, podemos prosseguir em nosso ritmo, percebendo aquilo que podemos mudar, cultivando uma disciplina pessoal de transformação.

A sabedoria da disciplina é estabelecer um ritmo que seja adequado a cada um de nós, de forma tranquila, para que possamos levar, com as condições mais favoráveis de tempo e espaço. Vamos indo, anotando, registrando os insights. O que surgir no cotidiano, será tratado com o que estiver ao nosso alcance. Quanto mais estivermos “treinados”, mas seremos nós mesmos e mais teremos chances de agir. E mesmo assim, podem ocorrer circunstâncias para as quais não estaremos preparados. A vida segue: podemos errar, “pisar a bola”, e tentar errar menos na próxima vez, porque a perfeição é uma casualidade e as novidades não respeitam o que já passou.


Thadeu Martins

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Yoga na Prákriti

O trocadilho é só mnemônico, mas, na prática, a compreensão hinduísta da origem do universo diz que tudo começa com uma referência, que não se manifesta: Purusha; e com algo que se manifesta, que pratica, atua: Prákriti.

As primeiras manifestações de Prákriti são Mahat e Budhi. Este último é o equivalente na mitologia grega ao deus Hermes e na romana ao deus Mercúrio – deuses da comunicação. Mahat, então, antecede a Budhi, o princípio intelectual. Ou seja, Mahat equivale ao cérebro réptil; é tudo aquilo que forma a nossa percepção dos sentimentos. Nós sentimos e nos emocionamos antes de raciocinar.

Nos textos antigos, Budhi é associado a um cocheiro de uma carruagem de três cavalos: o princípio sutil (Satva), o princípio denso (Tamas) e a transformação de um em outro (Radja); a realidade é Radja, movimenta-se, transforma-se. Esses três princípios estão sempre em manifestação, às vezes um sobrepondo-se ao outro.

São princípios divinos, não apenas sociais, focos da atenção em Yoga e Shamkya (escolas filosóficas). O sábio Patanjali – que sistematizou o conhecimento em Yoga a partir de toda essa tradição que existia – afirma logo de início que Yoga é a cessação das movimentações mentais, dos turbilhões da mente (Yogachittavrittiniroda). Ele se refere justamente a esse jogo entre Budhi e Mahat, o primeiro tentando racionalizar intelectualmente Mahat e controlar as movimentações Satva, Tamas e Radja.

As posturas e a meditação em Yoga têm como foco esse controle. Ao longo do dia, podemos também perceber as nossas movimentações: às vezes mais preguiçosos (Tamas), ou mais dinâmicos (Radja), ou mais contemplativos (Satva). A atenção a essas percepções é importante para mantermos o nosso equilíbrio. Se, por exemplo, vamos fazer algo que exige muito esforço mental, não vamos exagerar na comida para não ficarmos num estado tamásico.

No nosso cotidiano, vamos usando Budhi para nos equilibrarmos, sem esquecermos das quatro atitudes básicas que são reforçadas em Yoga: saber onde estamos, perceber quem somos nesse onde estamos, praticar o desapego e manter a autoconfiança, para agirmos do modo mais adequado.

Então, a prática de Yoga é ter o controle mental que nos possibilite perceber onde estamos, qual é a energia mais apropriada – se é mais Satva, Tamas ou Radja – alimentar-se e comportar-se de acordo para seguir em frente. É um estado de prática permanente da atenção.

Thadeu Martins

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mude de estação enquanto você pode

Somos todos seres mentais e, por isso mesmo, estamos sujeitos às armadilhas da mente. Segundo o sábio Patanjali, que sistematizou o conhecimento em Yoga, essas ciladas (formas de movimentação mental) são de cinco categorias: o conhecimento certo ou errado, a fantasia, o sono, o sonho e a memória.

Somos um organismo criador de memória. Basicamente, ser humano se relaciona e cria memória. E aí é que mora o perigo, pois, ao criarmos memória, formamos uma referência importante para a nossa vida. Os acertos que teremos serão baseados nos erros e acertos que já tivemos. Mas muitas das vezes, ficamos presos à memória. Com isso vem o medo e todo tipo de elaboração mental baseada em realidades que existiram, mas não existem mais: de fatos passados. Ficamos tão tomados pela vivência do passado que não conseguimos nos desligar.

