terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A arte de não-agir

Viver é agir. Mas não-agir também é necessário. Podemos agir apenas o suficiente para que socialmente fique tudo bem (o que não é pouco). Não precisamos sobreagir, exagerar no agir. O cansaço é um sintoma de que estamos indo além do necessário, ou pelo menos além do nosso limite – senão não precisaríamos “des-cansar”.

A prática de Yoga é bem mais do que exercícios físicos, de alongamento ou de tonificação muscular. Inclui o cultivo da não-ação em alguma forma que seja acessível para cada pessoa. Por exemplo, propõe-se o exercício de ficar sentado, em silêncio, de olhos fechados, serenando a agitação mental. Essa forma de meditar sentado, com a coluna ereta e as mãos colocadas uma sobre a outra, apoiadas à altura do ventre, também é comum ao zen-budismo, e é chamada de Vipásana. Cultiva-se um estado de contemplação - dhyana, em sânscrito, que é a origem da palavra japonesa zen.

A meditação clássica possui três estágios: o primeiro é Dharana, concentrar-se, focalizar a atenção em algo; o segundo é Dhyana, contemplar – que é simplesmente a passagem do primeiro para o segundo estágio – que se dá pela continuidade, sem esforço; e, por último, atinge-se o estágio de Samadhi (em que o meditante sente-se em comunhão com o que observa na concentração).

Quem não estiver habituado a meditar, a cultivar esse estado consciente de não-ação, pode sentir dificuldade de iniciar-se nessa prática. Algumas dicas podem ajudar bastante, como ir colocando a atenção em cada parte do próprio corpo, desde a cabeça até os pés e, assim, sentir, perceber cada uma dessas partes; em seguida, sentir todas as partes do corpo ao mesmo tempo. Pode-se, a seguir, imaginar um espelho diante de si e passar a sentir cada parte do corpo, cuja imagem se reflete nesse espelho imaginário. O espelho pode ir mudando de posição (ora à esquerda, ora à direita, ora por trás, ora por cima) e você ir sentindo as partes do seu corpo, que se vão refletindo no espelho em cada posição. Outra dica é focalizar os olhos fechados na luminosidade que se percebe entre as sobrancelhas e assim permanecer por um bom tempo. Todas essas dicas podem ser aplicadas em seguida, uma à outra, de modo que o tempo total seja de uns cinco, ou dez, ou quinze minutos, ou o tempo que você quiser.

Note-se que, enquanto se permanece assim, nessas posturas meditativas, o mundo continua a existir, os sons prosseguem acontecendo, continuamos a respirar, pensamentos ou imagens também podem surgir em nossas mentes. Tudo isso é normal e, portanto, o meditante prossegue sem se abalar: percebe tudo, mas presta atenção apenas na luminosidade entre as sobrancelhas ou em algum objeto que tenha escolhido para mirar a atenção. À medida que o hábito de meditar vai-se repetindo, vai ficando mais fácil (embora retrocessos também sejam normais).

Esses são artifícios para focalizar a atenção em algo que não tem nada a ver com a vida social e, por isso, propiciam a não-ação. Há vários outros, como alternar a atenção nos sons ao seu redor e no seu movimento respiratório de ora inspirar, ora expirar. Entre outros benefícios, isso facilita administrar o estresse pessoal e estar mais presente nas situações da vida. Além de cultivar a não-ação, por meio da meditação, também se incentivam quatro atitudes básicas, as quais ajudam a enfrentar as situações estressantes: perceber onde se está, perceber-se em relação ao ambiente em que se está, perceber o quanto se apegar ou desapegar nessas situações e manter a autoconfiança.

Destaca-se, em Yoga, a percepção social e de si mesmo nesse ambiente, de tal modo que a nossa vida não tenha um nível de estresse destruidor, embora algum estresse seja inevitável e às vezes necessário. Também o desapego é enfatizado, para cultivarmos a sensação de leveza e de liberdade. O propósito é percebermos onde estamos, como interagimos socialmente e o quanto essa interação social nos permite liberação, viver em paz e ter leveza.

Yoga está muito relacionado à prática social: observação, atitudes e revisão de comportamentos. Isso pode vir a exigir uma revisão de nossos hábitos, o que é muitas vezes bem exigente, pois naturalmente procuramos sempre estar em uma situação de conforto. Resistimos a mudanças – mesmo quando esse conforto não é tão confortável assim. No entanto, os exercícios preparatórios que foram indicados são tão fáceis e agradáveis, que basta começar a fazê-los para já sentir resultados positivos. Daí, é prosseguir diariamente, e você vai descobrindo prazer em fazer os exercícios. Também vai perceber que há muitas ocasiões (durante o dia, em casa, no trabalho, na escola, até numa fila de espera) que são oportunidades para praticar alguma forma de meditação ou de não-agir. Espero que você curta!

Thadeu Martins