Todos nós continuaremos a fazer isso, a nos apegar ao passado. Somos assim há mais de um milhão de anos. O que Patanjali sugere é administrarmos melhor essa nossa natureza. Afinal, na grande maioria das vezes, a memória nos é bastante positiva. Mas o fato é que vivenciamos por demais as memórias.

Nos exercícios de Yoga e meditação, nós treinamos como parar esse processo mental – seja o de conhecimento, de fantasia, do sono, do sonho ou da memória. A intenção é criarmos o hábito de neutralizarmos os movimentos mentais. Sabemos que não vamos conseguir isso nunca, mas podemos ter ao menos um certo controle, dependendo da capacidade que cada um de nós tenha e do hábito que cultivarmos. Então, se nos habituarmos a, de vez em quando, parar de pensar, vamos perceber que não é tão difícil assim. Com a prática, vai ficando fácil e assim ganhamos domínio sobre o ambiente no qual estamos e sobre nós mesmos. Deixamos de ficar reféns dos nossos pensamentos.

Podemos também mudar a sintonia mental que nos leva ao estresse e conduzir a nossa mente a uma outra estação mais favorável ao bem-estar. Para isso, vale relaxar, ouvir música, desenhar, colorir mandalas, conversar com amigos e outros meios. O importante é criarmos um hábito, um ritual propiciador. Só isso já constitui uma pré-condição para evitarmos o estresse exagerado.

Patanjali destaca, ainda, que são cinco as causas de sofrimento: a ignorância, o egotismo (ignorância que exagera a importância individual), o apego exagerado ao que dá prazer, a aversão exagerada ao que causa sofrimento e o receio da morte. Ele não discorda que viver é sofrer – isso é uma unanimidade –, mas ressalta que devemos superar o sofrimento.

Então, começou a sofrer muito, o melhor é mudar de estação. Em seguida, pedir ajuda para lidar com a crise. Depois desenvolver um hábito regular de esclarecer, compreender, aceitar a realidade e prosseguir, de modo a tratar com atenção e consequência as causas e condições que propiciam o seu sofrer. Você vai descobrir algumas condições ao seu alcance (talvez com a ajuda de amigos) de tornar o sofrimento mais suportável ou até superável, como é o caso dos poetas, dos compositores e dos artistas em geral.

Thadeu Martins

quarta-feira, 9 de março de 2011

Por uma vida mais contemplativa

A palavra contemplação pode ser entendida de uma forma bastante ampla, como participação, inclusive. Distintamente do que muitos podem pensar, contemplar não é apartar-se.

Indo às origens, o sentido de contemplar é o de tornar-se o que se está observando. Como se o observador e o objeto da observação pudessem tornar-se uma coisa só. Parte-se do estágio de concentração para o de contemplação. A partir daí, transcende-se essa aparente dualidade (observador e observado). Chega-se então ao estágio de Samadhi, em que a dualidade já não mais existe. Isso é possível porque os limites que desenhamos para convivermos, segundo uma determinada ordem, são apenas um desenho, uma convenção, um costume compartilhado e que pode ser superado, transcendido.

Então, o contemplar, do qual falamos, vai além do verbo do nosso código linguístico, para alcançar o que era originalmente, na história do Yoga e de seu modo de meditar. Dessa forma, o que caracteriza mesmo a meditação é o identificar-se com o que se contempla e, em seguida, livrar-se dessa identificação.

O exercício de meditação é estimular essa identificação, levá-la ao ápice e então desidentificar-se, separar-se. Levamos o nosso eu, que está habituado ao próprio indivíduo, a colocar-se em algo, seja numa árvore, num conhecimento ou numa equação. Levamos o eu a se transformar no objeto de observação, até não nos percebermos mais como apenas uma individualidade.

Na vida, em algum momento, nós nos percebemos como indivíduos, temos consciência de nós mesmos, em seguida, percebemos as muitas denominações que temos, percebemos as várias identificações que assumimos, que são papéis, circunstâncias – pai, mãe, professor, empresário. Vivenciamos esses vários personagens, vamos nos identificando com todos eles e vivendo essas muitas personalidades. Também podemos perceber que, além desses personagens, existe alguém que assume esses vários papéis. Percebemos que somos capazes de nos tornar isso ou aquilo, de nos tornar também o objeto de seu estudo, de seu interesse; ao mesmo tempo, somos capazes de perceber que não somos aquele objeto. Podemos tanto nos identificar quanto nos desidentificar.

Ao nos desidentificarmos, perguntas podem surgir, como “quem sou eu, afinal?”. São perguntas que carregam consigo uma série de intenções; trazem um princípio perguntador, que quer nos levar a algum lugar. Já o oposto dessa análise é o contemplar, entregar-se, e ao mesmo tempo integrar-se. Nesse caminho, não fazemos perguntas, nem nos preocupamos em nos identificar; nós nos concentramos a ponto de vivenciarmos aquilo que observamos com atenção.

Então, o contemplar dos três verbos da meditação – concentrar, contemplar e transcender – é um caminho sem perguntas, de entrega. Abrimos mão do agir, dos nossos comportamentos habituais, que se tornaram uma identidade.

Abrir mão dos muitos nomes que temos, dos nossos hábitos, desse “quem somos” é muito exigente. O caminho do não-agir começa restringindo toda essa personalidade que foi formada. Deixamos de agir e nos concentramos, com a intenção de entregar-se e transcender. De repente começamos a perceber a maravilha de estarmos vivos; tiramos dos óculos as lentes da personalidade e deixamos ver a vida seguir, como também pode ser.

Thadeu Martins

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Yoga, sociedade e estado de graça não são gratuitos...

As circunstâncias nos movem. Indivíduos, grupos e sábios, ninguém lhes escapa. Evolução, na acepção de mudanças adaptativas às circunstâncias, talvez seja a expressão mais adequada. Uma andorinha só não faz verão, e se um líder mobiliza muita gente, que mobiliza muito mais... podemos seguir interligando os ditados e construir uma teoria cultural.

Shri Yogendra, ao fundar o The Yoga Institute em 1918, exemplifica uma dessas adaptações: um movimento autodenominado "Renascença do Yoga". Ele e alguns outros seus contemporâneos (Ramakrishna, Shivananda, Aurobindo, Yukteswar, Yogananda entre outros) pegaram a onda do renascimento indiano (movimento de libertação da Índia do final do século XIX ao meio do XX) e reapresentaram o Yoga à própria Índia, de um modo mais inclusivo e extensivo até para os ocidentais adotarem.

As origens do Yoga, no entanto, confundem-se com um período de grande produção cultural de uma civilização já bem sofisticada, a ponto de produzir escolas de pensamento e princípios filosóficos, bem anteriores aos que depois nos chegaram via Grécia e Egito. Portanto, social na origem.

É marcante, porém, a alegoria do sadhu, do eremita e outras que dão uma aura de mistério e poder extraordinário a indivíduos, admirados ou temidos por seu grande conhecimento e superior sabedoria. Mas essa figura individualizada e singular não é exclusiva de indianos, ela espalhou-se pelo mundo. Talvez preencha uma figura arquetípica que nos habita, os humanos.

Da personalidade ao coletivo social, destaca-se, na sistematização do Yoga de Patanjali, a necessária harmonização da atuação individual com os outros no mundo (uma espécie de tríade inescapável de autossustentabilidade). O que constitui um desafio e tanto para compatibilizar em todas as épocas. Nós sentimos com a intensidade das nossas circunstâncias, mas, em cada época, vivem-se as respectivas circunstâncias, e não há evidências de que tenha havido "moleza" em alguma delas para todos os viventes, embora sortudos e espertos sempre obtenham privilégios em relação aos cidadãos normais.

Lideranças sociais bem sucedidas têm que dar um jeito de conduzir o coletivo, mas esse nunca foi o caso do Yoga (apenas uma das escolas de pensamento tradicional). Na Índia, o movimento de desobediência civil potencializou o inconformismo e mais um todo de características socioculturais-político-religiosas próprias com as circunstâncias de enfraquecimento do poderio da Inglaterra na segunda guerra mundial. Um coletivo de enorme complexidade para qualquer tentativa de captura intelectual.

A introspecção individual, no entanto, é mais necessária que desejável como condição do viver (passado o susto e a carreira que permitiram a sobrevivência à circunstância de aniquilamento eventual, que volta e meia nos ameaça de modo radical, desde os primórdios da espécie humana). Quanto mais tranquila e consciente, melhor. Mas se não der, pelo menos temos que descansar ou dormir em paz, com regularidade, para vivermos bem.

Desafios, afazeres, sempre haverá bastantes. Solicitações e demandas, então, nem falar. Porém, são os comportamentos pessoais de cada um de nós que nos colocam mais ou menos à mercê desses fatores externos. Na maioria das vezes, seria possível evitar ou reduzir a nossa exposição aos excessos de fatores externos. Mas somos "viciados" em nossos comportamentos habituais. A "autodesintoxicação" depende mais de aproveitar algum relance momentâneo de lucidez, que nos estimule a pequenas mudanças de comportamento, que possam prosseguir alterando o rumo habitual (como nos movimentos sociais de mudanças que, embora só percebidos quando se agigantaram, tiveram origem e desenvolvimento em pequenas diferenças de atitudes, que se foram reforçando até serem reconhecidas e respeitadas).

Praticar Yoga, meditação, introspecção, reflexão crítica ou outros artifícios que dão chance a mudanças virtuosas: essa é a dica, o pulo do gato. O importante é prosseguir até conseguir disciplina de praticar as virtudes e saborear o caminho do viver nas circunstâncias disponíveis.

Thadeu Martins

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Yoga básico

Fazer e ser. Manter-se atento a essa dualidade é essencial em Yoga. Somos ao mesmo tempo o personagem que está atuando e o ator ou a atriz que testemunha o que fazemos. Observamos e prestamos atenção a quem de fato somos. Assim, evitamos atitudes que não tem a ver com o que somos, que são danosas a nós. O propósito é conseguirmos viver da maneira mais adequada a cada um de nós, de acordo com as circunstâncias.

Os exercícios, chamados de postura, são voltados para o equilíbrio, a respiração, o alongamento e a tonificação. Na prática dessas posturas, são estimuladas quatro atenções: perceber onde se está, perceber as circunstâncias, abrir mão de agir e autoconfiança (com foco no social).

Somos muito cobrados a fazer, a agir. Mas a vida não é só fazer. Muitas vezes, basta a nossa presença, o exemplo que damos. Então, abrir mão, deixar que tudo aconteça naturalmente, é muito importante. Se pararmos para pensar, boa parte do que acontece conosco não depende da nossa disposição de agir: o batimento cardíaco, a temperatura corporal, tudo isso é feito pelo sistema nervoso autônomo. Por isso enfatizamos a terceira atitude, que é deixar-se também seguir no piloto automático.

O importante é que os exercícios sejam uma oportunidade para cada um de nós se descondicionar, perceber as próprias atitudes, respirar bem e recondicionar. Acertar o caminho pela felicidade, por sentir-se bem consigo mesmo e com os outros.

Há quem busque a felicidade como um objetivo a ser alcançado, enquanto outros preferem curtir a caminhada. Qual dos dois tem mais felicidade? Quem atinge os fins ou quem aproveita intensamente o caminho? Provavelmente em algum meio termo, nesse intervalo entre o caminho e a meta deve haver um ponto, uma região de felicidade que atende individualmente a cada um de nós.

Estar disposto a ser feliz já é meio caminho andado...

Thadeu Martins

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A arte de não-agir

Viver é agir. Mas não-agir também é necessário. Podemos agir apenas o suficiente para que socialmente fique tudo bem (o que não é pouco). Não precisamos sobreagir, exagerar no agir. O cansaço é um sintoma de que estamos indo além do necessário, ou pelo menos além do nosso limite – senão não precisaríamos “des-cansar”.

A prática de Yoga é bem mais do que exercícios físicos, de alongamento ou de tonificação muscular. Inclui o cultivo da não-ação em alguma forma que seja acessível para cada pessoa. Por exemplo, propõe-se o exercício de ficar sentado, em silêncio, de olhos fechados, serenando a agitação mental. Essa forma de meditar sentado, com a coluna ereta e as mãos colocadas uma sobre a outra, apoiadas à altura do ventre, também é comum ao zen-budismo, e é chamada de Vipásana. Cultiva-se um estado de contemplação - dhyana, em sânscrito, que é a origem da palavra japonesa zen.

A meditação clássica possui três estágios: o primeiro é Dharana, concentrar-se, focalizar a atenção em algo; o segundo é Dhyana, contemplar – que é simplesmente a passagem do primeiro para o segundo estágio – que se dá pela continuidade, sem esforço; e, por último, atinge-se o estágio de Samadhi (em que o meditante sente-se em comunhão com o que observa na concentração).

Quem não estiver habituado a meditar, a cultivar esse estado consciente de não-ação, pode sentir dificuldade de iniciar-se nessa prática. Algumas dicas podem ajudar bastante, como ir colocando a atenção em cada parte do próprio corpo, desde a cabeça até os pés e, assim, sentir, perceber cada uma dessas partes; em seguida, sentir todas as partes do corpo ao mesmo tempo. Pode-se, a seguir, imaginar um espelho diante de si e passar a sentir cada parte do corpo, cuja imagem se reflete nesse espelho imaginário. O espelho pode ir mudando de posição (ora à esquerda, ora à direita, ora por trás, ora por cima) e você ir sentindo as partes do seu corpo, que se vão refletindo no espelho em cada posição. Outra dica é focalizar os olhos fechados na luminosidade que se percebe entre as sobrancelhas e assim permanecer por um bom tempo. Todas essas dicas podem ser aplicadas em seguida, uma à outra, de modo que o tempo total seja de uns cinco, ou dez, ou quinze minutos, ou o tempo que você quiser.

Note-se que, enquanto se permanece assim, nessas posturas meditativas, o mundo continua a existir, os sons prosseguem acontecendo, continuamos a respirar, pensamentos ou imagens também podem surgir em nossas mentes. Tudo isso é normal e, portanto, o meditante prossegue sem se abalar: percebe tudo, mas presta atenção apenas na luminosidade entre as sobrancelhas ou em algum objeto que tenha escolhido para mirar a atenção. À medida que o hábito de meditar vai-se repetindo, vai ficando mais fácil (embora retrocessos também sejam normais).

Esses são artifícios para focalizar a atenção em algo que não tem nada a ver com a vida social e, por isso, propiciam a não-ação. Há vários outros, como alternar a atenção nos sons ao seu redor e no seu movimento respiratório de ora inspirar, ora expirar. Entre outros benefícios, isso facilita administrar o estresse pessoal e estar mais presente nas situações da vida. Além de cultivar a não-ação, por meio da meditação, também se incentivam quatro atitudes básicas, as quais ajudam a enfrentar as situações estressantes: perceber onde se está, perceber-se em relação ao ambiente em que se está, perceber o quanto se apegar ou desapegar nessas situações e manter a autoconfiança.

Destaca-se, em Yoga, a percepção social e de si mesmo nesse ambiente, de tal modo que a nossa vida não tenha um nível de estresse destruidor, embora algum estresse seja inevitável e às vezes necessário. Também o desapego é enfatizado, para cultivarmos a sensação de leveza e de liberdade. O propósito é percebermos onde estamos, como interagimos socialmente e o quanto essa interação social nos permite liberação, viver em paz e ter leveza.

Yoga está muito relacionado à prática social: observação, atitudes e revisão de comportamentos. Isso pode vir a exigir uma revisão de nossos hábitos, o que é muitas vezes bem exigente, pois naturalmente procuramos sempre estar em uma situação de conforto. Resistimos a mudanças – mesmo quando esse conforto não é tão confortável assim. No entanto, os exercícios preparatórios que foram indicados são tão fáceis e agradáveis, que basta começar a fazê-los para já sentir resultados positivos. Daí, é prosseguir diariamente, e você vai descobrindo prazer em fazer os exercícios. Também vai perceber que há muitas ocasiões (durante o dia, em casa, no trabalho, na escola, até numa fila de espera) que são oportunidades para praticar alguma forma de meditação ou de não-agir. Espero que você curta!

Thadeu Martins